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domingo, 13 de março de 2011

VÁRZEA EM DIA DE DOMINGO (SIMPLES CIDADE E SEUS CROTES SANTOS)




















VÁRZEA EM DIA DE DOMINGO
(SIMPLES CIDADE E SEUS CROTES SANTOS)
Autor: João Maria Ludugero

A vida é dura, rapadura é doce.
É consabido. Isso já matutava minha vó Dalila
Ao voltar da missa empunhando seu terço
De contas azuis bala soft. Poderoso rosário.
A lida dali pode ser doce, mas não tem moleza não!
A vida segue assim, levada na mansidão 
Quase silenciosa, não fosse o burburinho
De fim de feira de domingo, por entre pessoas,
Barracas, frutas, bichos, temperos e especiarias.
 As ruas entrecortadas de paralelepípedos
Seguem sob o sol a pino e chegam a becos
De paz verdadeira espalhada em gerânios
Nas janelas de modestas casas caiadas. 
Há perfumes de damas-da-noite que jasminam o ar.
Há erva-cidreira, capins e outros crotes santos nos vasos,
Comigo-ninguém-pode, lanças-de-Ogum, pinhão-roxo,
Espadas-de-São-Jorge, arruda, alfazemas, alecrim
E outras marias-sem-vergonha a espiar na janela.
Vizinhos na calçada se esbaldam entre bacias de pipoca,
Batidas de coco, leite-de-onça e quebra-queixos,
A jogar conversa fora, a contar corriqueiras anedotas,
Bebericando aquele aromático cafezinho coado no saco
Num instante de se jogar em outras regalias:
Redes de algodão no alpendre, tamboretes,
Cigarros de palha e espreguiçadeiras de esticar a alma 
Botar os pés no céu desse chão a conduzir com fé santa
Minha boa gente vivedeira, tão hospitaleira. 
No velho cruzeiro, aos pés do madeiro,
A reiteração dos pedidos de mais valia,
Renovando esperanças velhas, já há muito encostadas,  
Agradecendo outras, enquanto acendem a devoção
Em velas de parafina, fazendo da reza um canto.
No terreiro, ainda queima um resto de fogueira.
Ainda arde o sol na varanda da tarde amena,
Enquanto dona Ana Moita, benzedeira de mão cheia,
No uso dos ramos, canta, reza e retira de nós os quebrantos.
Eta vidinha boa, essa da minha Várzea! 

4 comentários:

  1. Cada vez que o leio sinto saudades da minha terra. Abraço.

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  2. Tão bom de se ler... os versos correm livremente e para cada um, a construção das imagens.

    Boa semana!
    ¬

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  3. "No velho cruzeiro, aos pés do madeiro,
    A reiteração dos pedidos de mais valia,
    Renovando esperanças velhas, já há muito encostadas,
    "

    É o que preciso, renovar esperanças!

    Obrigada, querido... É bom encontrar essa rede armada na varanda da tua casa (blog)!!!

    ^_^•

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