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quarta-feira, 30 de março de 2011

O LANDUÁ















O LANDUÁ
Autor: João Maria Ludugero

Xibimba vai à pesca.
Pula de contente ao se achar
Fisgando uns piaus, uns carás
Para fazer pirão escaldado

Com farinha de mandioca.
Para dar cor à sua cara pálida,
Para poder dar sustança às pernas
Para poder o corpo aguentar.
O menino avança ao sol,
Desde cedo caleja seus pés
Na areia quente do rio Joca,

Feito lambari a saltitar fora d'água
Na peleja de saciar a fome da mulinga
Arrasta-se ao riacho raso,
Onde crédulo insiste em lançar

Seu gasto landuá velhinho
Com alguns buracos e
Uns tantos remendos.
Buliçoso na baldeação das águas,
Mergulha o menino varzeano
Em busca de algumas piabas,
Jundiás, curimatãs, aratanhas
E principalmente traíras.
Ele se afoita a ir mais fundo, astuto,
Revolvendo as águas mansas,

Abrindo-as, na esperança  
De tirar do rio seu sustento,
Apanhar o peixe necessário

Para encher o galho da enfieira,
Sem carecer de abarrotar o samburá,

Mas garantir que não se escafeda tão cedo,
Não antes desse moleque ganhar o mundo.
Ganhar o mundo já sem seu landuá,
Mas sem perder a alma de arrasto,
Quando as traíras lhe dizimarem
O rudimentar instrumento de pesca,
Nos contornos desse efêmero rio
De salobras águas barrentas.

5 comentários:

  1. Esse seu poema-prosa nos remete à vida ribeirinha, em cruas e doces lembranças. Muito bem sabe disso quem teve a sorte de ali passar, pescar e mergulhar nos poços e cacimbas do rio.
    Lembrei-me da minha infância em São Gabriel da Cachoeira onde meu pai me levava para o rio me banhar e apanhar peixe, que de tanta abundância pegava até com as mãos. Belos dias. Meu peito chorou. Pesquei lembranças. Lindo texto. Parabéns, poeta! Vc fez uma lágrima cair salobra no meu rosto. Mas não fiquei triste não, porque vivi. Fui feliz! Grande abraço.
    Josué Ferreira Bitencourt.

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  2. Que boas recordações para quem viveu, que bela imagem para quem lê.

    Abraço
    OA.S

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  3. LINDO. LINDO. LINDO!!!!!
    ESTOU SEM PALAVRAS.
    PESCASTE-ME A ALMA
    COM TEU MAGNÍFICO POEMA.
    UFA!!!!QUE BELEZA, QUE SENSIBILIDADE,
    VOCÊ, LUDUGERO, SABE MUITO BEM MANEJAR SEU LANDUÁ. TAÍ O RESULTADO. GRANDE PESCARIA. LINDÍSSIMO POEMA. AMEI.
    ABRAÇO. DAYSE FRANÇA NEPOMUCENO - RIO DE JANEIRO.

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  4. O poema é o retrato escrito da cena, dá até pra ver o menino no rio...

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  5. Parabéns pelo blog. Ótimos posts.
    Seguindo-te. Retribuindo a visita e comentário lá no Molhe-se.Sempre bem-vindo.

    Beejo,beejo.

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