Seguidores

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A VOLTA DA BANDA DO DIA 7 DE SETEMBRO










Autor: João Maria Ludugero

Eu queria fazer versos singelos,
que dessem o tom de saudade,
que lembrassem da comemoração
do dia 7 de setembro na minha Várzea,
dia em que não perdíamos a alvorada,
acordávamos com a lua ainda alta.
E lá íamos nós pelas ruas de pedras
do passado espelhando a madrugada.

E a gente ensaiava a bandinha
e a banda era pura magia,
dessas que ficam na alma mais
do que se tivéssemos ido com ela.
E a gente ficava maravilhado!

Dava uma vontade danada de sair correndo
pelas ruas de paralelepípedos da minha Várzea,
junto com a banda da independência.

Como era pura e simples a emoção
do tempo em que era de costume, ato cívico
cantar os hinos e hastear a bandeira,
rogando fossem abertas as asas
da liberdade sobre nossas cabeças,
dentro do coração das nossas casas caiadas.

E a gente via a luz brilhar, além do horizonte
da tarde amena a escorrer pelas janelas.
O povo estava lá na praça a ver seus filhos a desfilar
uniformizados, de conga, meia e farda escolar
pra ver a banda passar ali na rua José Lúcio,
tocando a vida da minha Várzea das acácias,
minha amada cidade auriverde de Silva Florêncio.

Mas a banda não passou de vez,
ela ficou em mim, de certo
ou será que eu fui com ela
a ir buscar as coisas simples
que o tempo escondeu?

Por muitos anos, a bandinha
que aqui homenageio, animou e
abrilhantou o dia da independência.,
fez a gente marchar espalhando
no rosto de cada varzeano a alegria 
que lhe é tão peculiar.
Pa-ta-ti, pa-ta-ta-tá!

Mas onde ficou a parada essa banda?
ouvi dizer que ela vai voltar a tocar,
a en/cantar as nossas esperanças.
Meia volta, volver!
Ra-ta-ra-ta-tá! ta-tá!

VÁRZEA, FÉ NA VIDA












Ainda boto fé
na sustância do pirão
de farinha de mandioca
e no dourado peixe seco
comprado na feira
de domingo, aos garajaus.

Ainda boto fé na roça
de feijão de corda, de arranca,
no plantio das manivas das macaxeiras
e no brotar da cana-caiana.
Ainda boto fé no limão
que dá o ponto no puxa-puxa.

Levo fé no encorpado café forte
torrado no tacho com rapadura;
levo fé no mingau de araruta e leite de cabra,
na coalhada com mel de abelha ou melado,
no debulhar do milho,
no manuseio da farinhada.

Levo santa fé no pé-do-moleque
que me leva a dar rasteira na tristeza,
que me ensina a jogar bonito
na capoeira da minha Várzea,
a fértil terra das ilustres professoras Dezilda,
Wilma Anacleto, Hernocite e Zilda Roriz de Oliveira.

Levo fé no landuá, na rede de pesca,
no samburá repleto de carás, de peixes;
na curimatã com a barriga cheia de ovas
nas tarrafas, na faca amolada
nas pedras do rio Joca,
eu lá com meus anzóis
fazendo da vida a arte do desafio.

Creio na paz do bodoque de goiabeira,
na minha forquilha em arco pronto
para arremessar seixos e
bolas de barro endurecidas
a formar espirais no espelho cintilante
da água verde-musgo do açude do Calango.

Ainda tenho esperança na fé concreta
enraizada na vida, gestada no dia-a-dia,
como um elo que comunica o homem a Deus.
Pois sem vida, a fé de nada vale.
E sem fé, a vida perde o seu sentido.
Então, me diga, sem ela como seria
o verde vale do Seu Tida?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

VÁRZEA: FUTEBOL E POESIA













Autor: João Maria Ludugero

(Texto republicado por ocasião da
XXX Semana da Cultura Várzea/RN-2010).


Minha cidade tem um povo lindo, um povo inteligente, um povo que gosta de ver a bola rolar, e não podia ser diferente, desde cedo o varzeano aprende a bater bola nem que seja no campo da "vargem", aquela que deu nome ao lugar (vargem é sinônimo de Várzea), nossa pequena Várzea onde o Calango sobeja o excesso de suas águas, águas oriundas lá do sangradouro do açude, que fertiliza o juncal ali existente, se escoando bueiros abaixo rumo ao rio Joca. Aos domingos, geralmente o povo vai ao estádio João Aureliano de Lima acompanhar e ver o Várzea E. C. jogar contra o time do Nova Esperança F.C.

Meu povo gosta de ir ao estádio porque ama futebol, assim como gosta de outras coisas, tipo sinuca, música, forró, gincanas, o bar do Eduardo Maninho, família, amigos (gostar de amigos - redundância, né não?), caminhar pelas ruas da minha Várzea, do agito na Praça do Encontro, de jogar conversa fora, enfim, tantas outras coisas boas, mas, sem dúvida alguma, o futebol para o povo varzeano é uma paixão. Lá pode até rolar o fanatismo de algumas pessoas, mas felizmente não gera aquela violência que ocorre nas grandes cidades. O futebol tem essa coisa que não consigo explicar o que é, mas que fascina de um jeito o varzeano... Vai saber.

Quiçá, pode ser a poesia da bola passando de pé em pé, um gol de placa do meu irmão Claudinho, uma elegante bola matada no peito, a massa gritando olé, ou simplesmente, frustração por não ter se chegado ao gol. Sabe de uma coisa, acho que futebol é mais ou menos como ler e escrever poesia, um dia você acerta o gol, no outro, nem passa perto. Um dia troféu nas mãos, no noutro, lágrimas no coração. Pois é, sou mais ou menos assim, não admito empate, se é pra rir, vamos rir, se é pra chorar, vamos chorar.

A vida também se parece com o futebol, por aí tem muitas pessoas com as chuteiras nas mãos, mas que nunca entram em campo para jogar, e que mesmo com a bola nos pés não têm coragem de chutar em gol, vivem de zero a zero, porque têm medo de arriscar. E aí, quando resolvem jogar, a partida já chegou ao final.

Fazer o gol da vitória nos acréscimos não é para todo mundo. No mesmo lugar em que se fabricam heróis também se fabricam vilões. E assim como o futebol, a vida tem dessas cores. Outra coisa em que este esporte maravilhoso se parece com a vida, é preciso ter estratégia e colocá-la em prática para vencer, pois ninguém, a não serem os cartolas, ganha antes do jogo.

E sabe o que mais, na hora que precede o gol, quando a gente vai levantando lentamente enquanto a bola se encaminha para as redes para você explodir de delírio, e que todos os seis sentidos não fazem sentido algum, é justamente nesse átimo de segundo que você conhece o Nirvana, a ausência de dor que os indianos (tá na moda) tanto falam.

Futebol não é uma arte que se explica, ou você entende, ou se identifica. E para o povo varzeano é, deveras, uma paixão. A gente sabe disso. Eu faço poesia, eu tenho paixão por escrever, não jogo futebol nos campos da minha Várzea, mas jogo futebol de Várzea no papel, vou driblando as palavras, sem trocar os pés pelas mãos, vou acreditando na vitória de quem almeja o gol, vou acertando o chute e levando a bola, com força, com garra, na certeza de melhores dias virão.

Um dia a gente, de tanto acreditar, acaba por acertar, nem que seja na trave. Só sei que o importante é tentar, não cruzar os braços, digo, as pernas, e correr para o abraço da esperada vitória, ou, ficar de bunda no banco de reserva esperando o futuro cair do céu, como se a vida nos desse o troféu de mão beijada, de graça... Não é bem assim, se a gente não buscar o sonho, se a gente não correr atrás do sonho, se não chutar a bola, aí não tem jeito, a vida vai ficar no zero a zero, mesmo.

Só sei de a coisa, a gente não quer isso, a gente quer o gol, a gente quer sorrir ou chorar, mas quer tentar ser feliz. Porque a gente está aqui para acreditar nisso e São Pedro, como nosso árbitro de carteirinha, é testemunha de que a vida é um jogo, suas duas palmeiras a trave, e a lua, esta é como uma bola cheia, esperando o apito inicial para que a gente faça um gol, nem que seja no azul do céu varzeano! Um gol de placa, digno de ser emoldurado.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

VÁRZEA, CIDADE DA CULTURA:" VOX POPULI, VOX DEI, VOX DEÍFILO"
















Autor: João Maria Ludugero,
poeta e escritor varzeano.

Então, vamos considerar
o velho provérbio popular:
"Vox Populi, Vox Dei",
adágio que assim se traduz:
a voz do POVO
é a voz de DEUS.

Logo, não há como contestar o mérito
do que reza a voz do povo, em uníssono, nas alturas,
em face do batismo, de fato, mais que justo e válido,
honroso título dado a nossa Várzea,
que passou a ser chamada de 'Cidade da Cultura'
pelo ilustre poeta, escritor, jornalista, professor e
renomado folclorista, profundo conhecedor
das raízes folclóricas da cultura popular: Deífilo Gurgel,
e por que não dizer, sucessor sem rival do mestre
Luis da Câmara Cascudo.

E diga lá, Professora Gabriela Maurício de Pontes,
e diga lá, Prefeito Severino 'Silva' Florêncio,
e diga lá, toda minha gente varzeana!
Deífilo falou, participou, descobriu, viu de perto.
Deífilo pesquisou, relatou, coletou e publicou em jornal.
Quem foi que disse que não está lá registrado
nos tomos da Fundação José Augusto.
Deífilo proclamou. E ponto. Sentença popular.

Várzea, "Cidade da Cultura".
Esse título é nosso e ninguém tira.
Estava escrito nas estrelas,
e Várzea faz por merecer!
Deífilo falou e disse.
Falou, tá falado!
Tá no espaço e no tempo,
tá na memória,
tá na história potiguar.
O povo acatou
no palco, a tradição continua
na voz do povo
no dia-a-dia das ruas
na semana da cultura
no mês de agosto,
no artifício, na arte sã,
em toda parte
no cotidiano varzeano.

O ano todo, tá tudo dominado
na boca do povo, que se manifesta
pelas quatro bocas a fora,
de pais para filho e netos
de boca em boca
na boca da nossa gente,
que, por sua vez,
cultiva com sabedoria
o que continua presente
na vida da nossa pacata cidade,
desde os traços do tempo passado
da nossa cultura popular,
aos dias atuais, na prática.

Que o povo continue
levantando a bandeira do folclore vivo,
dando a volta por cima, reacendendo
as cores e brilhos da tradição, reatando
laços entre as tradições e as gerações vindouras,
no intuito de que a cultura prevaleça
na vida, na cabeça e no coração
da futura geração da bonita terra
de Ângelo Bezerra.

E declare-se.
E cumpra-se.
E tenho dito.
É a vez do povo
na voz de Deus,
tendo São Pedro como testemunha.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O GORRO DO SACI
















Autor: João Ludugero

Num dia ensolarado,
eu agarro tua trança
que me faz balançar
entre o açude e o rio
seguro de mim
faço poesia ao mergulhar
sereno
no Calango

Ainda que a luz interior
não me trabalhe o olhar
eu enxergo, em sintonia
com a paisagem agreste
eu vejo de perto
o passaredo no ar
a entoar cantigas,
que o vento junto assovia
a me remeter à saudade
que leva meu coração-pintassilgo
a passear longe da solidão
perto dos teus riachos,
fora do deserto
que fica quando estou
a léguas e léguas de ti.

Eu dobro a barra do tempo
penso em ti
que enlevas meu mundo,
penso em ti
que fazes o orbe girar, girassol
sem me deixar sair do lugar

Carrego sempre no bolso
um punhado de cores,
eu vou pelo caminho da roça, do roçado
eu reacendo o cachimbo da paz
eu insisto em pegar o gorro do saci,
jogando a peneira no redemoinho
no pó, na poeira da estrada de chão,
vou pulando só pra encontrar
a tal da égua da felicidade.
Eu vou andar e acabo voando
feliz pelo verde Vapor de Zuquinha
que cria suas nuvens esfiapadas,
nas quais invento carneiros no céu
usando a imaginação eu voo
quando quero viajar
pelas ruas da minha Várzea,
quando uma mão contente
me dá norte e prumo, a tua
feito uma estrela-guia, de certo.

Eu pinto de paz aquelas casas caiadas
afastando as sombras e os nós-cegos
do que fomos, sem mágoas,
agora abro portas e cancelas,
trago um tempo bom de brisa
de ares puros que embevecem
a alma de qualquer ser vivente,
energizando-me de sobra
em dádivas e sol amarelo,
sorrindo-me feliz, sadio
preser/várzea/ando-me,
antes de ser do/ente.

A DONA DA LENDA










Autor: João Ludugero

Eu vi aquela mulher chorando
eu a vi perambulando pela noite alta
levava consigo uma criança pela mão
e na cabeça uma trouxa de roupa
de cortar o coração, de súbito,
dentro de mim eu vi aquela mulher chorando,
se debulhando em lágrimas
atravessando o beco de Seu Antonio Duaca
ou seria a Brasiliano Coelho?

A essas alturas da vida,
embalando meu poema quase triste,
procuro entender essa lenda varzeana,
como pudera aquela mulher morrer de fome
carregando um fardo tão pesado
suplicando água e pão,
a chorar suas agruras
pelas ruas da minha seara,
se aqui poderia manejar esse solo,
cavar seu sustento,
plantar a semente capaz de gerar frutos
com a força peculiar aos filhos da Várzea-mãe,
terra que nunca abandona suas crias
muito menos suas criaturas deixaria à míngua,
a chorar miserável destino, mendigar
à mercê da própria sorte, me diga?


Em defesa da terra,
como quem borda a sã existência,
já vislumbro outra mulher que chora.
Agora fora da lenda, outra mulher destemida,
que não manda recado,
que não cruza os braços às adversidades,
que ainda acredita,
uma nova varzeana,
não mais aquela mulher
de outrora, desiludida.

Essa nova mulher pode chorar, sim senhor,
mas não de fome, não fica prostrada,
pois ao sentir sede de lutar,
avança corajosa e digna,
a brigar por uma Várzea melhor, mais humana,
e, ao molhar seus olhos de felicidade,
adivinha o amor até num poema quase triste,
mas não emudece, não entrega os pontos.

Sim, eu vejo essa mulher de agora
que sobressai do teu ventre,
do teu vale fértil, minha Várzea-mãe!

terça-feira, 24 de agosto de 2010








Autor: João Ludugero

Cavalgo
pela tarde
na sela do destino
a tanger o gado
que não possuo
apenas imagino
miro a paisagem
e nela derramo
meus olhos d'água
que acordam o Calango
açude que sangra
cheio de esperanças

Eu monto na garupa
do cavalo, em pelo,
agarrado na cintura
do tempo
eu me asseguro
boto fé nas rédeas imaginárias
que orientam minha cavalgada
que dão norte ao meu coração
galopante pelos campos da minha Várzea
sem me preocupar deveras com as esporas
que ganhei de legado,
desnecessárias ao uso

Sei que é manso o puro-sangue
que corre livre e solto
nos veios vertentes da vargem
sem cabrestos nem freios,
além do capim grosso
além dos seixos do caminho
além das macambiras
além dos gravatás,
muito além dos meus anseios

Na aba do meu chapéu
corre um sol amarelo, radiante,
a disputar com o lenço dourado
que enfeita o decote
da menina Tereza Gabriela

Sigo o sol a pino, contente,
só no trotar do meu alazão.
Escuto o cantar da cigarra
que quebra o silêncio da estrada
que me leva ao interior,
numa viagem pela mata a dentro
onde o vento arisco se agita
com hálito de virgem, bafeja
e ainda assobia, frente a frente
com o cio da terra prometida

E assim o dia termina, na garupa
do meu cavalo cor de canela
sigo apenas eu, desnudo
nem cela desapeada,
nem o carro encantado
nem a lenda da mulher que chora
nem sentença de esporas,
nem estribos, nem cancelas

Apenas eu, simplesmente
tal qual um índio, um nativo
a beber uma cuia de garapa
com seu cocar de penas,
despreocupada a mente
a caçoar das horas,
enquanto o alaranjado crepúsculo
cai no sono de Tereza Gabriela.

domingo, 22 de agosto de 2010

XXX SEMANA DA CULTURA-VÁRZEA/RN- 2010: 30 ANOS DE DESAFIOS, PERSISTÊNCIA E CONQUISTAS















     Autor do texto e poema:
       João Maria Ludugero


E tudo começou naquele ano de 1980.

Naquele ano se realizava a primeira festa da cultura no Município de Várzea, com o objetivo de resgatar, divulgar e perpetuar a cultura varzeana, num projeto idealizado pela Professora Gabriela Maurício de Pontes, ilustre contribuidora da educação no município, respaldada por Severino "Silva" Florêncio Sobrinho, prefeito naquela época.

O dia 22 de agosto, dia do folclore, foi a data agendada para a realização desse evento marcante para a cidade de Várzea, uma vez que a partir de iniciativas culturais dessa magnitude denotou-se a promoção da coesão social, do acentuado crescimento econômico e do desenvolvimento humano, eis que surgiu dali uma nova ação protagonizada por sujeitos, cidadãos no resgate das nossas raízes, não deixando nossa cultura morrer ou cair no vazio.

O sucesso do evento tomou elevada proporção, tanto que foi destinada uma semana no mês de agosto para a realização da Semana da Cultura, com a participação das escolas, igrejas, prefeitura e comunidade em geral. No decorrer do evento destacam-se representações artísticais populares, transmitidas de uma para outra geração, isto é praticadas de pais para filhos e netos; exposições de trabalhos artesanais dos projetos e das oficinas realizadas pelas escolas e por grupos locais e regionais, além de barracas com comidas típicas, jogos e outras atrações folclóricas.

Nos rostos de todos brota a esperança de um futuro melhor para Várzea, para o estado do RN e para o país, para as novas gerações, tanto no campo das artes, da lida diária, na otimização da educação, como na luta para encontrar o caminho do desenvolvimento. Como se vê, estão a surgir quadros que poderão valorizar ainda mais a cultura varzeana, seja na revitalização das tradições culturais dos pioneiros traçadas no decorrer do tempo, seja na criação de novas searas introduzidas pela riqueza do folclore e da arte cotidiana da nossa gente.

Por oportuno, não é demais ressaltar que num espaço de 30 anos foram superados muitos desafios, com persistência, coragem e determinação resultando nas conquistas ora alcançadas e no prazer de fazer bem feito. A semana da Cultura dá indicações claras, consideradas muito positivas, de que o testemunho do resgate das nosas raízes prevalece e apresenta aqueles que serão os nomes sonantes no futuro da Cidade da Cultura: que são vocês, caros cidadãos varzeanos! 

E é bem sabido que só depende de nós não deixarmos nosso patrimônio cultural perecer. Portanto, realçar a importância desse evento não é meramente chover no molhado, porque trata-se da divulgação da rica cultura da nossa Várzea, para que as futuras gerações possam usufruí-la, resgatando valores e se orgulhando de aqui ter nascido, haja vista que a cultura é tida como referencial na vida de um povo, é a espinha dorsal que sustenta o presente de um Povo, de uma Cidade, de uma Nação.

Aqui estaremos para acolher mais esta Edição da XXX Semana da Cultura em Várzea/RN-2010. Seja bem-vindo à Cultura, a cidade de Várzea está te esperando de portas abertas!

VÁRZEA, POÉTICA CIDADE DA CULTURA

Eu queria fazer um poema
para a XXX Semana da Cultura
um poema com a cara do povo da minha Várzea,
um poema para essa gente bonita e hospitaleira
um poema simples assim, 
um poema sem preço, de alto valor
um poema de ouro de elevado quilate
dourado assim como o sol da minha Vargem.

Quem me iluminou, quem me deu a ideia
de compor estes versos
foi a luz própria que emana desse povo,
que me ajudou a escrever a poesia que sinto
nessa alegria que pode estar sim desenhada no meu peito,
como um poema de amor que a todos encanta
enquanto canto esse poema na travessia da vida

E são tantos os autores desse meu poema inacabado
que versos assim trazem rima doutra inspiração,
ou não trazem rima alguma, pouco importa
se rimados na lamúria da mulher que chora,
se rimados na lenda do carro encantado
se rimados na lida de outrora, quem sabe
se rimados no porvir do nosso linguajar 

Assim é que escrevo este poema singular,
cavado e escavado no cerne da minha Várzea
buscando nossas raízes, seus valores,
resgatando a cultura da minha gente.
Gostaria de poder fazer uma canção
um poema-cantiga que ladrilhasse esse chão
só pra ver este povo passar, no dia-após-dia  
e abrilhantar de vida este poema que não carece de rima
Que assim seja na manifestação
no desafio de prevalecer nessa arte sã
ao manter a tradição das coisas da terra
de boca em boca, de pai pra filho
pra fazer valer o que se vive,
o que se leva da vida que a gente leva 
nesse sagrado solo de Ângelo Bezerra.

Só de ti, meu povo, vem a revelação
das várias mãos arteiras, criativas 
que estas portas abriram, abrem e abrirão à cultura.
Meus pensamentos vão longe, a léguas
na cavalgada, sob os arreios do tempo; 
com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade.

Enquanto admiro meus cavalos na vaquejada,
meu gado rumina no pasto, no agreste verde,
meu boi-de-reis bumba na festa de apartação
do presente e do passado
na tradição, no folclore, no legado
na herança de tantos pioneiros,
lembro-me de Mateus Joca Chico
de Capitão Gonçalo
de Joaninha Mulato
das meninas do pastoril
de Joaquim Rosendo
dos folguedos do coco de ganzá
de Zé Camarão
das quadrilhas de Bita Inácio
das noites de maio, das novenas
e de tantas outras pessoas
que aqui não caberia todas citá-las,
evitando esquecer de algum nome.

Isto é minha Várzea,
berço da Cultura e da felicidade
que afugenta os quebrantos
sob os ramos das rezadeiras
que benzem o nosso chão,
renovando antigas esperanças
na dança das horas

Isto é a Semana da Cultura
que reaviva as nossas raízes
na embolada dos meus sentimentos,
que retumba e ressoa como as cordas
de um violão, um afinado instrumento
movido pela alegria afoita, inquieta
em que me vejo estampado, e não me canso.
pois sou varzeano, e não me calo.

A galopes divago na antiga paz que me guia.
À sombra, molho o rosto no açude do Calango
e dou vivas ao povo da minha Várzea,
que a tristeza desvia, que dá rasteiras, sem medo,
pois de onde venho, tenho muito orgulho.
É de lá que eu vim, da terra dos bons ventos
do louvor, da tradição, da fé santa
onde o povo não deixa o tempo apagar essa chama
que segue seu perene ritual
sob os barbas do Santo apóstolo Pedro,
chaveiro das nossas esperanças,
porta-voz dos nossos credos,
numa alegria sem igual
que tanto contagia o mês de agosto,
na Semana da Cultura!

P.S.:
Por derradeiro, esclareço aqui que no meu poema,
o ‘eu’ deve ser entendido como um ‘coletivo’,
de um povo inteiro que quer ter palavra - o povo varzeano.
Desta forma, o poeta assume-se como porta-voz daquele povo
que é o seu e, dirigindo-se à Várzea como a terra-mãe
que a todos acolhe e protege,
ora cantando sua vida, ora pedindo ao apóstolo São Pedro
sua intercessão perante o Pai Eterno,
rogando proteção e bênçãos ao longo do tempo,
ora suplicando ao poder público direitos a uma vida própria,
digna, autêntica, em prol de sua amada gente varzeana.
E tenho dito. Ponto, por enquanto,
pois sou VARZEANO,
e não me calo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

POEMA SEM PRESSA



Autor: João Ludugero

Na boca da noite
ainda caminho
um tanto e quanto vago
estranho esse vagalume
vagando em meus olhos
alumiando as estrelas
que caem no meu pensamento
revelando o destino da gente

Caminho lado a lado
com o açude do Calango
olho para trás
pontos de luz
vejo uma pequena cidade
miro uma saudade
uma fome de escrever,
uma sede de viver
ir um pouco mais adiante
na frente do verso
abrir o verbo ao silêncio
ao calor da tarde amena
pegar com a mão o sol posto
pisar na areia do Joca
um rio ainda raso
uma rede no alpendre,
sereno Vapor
uma vara de anzol
e uma infinita vontade de pescar
ali na minha Várzea de São Pedro

PASSANDO A BATATA QUENTE

Autor: João Ludugero

Trago no peito um coração
que não se acomoda
nem se incomoda mais
com tua baba de moça.

Por favor, não venhas mais
tentar me convencer
com teu papo-de-anjo!

Ao ditares tua moda, já démodé,
já não mais me iludes,
teu nome caiu em desuso
pelos cômodos da casa;
logo, nem quasímodo
nem dragão-de-komodo,
nem oito nem oitenta
nem assim nem assada,
nada me causa mais estranheza
se estou nessa rua estreita
sem meta nem seta
nesse beco restrito
que não me aponta a saída

Mas de que modo eu vou sair
agora desse labirinto
dessa ressaca tamanha
resultado do trago sem moderação
desse gole que me dá fadigas,
se trago nos ombros o peso
do oco do mundo, obsoleto,
aquele que não vivemos,
ora espalhado num bocado de molduras
encardidas pelo tempo-furta-cor
dos nossos sonhos suspensos,
que ficaram inacabados
e que não tenho para quem os dar
ou a quem repassá-los

Mas quem seria louco de pedra
quem se atreveria a ter mão
eessa batata-quente,
quem ousaria querer
no meu pesadelo acordar,
de uma vez por todas,
me diga logo, moça bonita,
por que não devo amar mais
de uma vez na vida?

domingo, 15 de agosto de 2010

DE ESPERANÇAS E SAMBURÁS
















Autor: João Ludugero

Eu sou de uma terra muito bonita
a que chamam de Várzea
que fica logo ali no Rio Grande do Norte,
um lugar assim onde a gente
aspira viver lá pra sempre
viver mais e melhor no meio da natureza
sentir-se bem à vontade, rico de verdade,
por ser dono de muita coisa não, quase nada,
pois lá nem precisa se vestir de propriedades,
uma vez que já se é dono de tudo isso
gratuitamente, como presente de Deus.

Aliás, Várzea nos ensina a ser dono
do próprio nariz, a curtir esse espaço
como possuidor que somos da paz
que sopra nesse vale fértil
banhado pelo rio Joca.
Ela é mãe que nunca nos abandona.
Ela nos dá o anzol e nos instiga a pescar.

Sou varzeano, ainda acredito na volta
daquele sagrado ritual, o de rever
os samburás cheios de peixes,
do clareio de curimatãs, piabas,
dos cascudos, muçuns, aratanhas e pitus.

Creio na abundância dos frutos da terra,
que, além de dar o pescado,
fornece também os tomates,
o cheiro-verde, o coco seco.
Temperos que acompanham a enfileira
de graúdos jacundás fisgados ali no rio Joca.

E de tal sorte, o varzeano regressava pra casa
contente da vida, satisfeito como quem volta
do mercado, com a feira já pronta.
Mas, como esperança é algo
que se renova, perene chama acesa,
por derradeiro, agradeço
e confio na fé que nos alcança,
porque ainda creio na fartura da mesa,
fazendo minhas orações de cada dia:
Creio em Deus pai.
Creio em Deus filho.
E no Espírito Santo, Amém!
Que abençõem essa terra-mãe,
tão cheia de esperanças,
tão cheia de graças, Ave-Maria!

sábado, 14 de agosto de 2010

MULHERES DE BARRO


Dona Zefinha e Dona Ana
de Manoel de Anísio
tinham mãos arteiras
que moldavam a argila
como artesãs do dia-a-dia.

Na lida dessa herança cultural
das mais antigas,
elas cavavam e retiravam o barro
ali no chão da minha Várzea;
pisavam no barro
para fazer arte sã
no modelar da sina,
com suor e alegria,
tirando da terra a forma
de vasos, jarras e tinas.

Os olhos enrugados
já não escondiam
as marcas do tempo;
as forças já eram poucas,
mas as louceiras de Várzea,
com suas mãos dinâmicas,
metiam a mão na massa,
digo no barro molhado,
bem mexido e remexido.

Essas senhoras de mãos cheias,
levantavam suas peças de cerâmica,
transformavam barro em louças,
alguidares, potes, bilhas
dentre outros utensílios
de barro cozido, de encomenda ou
pra vender na feira de Domingo.

Tudo isso era feito sob a medida
do olhar, com o escopo e o prazer
de sair bem feito o ofício,
cujas agentes, as famosas louceiras
de barro, trabalhavam a argila,
moldando objetivos vários,
modelando esperanças novas,
burilando a vida e o sonho
na forma das mãos,
no torno do artifício.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

ODALISCA













Autor: João Ludugero

Mas que maravilha
encontrar-me
disposto a vê-la,
sem ressaca
sem marasmo,
exposta a céu aberto

Assim de perto, desnuda
na dança do ventre
no meu vale fértil
na minha Várzea,
onde brota beleza à beça
no cerne do capim grosso,
dentre outras flores e estrelas

Que venhas enfeitar
toda tua trança
com flor-de-lis
enfeitiçar-me de vez,
tirar o véu, que seja
despir-me da tristeza,
rosto colado no meu,
odalisca

Eu sou um ser
bem-aventurado,
constato ao saber
que és, de fato,

minha maria-sem-vergonha
do orgasmo
de ser feliz!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

JARDINEIRO










Meu jardim tem a alma
das flores, açucenas e alecrim
tem cheiros e ruídos
seivas de alfazemas
toques de amor
que transformam
minha vida numa festa

Meu jardim tem espinho, sim,
também tem perfume de graça
em suas estações bem definidas
tem lá suas primaveras,
tem lá seus outonos, suas folhas caídas,
tem lá seu sol amarelo, até no inverno
tem um espaço onde veraneiam
andorinhas e pardais
onde sobrevoam canários de chão,
sabiás e outros sebitos

A propósito, observo a tudo,
no seu devido tempo, sem pressa,
louvo a beleza inerente à cada coisa.
Com a ajuda da natureza, antevejo
que ele me bordas de esperanças novas
na barra das horas, e não por acaso,
afasta de mim até as sombras nefastas
e colore meus dias cinzas.

No meu jardim, existem
alecrins e manjeronas
que não se limitam
às tonalidades do verde,
desprendem-se em aromas.
E isso me faz acreditar
que sou abençoado filho de Deus.
Que mais esperar da vida?

JOCA












Ah, meu rio Joca,
oh, meu riacho da Cruz
Oh, meu rio de Nozinho
de onde vens, que acumulas
afluentes de velhas esperanças novas
poço cheio de tanta saudade

Que emerge desde lá
do meu tempo de criança
brincando nas tuas águas,
onde o vigor faz a dança
onde o vento faz a curva
onde o Vapor toma forma

Hoje carrego comigo 
tua imagem esparramada 
no verde que beira o rio
e se alastra no coqueiral
a dentro, em banhos 
de rio e cacimba,
perfeitos banhos de bica,
água apanhada na cuia
dentro da minha lembrança

É doce falar de ti,
meu rio de água salobra!
Rio Joca, rio Joca,
riacho da minha Várzea
tão repleto, rio de mim
das mais diversas histórias
onde o poeta registra
sobre o livro de memórias
a beleza do seu povo varzeano
revestida de mil glórias!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

CABRA


Minha Várzea, 
por entre arcanjos e estrelas
eu sigo cantando o teu nome, tua  essência, 
navego na poesia que emana do teu chão
feito um arado que nunca perde a colheita 
E a brisa que roça no meu rosto
em casulos de algodão,
brancas nuvens, 
a barba de São Pedro apóstolo.

Continuo a fazer versos 
driblando críticas, assim cresço,  
pensando em Deus, descubro  
o que significo para Várzea.
Logo deixo de escutar alguém que diz
que sou sensível, que sou poeta,
que homem não deve chorar,
que ele deve ser cabra-macho
e dizer a que veio, de pronto.

Mas que asneira, será que não vê
que homem também sente, além da razão, 
que cabra-macho tem uma cabra
na frente do macho?
Esse preconceito perde o respeito,
há tempos perdeu o efeito;
desde quando me conscientizei
do que Deus é para mim,
dispensei comentários...
permaneço a Varzeamar,
pois tenho um coração que sente.

E assim, jorram letras e palavras,
em versos e prosas, aos amores dedicados:
às Marias das Graças, às Anas
às Dalilas, Joanas, Madalenas
às Nanas, Nenas, Ninas
às  Nucas e Nanucas
às Júlias, Julietas e Romeus,
sejam corujões ou bacuraus,
seja o escambau!

São momentos mágicos
de amor que não têm sexo, não têm cor.
A mulher pode ser poetisa,
por horas pensar feito homem;
e, do poeta, cabra-macho, o que dizer?
é verdade, é fato, seja macho ou seja fêmea, 
puro e belo é poetar!

E, de resto, ambos permitem-se, 
sem censura, dizer em alto e bom tom:
'fodam-se' com todos os preconceitos!
'fodam-se' aqueles que nunca souberam
o que é Varzeamar de verdade!
Isso mesmo: 'fodam-se' aqueles que só sabem criticar,
aqueles que vieram ao mundo
apenas para serem ervas-daninhas.

NOTA DEZ-AO-SOSSEGO


Oh, minha nega,
meu chamego, meu xodó,
meu dengo, meu apego,
meu desassossego
olhas pra mim, assim
com teu olhar disperso
de verde semáforo
e ainda não sei de ti

Se o sinal está aberto
se é livre o tráfego
se és cega por mim
ou negas me ver.
Que sejas bem-vinda à pousada
do sossego que fica bem ali
na terra de Cícero Cego,
no mocó do meu aconchego,
onde faço versos acalangados
onde con/verso e junto chego

Sinta-se em casa, hospede-se
aqui na minha Várzea,
seu próximo destino! 
juro que não sou per/verso
sou do bem, sangue bom,
até pelo avesso, confesso,
de frente, ou ao in/verso
bem ou mal escrito,
até falando grego, 
não quero parecer cabotino,
não me julgue assim, 
apenas sou filho do filho 
de dona Dalila,
sou filho de Seu Odilon

Com lápis de cor rabisco,
pinto croquis uno versos
com giz cor-de-anis, sincero
já fiz dela uma flor-de-lis
tal qual aquela nascida nos ariscos.
E, do risco, decorei a cicatriz no peito,
abri meu coração ao belo,
agora sou feliz, de novo!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

FAINA


Calejo as mãos
na colheita do milho
apanho algodão
debulho favas e feijão de corda
arranco amendoim;
no pilão, a paçoca
carne de sol com farinha seca.
No rosto cortado de rugas
insiste uma lágrima
de cebola roxa;
noutro, rapadura e gergelim 

Na forma, as cocadas
da branca e da preta
numa cuia, sequilhos e
um punhado de sonhos
quase nunca acordados

As raspadeiras de mandioca
lidam com a rotina
descascam, lavam
e ralam as raízes,
tiram a goma, o polvilho
decorrente da massa, 
e ainda sobra tempo
de entoar cantigas;
mandioca na prensa,
esperanças sangrando
manipueiras e cheiros

Balaios e cestos
de esperanças
encostadas, vão resistindo
à aridez do agreste
entre farinhas,
beijus, tapiocas e desejos

ARRIBAÇÃO

 Autor: João Ludugero

Dos meus dedos
brotam cacimbas,
jorra límpida água de mina.
Novamente cavo e escavo,
na areia do rio Joca
nascem lágrimas
nos meus olhos rasos d'água

Vejo salobros horizontes
no Vapor e,
por puro instinto,
aves de arribação
que sempre voltam
ao agreste verde,
mesmo condenadas à extinção.
Elas vêm desvairadas,
sedentas, em bando,
beber nos meus olhos
julgando serem fontes

Só levo uma certeza comigo:
enquanto o por-do-sol se refletir
nas águas do açude do Calango,
os meus olhos terão aonde
se levantar, arribar voo
para descansar,
ainda que haja
em/tarde/sido

POEMA DA BELEZA QUE ENTONTECE

Autor: João Ludugero

Com a mão aberta
desenho a paisagem
acima do abismo,
além da aridez das pedras
além dos cactos
e dos lajedos.

Eis que o medo
não me acompanha
e muita coisa agarro
só pra me segurar
ao me deparar
com os atributos
de sua beleza simples
que a tantos entorpece.

Sem assombros, vejo
que ela tem lá seus espinhos
e no meio deles há flores,
adornos talvez para distrair
os insensatos donos
dos corações suicidas,
quando tentados ao voo
no parapeito da ponte.

sábado, 7 de agosto de 2010

NATIVO SONHAR

Autor: João Ludugero

Acreditando que além das cercas verdes
das cancelas do curral
tem sempre o sol amarelo
que se deita alaranjando na boca da noite
só pra esperar nascer de novo a alvorada
e com ela uma revoada de passarinhos
a enfeitar a paisagem varzeana

As lavadeiras do rio acordam e cantam
ao peso da sorte, a encher seus potes,
de límpidas águas de cacimba
enquanto coqueiros e velhas palmeiras
assoviam uma canção de liberdade
porque ainda acreditam no porvir
ainda cavam sonhos possíveis

Enquanto esse menino nativo
escava poemas simples assim
que falam um pouco da garra
da lida dessa gente que acredita
que não dorme no ponto
de partida, à espera de um dia
ainda beber na fonte
nesse riacho doce da felicidade

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

VÁRZEA, OXIGÊNIO A TODO VAPOR












Autor: João Maria Ludugero

Preparem-se os pés,
respirem fundo.
Encham-se os pulmões
de ares puros, oxigênio.
Preparem-se os olhos,
se precisar, colírio neles;
preparem-se  os choros,
as lágrimas podem a vista embaçar
preparem-se os lenços,
a saudade pode chegar
ainda antes da partida;
preparem-se os corações,
o peito vai se fartar do cultivo
de amores por esse lugar.

Preparem-se os cestos, caçuás, balaios.
Vamos enfileirar cajus amarelos e vermelhos
nos ariscos, nos seixos e no Itapacurá;
vamos colher as pitangas no Maracujá;
vamos compartilhar a safra
das siriguelas maduras
com o passaredo.
Impossível seria limitar com uma rede,
com um alçapão ou laço de passarinheiro,
o acesso deles
a bicar o fruto encarnado
dos teus desejos.

Sem trégua, vamos experimentar
todos esses sabores de chorar por mais.
Seja bem-vindo a minha Várzea, Cidade da Cultura,
hospitaleira terra das inesquecíveis
comadre Oneide Maurício
e de dona Ana Gomes do Rego.

Venha nos visitar!
O sol está te esperando,
desde cedo, a felicidade mora lá
onde a alegria bate à sua porta
sem ter hora para acabar...
porque a tristeza ali não tem vez,
saiu de cartaz, perdeu as botas
e foi morar na caixa-prego,
faz um tempão. Arrre, égua!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

XIBIMBA: CENA DE UM ADEUS















Autor: João Maria Ludugero

Deu meio-dia, badalou dobrado o sino da igreja. Aí então, me veio à memória a imagem de um cortejo funeral a caminho do cemitério municipal, subindo a rua nova, ali na subida da casa de Seu Vela, pai do Walfredo, depois de ter saído da Matriz de São Pedro, acompanhado por uma dúzia de fiéis varzeanos.

Ouvia-se os bronzes insistentes da matriz, no choro solitário de dona Lucila de Preta e sua extensa prole, cadenciados com os flapes-flapes das alpargatas, que solavam o chão quente e poeirento daquela artéria central da Várzea de dona Dalila Maria da Conceição, minha avó paterna.

Rezas e choros pela rua do Cruzeiro, quase já não se ouviam! Cantigas, Ave-Marias, vozes e consolos? Talvez a do padre Armando de Paiva ou de um transeunte encostado na calçada da Venda de dona Bena de Virgílio, que, curioso, perguntasse de quem havia sido a ideia de encaminhar um cortejo funeral em pleno meio-dia. Isso mesmo, era essa a hora marcada pelo relógio da igreja. De fato, os ponteiros se emparelhavam um sobre o outro, indicando meio-dia e dali nunca mais ousaram sair, cravados assim na minha memória, mesmo tendo se passado tantos anos, aindo guardo essa cena daquele passamento ocorrido da década de setenta.

É isso mesmo, é consabido que de despedida ninguém gosta, não é mesmo dona Vira de Lucila de Preta? Faz-se questão de esquecer, passar a borracha. Morrer, no sentido biológico é extinguir-se, desaparecer para sempre. Se alguma coisa fez, se de bom ou de mau, para a memória popular isto é irrelevante, o sujeito ainda será lembrado por um bom tempo. Se não, cai na poeira do tempo, e assim descamba, é levado pelo vento e cai no campo do esquecimento.

Mas a vida tem dessas coisas. Essas cores de dias cinzas também um dia chegam e estampam a vida da gente. Não há como escapar da sina, portanto, deve-se tocar a vida, seguir adiante, sem medo da sorte que Deus nos dá de sobra. Faz parte da paisagem interior da vida real. É a estação onde há chegadas e partidas, é o reality show do enredo da vida.
- Quem morreu, Maninha me diga?
Foi o Xibimba, irmão de Vira de Lucila de Preta.
- De quê? Vai saber... acha-se que foi de morte natural,
de viver a vida. Adeus, luto e ponto.

ENSINA-ME A OLHAR!

Autor: João Ludugero

Há lugares perfeitos para dizer que te amo,
no alto dos Rodrigues com o Joca aos pés
o clima a espreguiçar-se açude a dentro
colorir-te de novas esperanças nesse verde
que trazes de perto,
disposto em bonitos riachos
de Mel e poesia
espalhados em Itapacurás
Maracujás, Seixos e lagoas compridas

Na minha Várzea das Acácias
há um Vapor perfeito para dizer que te amo
nos campos de cultivo de feijão e milho
a roçar minha alma no teu corpo suado,
que me convida a uma viagem interior

para encontrar-me
nesse azul infinito dos teus olhos.
Portanto, ensina-me a olhar...

Só pra saborear esses cheiros
e sabores contigo, apreciar-te

Careço escutar, demoradamente,
teus lábios no meu ouvido, serenos
a sussurrar, sem nenhum segredo,
dizendo-me das coisas simples e belas
que Deus fez assim de graça pra gente
ao pintar esse lugar abençoado de natureza viva,
ao descerrar as cortinas desse cenário lindo,
guardado pelas chaves protetoras
do apóstolo Simão Pedro

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

VÁRZEA, WANDICK LOPES, DONA MELISINHA E A MARISA (UM CONVITE AO INTERIOR)


















 Autor: João Ludugero

Lembrar da Marisa é como voltar à casa para receber a bênção dos pais.

Dali tenho boas recordações, da minha infância feliz, dos banhos de açude., das estripulias de menino da Várzea. Foi ali que tive muitas histórias felizes, onde comecei a gostar das coisas da natureza, de andar descalço pelas trilhas dos cajueiros, de admirar a casa grande da fazenda, a criação de gado e cavalos, o curral, a pastagem, o gigantesco plantio dos coqueirais.

E essas lembranças sempre chegam assim, como um filme bom, vêm a calhar. Sinto-me na obrigação de registrá-las, no intuito de que não venham a perecer no vazio, no desvão do tempo. Não é ainda aqui que se vão acabar. Como tudo na vida passa, tendo começo, meio e fim, isso poderia se apagar de repente. Mas eu insisto em fazer voltar a esse tempo, e eu volto à minha Várzea, e revisito a MARISA - Maracujá Agropecuária S.A.

Daí, então me vem a imagem de Wandick Teixeira e da professora Amélia Bezerra 'Melisinha' Lopes, marido e mulher, amantes desse lugar abençoado, e, em pensamentos, retorno ali nem que seja para me servir de coalhadas, leite azedo com mel de engenho e outras comidinhas da terra, além de degustar cajás-manga, pitangas e tamarindos direto no pé, bem ali no oitão da casa, debaixo do alpendre.

Confesso que isso não me chateia nada, mesmo que seja para guardar essas doces lembranças, num preciso resgate de raízes que irão ficar para sempre, no escaninho das memórias varzeanas.

SIM, NÓS TEMOS GABRIELA!







Autor: João Ludugero

Senhores donos da casa,
permitam-me
deem-me licença,
Deixai-me passar sem pejo,
Que este menino-poeta varzeano
vai aqui lavrar um bocadinho

dos seus simples versos!
 

Eu sou da terra da hospitalidade
onde sua gente traz na alma
o dom da alegria e bem-estar

de ser pioneira do amor:
- Sou da Várzea das Acácias -
tenho razão de cantar!

Tu, minha Várzea, és a fonte
donde jorra a poesia, teu espaço, 

tua geografia encantam, de fato,
és do reino do horizonte da paixão,
és flor do Maracujá, verde vapor, 

linda menina, orientada 
rosa dos ventos agrestes,
teu vale fértil é berço vertente
de ariscos de água doce
de esperanças novas.


Minha Cidade feliz da Cultura,
do folclore vivo 

e das raízes da terra,
tua bandeira levantada, 

com garra e toda determinação,
expõe a coragem de Gabriela Pontes.


Sim, Várzea também tem 

a sua Gabriela, destemida
batalhadora Mulher de fibra, 
num universo de boa gente
que ainda acredita no porvir
na força do sonho varzeano,
que não se cansa de acordar com o sol
que espera, que madruga,  
para ver mais cedo brilhar uma certeza:
a de que melhores dias virão!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

JUSTA CAUSA













Autor: João Ludugero

Várzea me inova,
me leva a fazer versos
e a poesia me ronda faz tempo
só por causa do teu amor
que ora me faz ser assim
feliz criatura, ente saudável
dono de mim
antes do que ser do-ente

Admirável, bem sei
de direito e de fato,
que teu amor me sonda
renovarzeado,
sinto-me em paz,
sigo o caminho contente;
acelero o passo com equilíbrio,
por entre cactos e macambiras,
por entre espinhos e aridez,
sentindo o cheiro da terra

Aprendi a rabiscar palavras
que me namoram
que sabem ser flor
que podem ser vento a soprar
pela estradinha de chão,
na tarde amena a me conquistar
sem abrir mão da minha sensatez.

Sem ela, onde estaria eu agora,
sem o teu sereno agreste
pra me abastecer as ideias?

Não me arriscaria tanto.
Esperaria um golpe de ar
do teu sorriso aberto,
estaria pronto, de certo,
pra te receber, inteira
a lançar no meu peito
escancarado e troncho,
fortíssimo jato
de amores e saudades...
tudo vindo de ti, minha Várzea!

CATOLÉ
















Autor: João Ludugero

O vento balança o coqueiro
cai coco do pé
eu trepo na palmeira, sem peias
voo nas alturas
pela Várzea a fora
derrubo o coco
nisso vejo a poesia que perdura
que trago curtida no coco
pra disparecer o quengo
no arrebentar das ideias

Dispôs, depois não reclama
pois a vida é dura
muito mais que o coco,
na quebrada das horas
no calejo das mãos
na subida do coqueiro
na peleja da lida

Ainda assim,
permaneço atento,
não bato o catolé
não arredo da laia
arrodeio da lama,
feito caranguejo
de frente à quenga da vida

De sobra, ralo o coco,
misturo no mel de cana, de engenho
oh, menino, passa cá a quenga de coco,
vou fazer uma cocada
pondo açúcar e limão.
Se quero cocada preta,
ponho no fogo um tempão

Se preferir, pode ser
com rapadura batida

que no fogo essa mistura
vira logo um quebra-queixo,
puxa-puxa esse moleque
que a vida tem razão,
se a menina nos convida
a saber se o coco é oco.
deixe de lado o dengo.

Mas como sabê-lo, sem prova
se não esquentar o quengo?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

NATIVO SONHAR

Autor: João Ludugero

Calejo as mãos na colheita do milho
apanho feijão, debulho favas
paçoca no pilão, rapadura e gergelim 
cocadas da branca e da preta
numa cuia de sonhos remendados
as rapadeiras de mandioca lidam
com a massa, entoam cantigas
mandioca na prensa
esperanças sangrando
manipueiras e cheiros
balaios de desejos encostados
vão resistindo à aridez do agreste
entre farinhas, beijus e tapiocas

Acreditando que além das cercas verdes
das cancelas do curral
tem sempre o sol amarelo
que se deita alaranjando na boca da noite
só pra esperar nascer de novo a alvorada
e com ela uma revoada de passarinhos
a enfeitar a paisagem varzeana

As lavadeiras do rio acordam e cantam
ao peso da sorte, a encher seus potes,
de límpidas águas de cacimba
enquanto coqueiros e velhas palmeiras
assoviam uma canção de liberdade
porque ainda acreditam no porvir
ainda cavam sonhos possíveis

Enquanto esse menino nativo
escava poemas simples assim
que falam um pouco da garra
da lida dessa gente que acredita
que não dorme no ponto
de partida, à espera de um dia
ainda beber na fonte
nesse riacho doce da felicidade

A BODEGA DE ZÉ ANJO E O CANDEEIRO DO TEMPO

















Autor: João Ludugero

A casa era toda caiada
pequena e aconchegante
tinha um balcão de madeira envelhecida
com a pintura quase toda descascada,
meia dúzia de frascos de pinga, aguardente
vidros grandes de girar cheios de confeito
línguas de sogra, pirulitos
e carrossel de açúcar pras crianças...
e ficava bem ali na descida pro rio Joca,
na rua do arame, no seio da minha Várzea.

O querosene Jacaré se encontrava num cantinho,
cinco latas com as folhas-de-flandre destampadas
esperando abastecer os candeeiros,
as lamparinas e seus pavios;
algumas garrafas verdes de rolhas,
vazias de 'sangue de boi' e um funil,
havia também um balaio de gatos bem forrado
e uma gata que amamentava seus filhotes;
sacaria de boca arregaçada,
onde havia bastante milho, araruta e farelo;
feijão, farinha de mandioca e carne seca
e várias réstias de cebola roxa e alho,
sem contar com vários garajaus de rapadura.

Tinha um pássaro preto fora da gaiola,
um papagaio quase depenado de velhice,
sementes de girassol, alpiste e xerém;
panos de prato bordados ao croché,
um banquinho feito de coqueiro entalhado
meia dúzia  de tamboretes em flagelo
só pra o conforto de toda freguesia.

Seu Cícero Anjo,
pai do Zé e da Liu de Lió,
embrulhava o peixe seco
Filizolla bem ao lado
dava o fiel da balança,
com seus dois pratos
de cobre nada reluzentes,
davam justeza de peso a toda gente,
covencendo o freguês desconfiado
de que ali 'fiado, só amanhã!'

Nem amanhã, nada de calote ou pendura,
porque nada valia mais que um fio do bigode
tudo na base da palavra dada, de confiança, 
detrás do balcão, miudezas em geral,

onde rolava o fumo de rolo e a palha
num cesto de pão de sal, cocorote,
solda, bolachão de pacote
bolo de fubá, sequilho,
regalia, brote, etc e tal.

GUERRA DE MAMONAS

Auor: João Ludugero 

Sou filho da Várzea de José Lúcio Ribeiro.
Nela reencontro minhas raízes, o meu canto.
Celebro a vida, sou mais um filho da Vargem.
Lembro do meu berço, uma rede do mais puro algodão 
que me esperava no alpendre de simples casa caiada,
onde habitava a felicidade.
E assim a gente aprendia a gostar da terra,
desde muito cedo, na convivência muito se aprendia, 
desde a admirar a natureza a tomar banho de rio no Joca, 
a nadar, a brincar na paz da guerra das mamonas.

Minha avó Dalila cultivava com amor, suor e afinco seu roçado.
Eu via tudo de perto, e muito aprendia no meu silêncio. 
Meus cadernos me acompanhavam, sempre. Recordo-me 
que ficava a estudar nas sombras dos juazeiros, 
cultivando minhas primeiras letras. Plantio de sonhos.
E eu gostava de ver o passaredo a cantar, 
enquanto o ar se enchia do agridoce olor da maniva, 
dentre leirões de tantos outros cultivos de subsistência.

Eu era ainda pequeno, franzino, mas via de perto 
aquela brilhante luz no espelho das águas, 
das salobras águas dos riachos da minha Várzea, 
a margear a roça, fertilizando o vale verde, 
presságio de boas novas e fartura na Várzea, 
terra do cheiro-verde, do viço das hortas fraternas, 
dos samburás cheios de peixes, 
da esperança de vida melhor, 
das farinhadas e dos beijus, 
da colheita da noção do repartir os frutos.

UMA FLOR PARA CILA














Autor: João Ludugero 

Eu tive a sorte de nascer ali
nessa terra de tanta magia 
de onde faço versos achados,
garimpados na bateia
do meu coração varzeano. 

Escrever versos assim
com a pureza da alma
de uma simplicidade ímpar,

era mesmo minha ideia.

De vez que nunca chegam 
a cair no vazio, asseguro,
pois saltam de rimas cheirosas,
no vasto canteiro da poesia,

terreno arado, bem cuidado,
lavrado no cerne da fartura
de um Vapor vital, 
que serena a tarde amena 
na colheita da noite ou do dia.
  
Pelas estradas de chão, 
ao som dos canários da terra, 
busco as alamandas amarelas
que insistem em renascer 
além da Vargem e dos bueiros,
nesse lugar de tantas lembranças 
nos beirais das cercas vivas,
sobressaindo dos jardins.
Sol em esplendor
ouro cobre o verde agreste 
da Várzea de dona Otacília 'Cila',
a inesquecível e querida irmã 
de dona Rosa Marreiros.

Enquanto isso...
no ar se expande o cheiro
de flores e frutas maduras
que perfumam a nova estação.
Abelhas celebram;
não se zangam,
pois os ariscos colorem uma floração:
eclode primavera-verão...