Seguidores

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

KROL RICE, O DOCE DELEITE E A PADARIA















KROL RICE, O DOCE DELEITE E A PADARIA
Autor: João Maria Ludugero

Outro dia não longe,
A 'estranha' amiga Krol Rice,
Com sua abençoada alma
De menina potiguar, travessa, 
Saída do interior, salvo engano
Ela nasceu em Arez, terra boa
Que, ao que tudo indica, areja
E lhe deu iluminada aura à cabeça,
Não no sentido de santificá-la, mas
De 'estranhadoramente' lhe coroar
Com uma tiara muito bonita,
Que fosforesce sua mente
Entusiasta  criatura, doce 
Diva que me indagou,
Ao comentar um poema
Que fiz para Seu Antonio Lunga,
O vendedor de caranguejo:

- O que fazes, ó poeta, longe da tua terra,
Longe do teu chão, da tua Várzea,
Longe do doce sabor do caraguejo
E do gostoso camarão?

Ah, amiga Krol, vida de cidade pequena, sabe como é...
Pode parecer besteira, mas não pra nós
Que tivemos/temos um pé de moleque a nos seguir,
A nos levar pra lá, que nos passa sebo nas canelas  
E nos faz so/correr, pela poesia afora, e discorrer, de certo,
Sem querer ter hora para sonhar, e voltar pra casa.  
Que saudades de andar no meio da rua, pisar no interior,
Sentar na praça, ir lá na padaria de Seu Nenê Tomaz
E comprar peitos de moça, carrapichos, puxa-puxas.
Que vontade de pegar uma nega-maluca de quebra 
Ou um mané-pelado, assim ou assado, de fato,
Raspar a quenga, preparar a cocada, 
Provar da branca e da preta, de quebrar o queixo,
Matar a vontade, sentir o prazer de se deleitar 
Em papos-de-anjo, roscas e sequilhos.
Comer cocorotes, grudes e brotes,
Molhar o biscoito, se lambuzar
Em pães de mel e sonhos.
Ir na bodega comprar doce de leite,
Se enroscar nos rocamboles, nos bolinhos
De chuva, achar um meio justificável
De prolongar o caminho da padaria
Só pra pular a cerca do quintal da vizinha
Pra pegar pitangas, umbu-cajá  e siriguelas.
Se tenho saudade? Mas nem me fala,
Até revejo meu bolso cheio de balas Juquinha!
A caminhada era como se fosse, e era
O mundo da fantasia, mundo do doce
Do grapete de uva e do Ki-suco.
Onde a gente fazia a festa, com maria-mole, dindim,
Chupa-chupa, geladinhos e outras tantas
Guloseimas capitais, sem pecado. 
Íamos eu, a prima Vera, chiquinho de Antonio Euzébio,
A amiga Terezinha Tomaz de Lima, dentre outros, 
Sem esquecer de Gracinha Bento e de Rosa da Viúva.

PRESERVARZEAÇÃO












PRESERVARZEAÇÃO
Autor: João Maria Ludugero

No chão da minha seara,
Da reza faço cantiga
Até plantei um amor
Desses que crescem
Se enraizam nos leirões
Feito manivas e ramas
Que se alastram no paul
Viram logo mandiocas

Viram doces batatas,
Que afloram abrindo a terra
Até plantei milho, melão

Quiabo, jerimuns e gergelim.
Semeei maxixe, melancia e feijão
Das mais diversas espécies.
A ramada cobriu tudo de verde
E a mão de Deus ajudou
Mandando chuva e invernada

Em prol de irrigar, florir o agreste
E a fartura foi tamanha!
Que mais parecia milagre
Na minha Várzea da sorte,
Minha terra prometida,
Banhada pelo Joca,

Rio de água salobra, mas
Tem um riacho que o mel adoça,
Tem um Riachão do meu amor
Eu rezo na forma desses rosários
Os terços da minha sina,
Replanto minhas esperanças
Sou poeta varzeano,
Neto de Dona Dalila,

Mãe de Odilon Ludugero.
Meus olhos seguem vertentes,
Minam feito água de cacimba
Rimo com maracujá
Meus olhos d'água a chorar.
Mas é de felicidade

Quando falo em meu lugar
Rimo com Itapacurá
Minha alegria nunca finda

Acendo as lamparinas
Do festivo Mateu Joca Chico
Numa saudade a bumbar
E boi do destino que ora passo a tanger

No vão de velho Vapor de Zuquinha,
Sob 'quilaros' de candeeiros e estrelas,
É um lume não vago que se chama amor
Que renasce dessa singular poesia

Nos versos que eu tento caiar, e consigo, 
Pois eles saem direto do meu coração sonhador.
Punhal, punhado de rimas
Que o vento sabe levar,
Dando espaço ao tempo

Nas voltas que a vida dá.
Saudade da minha Várzea,
Como ficar sem senti-la,

Eu versejo e juro a ti
Num modo de te en/cantar,
Nunca vou te esquecer, asseguro,

Eu prometo, minha pequena
Enquanto o mundo girar,

Estarei perto de ti, mesmo longe,
Mesmo estando em Brasília!

LUA-DE-MEL













LUA-DE-MEL
Autor:João Maria Ludugero

Sentado à beira do rio,
Respiro fundo, sentindo o vapor
No meu rosto esperançoso,
Sem perceber o tempo que escorre
Entre as finas areias do Joca
Que ampulhetam meus pensamentos,
Que me fazem viajar, ir-me longe e perto
A andar, na altura do arrebol, de certo,
Eu desfaleço no teu colo
Que me reanima, me acalma,
Que me acolhe, que me nina,
A voar, voar solenemente afoito.
Eu mudo de penas, ganho asas novas,
Faço versos, de frente, converso.
Engenho simples poema,
Açudeio nas águas mornas
Do Calango, de sorte
Mergulhado nas lembranças
Alaranjadas do crepúsculo,
Onde já aponta no céu
A lua toda branca, cheia,
Que aguarda o sol se pôr,
Só pra ela se acender inteira, 
Só pra ela se enluarar pomposa,
Só pra ela se derramar faceira
Numa entrega total, em êxtase,
Toda nua, quando ele, dourado,
Atingirá o clímax,
Num lusco-fusco angelus,
Ao suprir suas carências,
Ao folheá-la de prata e mel.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O SUMIÇO DO BANCO DE SEU BITA











O SUMIÇO DO BANCO DE SEU BITA
Autor: João Maria Ludugero

De manhã, o vazio.
O banco de madeira
Da farmácia São Geraldo
Tomou um chá de sumiço.
Banco antigo
Que me viu criança.
Banco amigo
Que desbancou o tempo
Que viu nascer
Toda uma geração,
Banco do inesquecível
Geraldo Anacleto, Seu Bita.
Banco relíquia nossa de cada dia,
Banco que guardava lembranças.
Quantos não descansaram ali a assuntar,
Botar o papo em dia, jogar conversa fora
Desopilar dos grilos da lida, dourar a pílula,
Desancar problemas, saber notícias do mundo
E por que não dizer dos namoros comprimidos,  
Daqueles falados amassos no interior 
Que fazem até banco gemer... digo ranger.
Quantos não se encostaram no assento
E saíram da farmácia São Geraldo 
Com a cabeça menos pesada,
Mais distante das cefaléias da vida? 
O banco de madeira foi furtado.
Quem fez isso não está feliz, coitado,
Está vergonhoso da cara de pau!
Dá até tristeza, decepção.
Não pelo valor material,
O banco não valia dinheiro, não.
Mas visto pelo lado sentimental...
Não fosse assim, digo,
Outro tomaria seu lugar.
Mas como substituí-lo,
Se coisas móveis existem,
Que de tanto marcar uma paisagem
Fazem parte da vida da gente,
Incorporam-se a determinado lugar,
Deixam de ser individuais,
Deixam de ser alheias,
Tornando-se coletivas,
Um bem que pertence a todos
Como relíquias espalhadas
Dentro do peito da gente?
Não adianta se furtar a isso:
Essas coisas  estão contidas
Dentro da alma varzeana.
O que causa indignação subtraí-las.
Quem dele se apoderou, repense bem,
Valerá a pena a devolução do banco.
E sobre o sujeito da ação
Não recairá nenhuma pena.
Caso contrário, resta-lhe a sanção,
A decisão é toda sua,
A sopesar na sua cabeça,  
Cuja consciência ditará a sentença.
Leia-se, publique-se, dê-se ciência.
E saia logo do banco dos réus
Ou prefere ser julgado à revelia,
Não dormir direito, insone ficar,  
Sentindo-se como que seu nome
Estivesse lançado no rol dos culpados?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A MOELA (CORAÇÃO À PASSARINHO)










A MOELA (CORAÇÃO À PASSARINHO)
Autor: João Maria Ludugero

Teu olhar assanhado
Me hipnotizou
Me encandeou
Deixou-me alheio
Sem ver minha cara no espelho,
Pronto para me atirar na parede.

Teu olhar ardiloso
É feito pássaro
De en/cantar,
Teus olhos são aves coloridas 
Que ornam a mente
E beijam as flores do adorno
E arqueam as íris
Das penas de pavão.
É a beleza beleza
Que se fixou no ninho
Onde o amor faz alvorada boreal, 
E eu juro que acreditei, piamente.
Não havia como ser diferente.
Teu olhar me levou à morada 
Que acolhe os anjos,  
Só quis me enamorar.
Nem bem-te-vi, logo me enfeiticei
Mais que te quis, dois bicudos aos beijos, 
Nem brigamos, porque eu já sabia
Que de tico em tico alcançaria
O fubá e teus outros vistosos bicos.
Guardei-me sanhaço, atrevido,
Arribei ação, aliado a Icaro, 
Voei alto no sonho, de súbito,
Só para acender o verão, e tanto acendi, 
Que virou coivara, vento em fogo de palha,
Logo veio tanto fogo e apagou aquela paixão.
Que ironia, mas parecia coisa do destino,
Vesti de gala a campina a rigor, nos trinques, 
Só pra te receber... E zás!

De tanto corujar tuas artimanhas
E de tanto te pavonear, me anulei. 
Quando dei por mim, já era tarde.
Decepção, lá estava eu voando
Sozinho, andorinha no ocaso,
Eu cá com minhas penas,
Eu cá com minha sina,
Em resumo, eu cá atirado
Com minhas pedras no estômago
Eu cá com meu coração-moenda,
Afinal, careço de moela de avestruz,
Objetivando triturar nossas perdas.
E pensar que tudo começou com um olhar...
Teu olhar me deu asas coladas.
Quando acordei, havia muletas
Na sala de estar, quebrara-se a ilusão. 
E a janela do quarto era toda estilhaço,
Enquanto meu coração-moela
Mal cabia numa panela de pressão...
Mas acabou frito, picadinho, à passarinho! 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

POEMA DESCALÇO


POEMA DESCALÇO
Autor: João Maria Ludugero

Não herdei fazenda,
Nenhum legado de alto valor
Nem ganhei botija de alma penada, não senhor.
Eu já nasci rico, desde que dei conta de mim
E descobri que poderia, mesmo descalço me vestir
De quase nada, e não ter vergonha de estar desnudo.
Eu sempre gostei de sentir os pés na terra nua.
Se rachava, passava sebo de carneiro na sola,
Na planta do pé que engrossava. Ficava bom,
Criava defesa, aspereza, tato, calos
E ainda com sebo nas canelas.
Num reclamava, não.
Humildemente era feliz. 
Eu parecia fazer parte do chão,  
O chão me levava com ele, dia e noite.
Era chão pra todos os lados.
O chão nunca me deixava só e com sede.
Eu achava água, minas, nascentes de ariscos,
Cavando com a mão no riacho
De repente, era quase um lago
A cacimba que formava à minha frente. 
De fome, nunca precisei chorar. Careceu, não. 
A terra me ensinou a escavar desde cedo
Suas raízes, não era fácil, não, mas plantava, 
Acompanhava meu pai a semear ramas e manivas, 
Acabava por apanhar doces batatas e mandiocas. 
Era de praxe, aprender a pescar no rio Joca. 
Além da pesca, já saía das águas de banho tomado,
Com a alma lavada de brincadeiras e mergulhos.
Depois, seguia para casa com a enfileira de pescados,
De piabas, carás, aratanhas e jacundás.
No caminho do mato, de atalho, já colhia tomates-cereja
E outros frutos e temperos que brotavam da terra.
Vida boa,  a vida da minha Várzea.
Tão simplezinha, tão à-toa, mas tão acolhedora.
Interessante, pode até parecer uma vidinha besta,
Mas penso assim, não. Deito na rede e fico a ruminar: 
Muita gente trocaria a vida apressada
Que leva, de ações, bancos e robôs
Para estar ali, para pescar e se achar descalço
A sentir o chão a lhe dar chão
Não movediço sob os pés,
A pisar destemido nas areias finas do rio Joca,
Bem ali na minha Várzea de Ângelo Bezerra!
  

KIRO E A LINHA DA EVOLUÇÃO (KIRO GIRA-MUNDO)











KIRO GIRA-MUNDO
Autor: João Maria Ludugero

Hoje acordei, e pensei
Quero fazer um poema
Para a amiga Kiro...
E, num toque de ideias,

Pois não é que de letras retiro 
Estes tão simples versos 
Que brotam quase sem rima,    
Mas seguindo a linha
Do coração, de certo, 
Sendo ela a flor da vez
Em que ora me inspiro, 
Menina moça mulher,
Entra em cena estranha magia
Das boas, forte e poderosa
Só podendo ser sintoma

De propícia alegria.

Kiro, quero em tua cabeça
A flor que o vento balança,
Flor que o tempo despetala,

Mas não te descolore a tiara
Em tua trança de estrela
Que ampara, que acolhe,
Que se recompõe, se refaz,
Que se restaura após a cadência
Da linha da mão na linha da lida.

Kiro, encarnada flor cigana,
Que nasce sem hora, ávida,
À flor da pele, tatuagem,
Cacho de flor dourado, reluzente
Que evolui e faz girar
O coração do mundo,
Duradouro girassol, acesa chama, 
Ponto de partida em tela,   
Que faz reverdecer a vida,
A apanhar sonhos e prendas
Aonde vai mais se demorar o sol,
Até no clarão da lua, que desce
Só pra brincar em tua janela,
Que adentra teu peito, te revela 
Ao desnudar tua alma de flor
Que ainda mais te apraz guerreira,
Candeia de perene luz, 
Lança incandescente e certeira
Que atravessa o coração
Que nos faz sentir
Necessárias dores e as tira
E nos faz suplicar
Pra morrer, de súbito,
Só se for de amores.  

DESATADA CANTIGA










DESATADA CANTIGA
Autor: João Maria Ludugero

Eu desafio palavras vãs
A desfiar versos arteiros
A achar meadas e fios
A arrematar desalinhos,
A desatar os nós cegos
Desses que ficam amarrados 
No emaranhado do avesso
Que se instauram no tear do peito
Sem pedir licença, e entram,
Escancaram portas e janelas
E se acham senhores da senha,
Adentram trilhas e entranhas
Nas alvoradas preenchidas de acordes
Desses que soam solenemente
Com a 'quilaridão' das enxadas,
Chafurdando os leirões e as regas
Arrancando a epiderme da terra,
Aonde adormece a ferrugem do destino
De entisnados candeeiros a querosene,  
Acesas piras insones de fim de festa
Aliadas a antigas esperanças vaga-lumes.

Meu Coração cavalga no peito
Em pêlo, vai afoito num galope
Rasante pela estrada de chão batido
Em riba do couro das palavras
Que selam meu canto de reza
Que entoam cantigas de fé
Que fecham meu corpo a assombrações,
Que se abrem em possíveis sonhos
Que ainda empinam certezas e credos
Que espirram e arrebentam calos 
De esperanças amadurecidas
Que nem ardentes labaredas
Num chão de cantigas de amor
No sutil artifício da dor artesã
Num sangradouro de poemas agrestes 
Que faz ferver o açude de lembranças
No intuito de descansar, sem receios, 
Sob a sombra do verde juazeiro
Só pra afastar o medo terrível
Da solidão a dois que ora carrego. 

DE ONDE EU VENHO

















DE ONDE EU VENHO
Autor: João Maria Ludugero

Venho de um lugar de ruas calçadas de paralelepípedos e de becos entortados. Venho de uma terra de uma gente tão bonita e modesta, tão rica que faz festa até das coisas simples. Como é hospitaleira a minha Várzea das Acácias!

Meu pai Odilon tem sua casinha lá, de onde nunca pretendeu sair. E se um dia tiver que ir embora, será de vez para encontrar sua amada Maria, que foi morar no andar de cima. É que minha mãe Maria Dalva de seu Odlion, tinha nome de estrela, e era uma delas, voltou a se firmar no céu, a nos orientar de lá. Na verdade, a brilhante estrela dalva é o planeta Vênus, conhecido como estrela da manhã (Estrela d'Alva) ou estrela da tarde (Vésper). Dona Maria, estrela dalva a alumiar a minha vida inteira!

Eu me criei na Vargem entre roça, roçados, galos de campina, canários de chão, bodes, cabras, borregos, aves, pessoas humildes, árvores, cajueiros e mangueiras, riachos e Vapor. Aprecio viver em lugares assim, por gosto de estar entre lajedos, pedras, lagartos, preás e macambiras.

Agora estou em Brasília, vivendo no cerrado em pleno Planalto Central, prestes a publicar meu livro de poesia "Memórias de Um Menino Varzeano", sinto-me deveras honrado com isso, e, sempre que me sinto só e a saudade me bate, apanho, mas fujo para a minha Várzea, onde sou abençoado por São Pedro Apóstolo, padroeiro do meu lugar.

Continuo a escrever e não abro mão desse ofício, nem acho isso besteira. Sinto-me a escorrer pelo papel, quando discorro meus versos que me salvam de mim mesmo, da incessante busca da vida arteira, de uma paz que se procura todos os dias nas coisas, e não se acha — a poesia é que me salva.
Sei que estou aqui de passagem. Não estou infeliz, nunca tive o espírito pobre porque herdei a curiosidade. Busco alma nas palavras e as engenho, reinvento sentidos e viajo nelas. A poesia me recria. Sou sobrevivente cresço, procuro renascer até no ocaso! No meu morrer de fênix tem uma dor pungente que me dispõe a brotar depois das queimadas, que provém do bater de cascos incansável ou seria da ferradura do tempo?

ESTOURO DE AMOR E OUTROS BICHOS

 




















ESTOURO DE AMOR E DE OUTROS BICHOS
Autor: João Maria Ludugero

Já me dizia um velho amigo arisco,
Quando ácido desde as entranhas: 
Que o amor é como grama
A gente fertiliza, poda, apara, drena,
Irriga todo santo dia-após-dia
E até até arranca as pragas daninhas.
Ela demora a aceitar os cuidados,
Mas, logo que caem as primeiras chuvas
Do céu, a água parece que já vem
Com o adubo necessário,
Na medida exata, certinha.
A grama cresce, linda,
Fica verdinha, verdinha
Verde-esmeralda, fica logo bonita,
Fica bonita demais da conta.
Mas, vem que chega um dia que,
por simples descuido ou cautela,
Num ato comezinho, de fato,
A gente vai e esquece  
A porteira aberta.
Aí vem um touro, aí vem uma vaca...
E já se viu o estouro.
E, num instante, danou-se!
Num átimo de segundo,
Acabou-se tudo,
Acabou-se o pasto,
Acabou-se o mundo.
E aí, nessas horas,
Fazer o quê, me diga:
Se atirar no poço até o fundo
Passar das estribeiras
Ou fincar  o pé na jaca,
Marcar a letra "e", "f"
Falso ou verdadeiro
Ou nenhuma das alternativas?
Acende-se o cachimbo da paz,
Descortina, faz fumaça  
Pede trégua, um tempo e água 
Pra levantar bandeira...
Arre, a égua foi pro brejo.  
Relaxa-se, vai dar uma volta e meia
No parque da vida, na selva real,
Esfriar a cabeça, arrefecer os ânimos,
Só pra arejar a massa cinzenta,
Enquanto em  páginas se revira sua vida
De sapato a gato, uma burundanga,
Eu já vi esse filme, de carteirinha
No aguardo de nova investida
Do tal amor, que de outro modo
De certo, vai nos envolver, ah, se vai!... 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O POETA, A FLOR E O COLIBRI













O POETA, A FLOR E O COLIBRI
Autor: João Maria Ludugero

Rosa querida,
Encarnada flor
Da cor que sejas,
Que vem assim voraz
Bem-me-querer,
Pétala por pétala
Me apreciar inteiro,
Azulejar meu banho
Como quem quer
Airosa me enamorar,
Acordar os sonhos
Desse menino varzeano,
Poeta-colibri  
Rosa rara, rosa azul
Que vem ler na minha cara
Em letras garrafais:
VIDA, EU TE AMO!

Ditosa rosa que me apraz,
Que faz meu coração
Desmuniciado
Lutar, lutar, lutar
Disparada mente,
Vencer receios e espinhos,
Beijar teus seios com fervor
Nesse jardim me dispersar
Me desmanchar néctar no ar,
Virar vapor no azul do céu,
Trazer perfume e outros lumes
Em doce deleite mergulhar
Ter todo teu amor
E firmamento.

FÉRIAS NO ITAPACURÁ



FÉRIAS NO ITAPACURÁ
Autor: João Maria Ludugero

Eu sei de um lugar,
Que vou lhes falar...
Um lugar onde eu passava
Minhas férias de menino 
Eu ia para o sítio do Itapacurá,
Lá pra chácara do grande Tio João Pequeno.
Chegando lá eu me deparava com riachos,
Com bichos, pássaros e diversas aves a ciscar
Por entre jasmineiros e laranjeiras.
Era uma festa andar descalço pelas nascentes
E tomar banho de rio... Tchibum!
A gente dormia com as galinhas,
Pássaros a se aninhar e o canto dos grilos,
O galo a cantar para as estrelas,
Sem nada a grilar nossa cabeça.
No dia seguinte, acordava bem cedinho.
A alimentar os gansos, os marrecos
E as galinhas-de-angola.
Travesso, corria pro curral
Pra beber o leite da vaquinha mimosa,
Tirado na hora, quentinho
Na caneca de ágata
Toda espumando a fazer o bigode da alegria.
E o cheiro de café coado no saco,
Direto na chaleira de ferro
E as broas de milho assadas
No forno-a-lenha, as batatas-doces.
O aroma se espalhava por todo canto,
E abria o apetite
E não tinha outro jeito, 
Tinha que provar de tudo
Dos quitutes vindos da cozinha de dona Zefinha.
Tudo era tão simples, quanta delícia na mesa farta
De tapiocas, queijos, canjicas, pamonhas e coalhada.
Lembro-me de que dona Zefinha gostava de temperos.
Ela cultivava uma horta no quintal,
Bem cuidada, havia ali pimentões
E pimentas de cheiro, dedos-de-moça, biquinhos
malaguetas e do reino,  mamoeiros carregadinhos
Açafrão, hortelã, erva-doce,
Manjericão, alecrim e tantas manjeronas.
Eu gostava de apreciar essas coisas
De natureza viva tão singular.
Era um lugar que me dava muita paz,
Um enorme prazer de curtir minhas férias de menino.
Eu moleque varzeano, criado solto,
A andar de jumento, a tanger as cabras,
Aprendi, ainda naquele tempo, de verdade,
O quanto pode nos fazer rico
E feliz essa vida simples.
Acabavam as férias. Ia embora mais leve.
Carregado de saudades. 
Era um barato curtir o Itapacurá,
E voltar pra casa com a alma lavada,
Aliviado com as energias revigoradas,
Maravilhado com as coisas rústicas,
Simples e modestas do Sítio de Tio João Pequeno. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

CARNE VIVA (II)













CARNE VIVA (II)
Autor: João Maria Ludugero

E Maria continua no rabo da fila
Na expectativa de melhorar de vida
Se espicha como pode, se contorse
Na dança da lagartixa, apanha  
Sem direito a ensaio, que nada
Ela faz das tripas coração.
Ossos do ofício, até vende rifa
Onde o sorteio, o alvo do prêmio
É o seu corpo presente, de fato,
Triste ironia, vende as carnes
Para ter sustento e, na barganha, 
Tenta ganhar o pão.

Maria da raia, não há como evadir-se.
Gira sua sina enquanto o mundo roda
Ela abre o leque pra se abanar, sem remédio, 
Ao transpirar e suar frio no açougue
Ao cair na lábia da freguesia, ao dançar
Para satisfazer estranhos instintos
Na saia do seu destino
Que acende a chama,
Enquanto ela se inflama
Sob a luz vermelha do calçadão.

A vida crua lhe tira o couro
Sem anestesia, sem fazer uso
De navalha alguma, do corte
Maria já nem sente o medo atroz,
Acostumou-se aos malabarismos
Sua vida é dura, não é feita só de batons,
Colares e pulseiras coloridas
Não é moleza não a poda.
Certa feita, distraída no passo,
Numa briga de rua, afoita,
Numa disputa por espaço,
Foi pego desprevenida
E perdeu pedaço da orelha.

Maria tem receio de que um dia
A moça venha lhe peitar, de súbito,
E, numa cilada, num golpe ou vacilo
Ela possa ser nocauteada, em cheio,
Perder os dentes, ficar banguela,
E nesses moldes, catraca desdentada,
Quem vai querer deitar, me diga,
Com essa pobre dona deformada,
Se a vida já lhe arranca os olhos da cara?
Imagine se se tornar inválida para o batente
Ou lhe aconteça algo pior nesse mundo cão:
Maria das dores ou Maria das graças
Amanheça atirada num canteiro nua
Desfigurada, com a boca cheia de formiga.

Espelho, espelho meu, seria sonho meu
Pensar que a vida real poderia transformar  
O cruel e ambicioso espelho da madrasta,
Obrigando a pobre Maria coitada sem senha 
A usar o elevador de serviço em nome do social,
Ela que tanto já sua ao escalar os degraus impostos 
Ao pagar as promessas com Nossa Sra. da Penha?

CARNE VIVA (I)













CARNE VIVA (I)
Autor: João Maria Ludugero

Nos tempos de vaca gorda,
Maria vai com as outras
Maria do bom pasto
Maria é mimosa, altiva,
Maria deleite, musa de elite
Do botox e do silicone,
Tem os peitos fartos
Em riste, é escolhida a dedo
E nem lhe olham os dentes.
Perfeita Maria da glória
É da vida vip que sorri para ela
Maria das mamatas
Dos programas da alta society.

Nos tempos de vaca magra,
Maria passa-fome
Maria desdentada,
Maria magricela
Maria oferecida,
Vai com qualquer um
O que chegar primeiro,
Não lhe resta escolha, não.
Maria não pode perder freguês
Cansada da lida, sonha mudar de vida,
A brega Maria há tempos ficou banguela,
Quase já não pode, mas aguenta, 
São ossos do ofício, a lida lhe suga,
Como largar o serviço, me diga,
Quem vai pagar suas contas,
Se não rodar a bolsa na rua?
Maria sem vergonha na cara
Já não se enxerga nem pensa,
Resignada, arrisca abrir as pernas.
Se não fizer a entrega da carne,
A vida lhe cobra sem demora,
A vida vem e confisca a sua!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

SONHAR COM JABUTICABAS (O POMAR DE JULIETA)













SONHAR COM JABUTICABAS
(O POMAR DE JULIETA)
Autor: João Maria Ludugero

Teu olhar me sorriu
Me jogou estrelas no rosto
Até agora posso lê-las
Na tarde lilás tão bonita
Que o sol teceu no céu,
Na imensidão de nuvens de algodão
Entre outros bichos do poente
E os que desenhei na boca
Do crepúsculo até o anoitecer 
Só pra afastar minha insônia,
Agarrado aos teus sonhos e tranças
Só pra dar rasteira em quaisquer medos
E arregaçar as mangas ao descanso. 
Tanto assim que agora dormi embalado
Pelo doce encanto de estar deitado
Numa rede no alpendre lá na minha Várzea, 
A chupar uma bacia de mangas
E tecer ideais nesse instante longe
Como se fosse possível, de súbito,

Ser arremessado nessa magia...
E não é que fecho os olhos, por um momento,
E logo adormeço a tecer este simples poema.
Empolgado, passo a trepar na velha mangueira
E acordar na velha infância
Como quem viaja ao interior,

A degustar fatias de bolo de fubá,
Com recheio de goiabada cascão

E outras iguarias de dar água na boca,
A me lambuzar no mel do Itapacurá, 
Extraído na colmeia do quintal
Da casa de dona Julieta, vó de Edileuza,
Entre as jabuticabas e as pitombeiras,
Admirando as fotografias em preto e branco
Mas que pulam coloridas para meu espanto,

Como se as imagens saíssem da moldura
Que a poesia me levou a sonhar
Para o meio da sala de estar 
Acordado nesse pomar de lembranças.

AÇÚCAR, POESIA E OUTROS CARAMELOS















AÇÚCAR, POESIA E OUTROS CARAMELOS
Autor: João Maria Ludugero

Eu só queria te fazer
Um poema assim moído
Espremido, supra-sumo no tacho
Produto do bagaço da cana,
Garapa coada, evaporada,
Simples e bruta
Caldo recém-saído da moenda
Um poema-mascavo,
Assim meio açúcar
Assim meio rapadura na liga
Assim meio batido temperado,
Assim meio no ponto de puxa
Assim rústico mel, melado na caldeira
Assim engenhosamente formado
Endurecido retângulo estandarte 
Assim cristalizado assim confeito,
Assim casadinhos com afeto,
Assim tão bem colocado
No equilíbrio do amargo
No bom bocado do sonho
Calda de caramelo, diversos feitios 
Cocadas, alfenins em arranjos,
Pés-de-moleque e algodão-doce
que a vida tempera
Em papos de anjo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAISAGEM URBANA: NA LINHA DE PASSE


Foto de criança fumando Crack na rua.


 











PAISAGEM URBANA: NA LINHA DE PASSE
Autor: João Maria Ludugero


Luzes, vitrines, neons e vertigem
Na passarela, a arte moderna se copia
Manequins no topo parecem de Marte
Desfilam por sonhos alheios
Para outros usar, abusam do prazer
De vestir a roupagem que nada tem a ver
Com as criaturas que se dizem ser.
A cidade acorda exposta ao espanto
Mendigos dormem encolhidos
Debaixo da ponte, nos viadutos
Ou sobre as esmolas num banco da praça,
Mais parecendo espantalhos de gente
Ou judas a serem malhados por nós
A qualquer instante, sem pena,
Linchados, cuspidos ou até incendiados.
Morrendo de frio ao relento, 
Ajeitam-se como podem no jardim
Entre caixas de papelão, monumentos,
Sacos de lixo, restos de comida.
Mas logo vem a fome danosa 
Que abre um oco maior ainda
A roncar na barriga vazia  
Do João-ninguém que nunca vai à escola,
Senão para fazer o repasse da droga, e faz
No papel de laranja ou mula vai-com-as-outras,
Pouco importa, carece matar sua sede de esperanças,
Nem que seja num gole de pinga ou desgraça
A queimar o crack e outras colas da hora
Adquiridos na linha de passe da rodoviária.
Perde o olfato e ainda descola, de quebra,
Uns trocados no semáforo, por sorte,
Enquanto repassa a bola da vez, reincidente,
Sem saber o que lhe reserva o amanhã-flanelinha.
Senhoras e senhores parecem imunes, displicentes
Bonecos infláveis nem aí para a presente situação,
Nem percebem nosso ovário cheio de violência
E apenas engrossam a vista, sem se dar conta
De que ainda mais borramos essa paisagem urbana
Com a nossa sensível ignorância, de fato,
Sangue latente a se alastrar, a ilustrar nossos muros
A pichar nossos dias brancos de outras cores chocantes
Que desenham tristes quadros hediondos
Que tanto medo derramam em nossas faces
De certo, oriundos da nossa inafiançável indiferença.