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quarta-feira, 30 de março de 2011

O LANDUÁ















O LANDUÁ
Autor: João Maria Ludugero

Xibimba vai à pesca.
Pula de contente ao se achar
Fisgando uns piaus, uns carás
Para fazer pirão escaldado

Com farinha de mandioca.
Para dar cor à sua cara pálida,
Para poder dar sustança às pernas
Para poder o corpo aguentar.
O menino avança ao sol,
Desde cedo caleja seus pés
Na areia quente do rio Joca,

Feito lambari a saltitar fora d'água
Na peleja de saciar a fome da mulinga
Arrasta-se ao riacho raso,
Onde crédulo insiste em lançar

Seu gasto landuá velhinho
Com alguns buracos e
Uns tantos remendos.
Buliçoso na baldeação das águas,
Mergulha o menino varzeano
Em busca de algumas piabas,
Jundiás, curimatãs, aratanhas
E principalmente traíras.
Ele se afoita a ir mais fundo, astuto,
Revolvendo as águas mansas,

Abrindo-as, na esperança  
De tirar do rio seu sustento,
Apanhar o peixe necessário

Para encher o galho da enfieira,
Sem carecer de abarrotar o samburá,

Mas garantir que não se escafeda tão cedo,
Não antes desse moleque ganhar o mundo.
Ganhar o mundo já sem seu landuá,
Mas sem perder a alma de arrasto,
Quando as traíras lhe dizimarem
O rudimentar instrumento de pesca,
Nos contornos desse efêmero rio
De salobras águas barrentas.

terça-feira, 29 de março de 2011

NO COLO DA ESTRELA

 
(Cartonn de Sergei)

NO COLO DA ESTRELA
Autor:João Maria Ludugero

Quando eu era pequeno
Minha mãe Maria
Já me vestia de poesia.
Me banhava na bica do quintal
Com o despontar da estrela matutina.
Eu escovava os dentes com raspas de juá.
Eu sorria tão bonito e feliz,
Lavava a alma, sem queixas,
Apesar da água fria.
Da vida que me levava
Não tinha do que reclamar.
Ficava até sem palavras,
Mas de ouvidos bem limpos.
Só na escuta, contemplativo,
Aprendendo a mais ver,
Vivendo a observar dali
O horizonte que se estendia acima
Do alpendre da nossa casinha
E o que também via o bem-te-vi,
Sem me pre-ocupar com o bicho
Da goiaba nem com a vida-papão.
Se já era meio-dia ou
Se o sol estava a pino
Se o sol estava alto,
Com o canto da cigarra,
Se havia chuva ou estio.
Assim, nesse diapasão, 
A vida tanto me encantava
E me fazia adormecer
Logo cedo com as galinhas,
Ao cair da tarde amena,
Deitado no colo da minha mãe, 
Que me ninava na lida do lar,
Como quem recita uma cantiga,
Como quem reza baixinho
Para espantar papa-figos.
Hoje estou gente grande,
Escrevinho meus poemas
De vestígios, sombras e ruídos
De vestes e luzes não postiças
Que me acompanham dia-após-dia.
Mas como se escreve carinho,
Conforto, descanso, ternura,
Meiguice, aconchego e doçura?
Ora me visto dos versos que invento,
Ora me reinvento, exponho-me
Desnudo não me acanho, me pego 
Ao chorar solitário no escuro,
Sempre que a saudade me bate,
Toda tarde quando o sol se põe. 
E ela, que me ensinou o ato de contrição,
Nem mais está para me apanhar
No colo - Minha estrela vesper,
Que voltou pro seu lugar no azul,
De onde permanece toda firme
A me fitar, a me ninar os sonhos.
O tempo passou. Ganhei espaço. 
Continuo a ser eterno menino
Travesso, metido a ser gente grande,
Mas que ainda se veste de poesia,
E passou a escrevê-la no papel,
Só pra acordar, ver de longe e perto
Sua estrela D'alva, altiva a brilhar
No céu de toda saudosa manhã.
Hoje eu sei como escrever Amor. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

ARMAÇÕES DO AMOR













ARMAÇÕES DO AMOR

Suzana conjurou feitiços
Que aprendeu a fazer
Sem saber como.
Abriu fechou caminhos

Para amarrar o João,
Seu ex-namorado.
Feitiço para amar,

Trazê-lo de volta,
Conquistar e mantê-lo,

Por toda vida, sempre
Ao alcance da mão,
Dominá-lo, nem que fosse

Na marra, se precisasse
Até debaixo de vara.

Visitou dona Rosa Daiana, vidente,
Que jogou seus búzios, leu cartas,
Costurou, coseu, deu nó cego.
Lacrou tudo num só coração encarnado
Que pendurou no pescoço de Suzana.

Feito um patuá, onde alinhavou
Antigo retrato 3x4, em preto e branco,
Acreditando fosse a foto do amado João.
Simpatia feita, destino selado.
Para fechar o serviço acertado, 

A crédula Suzana enterrou seu intento
Em lugar incerto e não sabido,
Pra não ter chance de arrependimento.
Foi numa sombra de encruzilhada

Que enfiou numa lata quase vazia
De leite ninho o supradito patuá,
Junto a uma cueca furtada na lavanderia

5 à Sec, onde João leva sua roupa suja.
Tinha que ser peça usada apenas uma vez,
No intuito de trazer seu homem
De volta, bem atado, no laço.
No ato da amarração,
Devido a urgência, na ânsia...
Coitada da Suzy!

Meteu os pés pelas mãos.
Esqueceu-se de que não havia
Antes esvaziado o leite em pó da lata,
Como fora prescrito pela quiromante.
Não percebeu, devido a pressa,

Que além de ter trocado a fotografia,
Houve um lapso: pegou a peça íntima errada.
Ao invés de pegar a foto
Do João, confundiu-se.
Afanou retrato e calcinha de Sofia.
Danou-se. E agora, Suzana, como
Desfazer toda trama, alinhar o novelo,
Se o patuá do trabalho viabilizado
Foi coisa feita na sobra do leite, 

Em cima da irmã caçula do João, a tal Sofia,
Cagada e cuspida a cara do seu pretendido?
No final das contas, após a confusão,
Houve-se por bem acabar tudo em festa de família.

Suzana resolveu entender-se, numa boa, com Sofia
E ainda convidou um João satisfeito 

Da vida, para apadrinhar o feliz casamento.
O enlace se deu na igreja do Universo Sem Preconceito.
Aproveitaram o ensejo para batizar Juan Victor,

O lactente que ganharam de presente,
Que pretendem adotar em nome de ambas,
Uma linda criança que foi deixada há poucos dias,
Bem no hall de entrada da casa do padrinho João,
Que continua sozinho. E nem ele sabe que traz consigo
Um corpo fechado, tão imune que altera e deforma feitiços.

sábado, 26 de março de 2011

ATIRANDO SAPATOS

ATIRANDO SAPATOS
Autor: João Maria Ludugero

O amor lhe pegou de assalto.
Mas ele não cruzou os braços.
Tentou rebelar-se, de fato,
Sobressaltou-se ao tremer na base
Quando o amor revirou
Sua cabeça, deu nó, desfez laços
Fez refém seu coração,
Quase fez dele churrasquinho de gato.
Jogou no ralo todo sentimento.
Justo ele, sempre tão bom menino!
Rasgou o traje de passeio, descabelou-se.
A rigor, fez-se furioso de atirar sapatos,
Ao quebrar o protocolo, atreveu-se.
Esqueceu-se das boas maneiras,
Meteu a língua no prato,
Provou de amargo licor, 
Amassou e comeu o pão do diabo,
Lambuzou-se assim e assado, eufórico.
Bebeu para ficar mais doido ou lúcido.
Mas, ao se achar de pires na mão,
Jogou as cartas, virou a mesa,
Eira e beira, sacudiu a toalha.
Esperneou, ao dar a volta por cima.
Gritou a plenos pulmões:
Fodam-se!
Deu risadas do amor, roubou a cena,

Gargalhou, escancarou o verbo indigesto,
Deixou a mesa arrumada
De desarrumação.
E, por derradeiro,

Obsceno, arrotou de novo 
Em alto e bom tom:
Fodam-se!
Saiu palitando os dentes,

Sequer lavou as mãos,  
Abriu um sorriso borboleta
De escárnio ao amar-elo.
Pois não era de ferro
Nem tinha nervos de aço,
Pegou seu chapéu,
E erguida a cabeça,
Ainda escarrou de contente
Ao sair daquela  fossa abismo 
Onde o amor lhe jogou friamente.
Sem dar ouvidos ao pensar alheio
E aos que lhe condenavam, à toa,
Sorriu de si mesmo, do estado das coisas
Na mais completa falta de educação.
Em nome do amor, se expôs à beça,

Dispôs-se a infrigir normas. Irascível,
Quebrou regras, réguas e paradigmas,
Até fez banquete no funeral.
Mas, apesar do enterro de um amor
Ele hoje se encontra cauteloso aprendiz
Vendo que, sobretudo, o Amor continua vivo,
Que vale a pena ter amor próprio,
Para recorrer, caso necessário, de sobressalente,
Quando surpreendido assim de repente,
De susto, por um amor perecível.   

quarta-feira, 23 de março de 2011

A POESIA QUE SAIU DA GAITA DE BOCA DA MENINA DOIDA














Maria Rita me enfeitiça.
Dizem que ela nunca envelhece,
Que faz caretas, estira o maior dos dedos
E até dá ares de graça aos arremedos,
Que mora no mundo da lua nova,
Que é doida de pedra, com cara de meter medo,
Que vive nas nuvens feito uma doida varrida.
Só sei que apesar das chacotas de costume,

Apesar das ofensas, do acinte e dos seixos
Que lhe são atirados, não mais revida,   
Ela não mais se prostra, ainda mais se mostra
Toda vez que sai pela tarde amena
Da minha Várzea das acácias,
De saia rodada, de tranças coloridas
Ela faz bem à minha cabeça,
Assoprando sua gaita de boca.
É o retrato da própria alegria ambulante
E a rua toda pára só pra ver Maria Rita
Levar a música aos olhos da gente.
De tanto fascínio é sua melodia

Que traz ligeiro ritmo à abundância
De tudo o que não temos. Sem exageros, 
E, num átimo de segundo,
Perfuma a alma do vilarejo,
Ao hipnotizar pelos ouvidos com aquela sinfonia.
Na calçada da igreja-matriz de São Pedro apóstolo,

O céu parece chegar mais perto, de certo,
Só por causa do vialejo daquela menina-moça,
Glamourosamente vestida de chita
De flores miúdas, tão pobrezinha,
Mas que deixa a vida do feijão com arroz
Com um gostinho de manjar dos deuses.
Tudo em razão de sua cantiga de encantar,
Que faz a própria tristeza, que era real e grande,

Desmoronar-se junto com as dores da lida,
Que parece tirá-las com a mão, sem demora,
Toda vez que se faz presente com sua gaita mágica.
E a gente só sente os pés no chão
Quando ela some a tocar levando consigo

As almas passantes além das quatro bocas da rua grande,
Dobrando a esquina da bodega de Seu Olival.
O som mágico extraído do pequeno instrumento
Deixa-me flutuar divagando livre mente em imaginações.
Eu vejo tanta poesia jorrando em música.
Sinto-me levitar, ainda entrelaçado pelo som da gaita.
Acorda, menino! Cuidado, senão essa loucura te pega,

Pode deixar-te biruta, do tipo que sai atirando pedra na lua!
O grito lúcido da vida real não me alcança.
Eu me acho longe, a viajar junto, alheiado,

Ao encontro daquele divino som que emana
Da boca da Maria Rita, a menina maluca.
E, quando acordo desse sonho, a estas alturas,
Já me pego a caminho de casa, contente da vida,
Ainda embevecido pela tocante magia do vialejo
Que ainda canta dentro do meu peito,
Como se estivesse recém-acordando num domingo

De um sonho bom, ao doce deleite, de súbito,
Que ora faz feitiço na cabeça deste poeta menino.

QUE NEM CARANGUEJO
















QUE NEM CARANGUEJO
Autor: João Maria Ludugero

O medo de amar
Impõe travas ao peito.
O coração encouraçado
Mais parece um caranguejo.
Anda de lado, debanda,
E para trás, com medo,
Só sabe recuar, recuar...
Convencido de que o tempo
Transmuda em nós o desejo,
Sigo na lida, avanço destemido,
Há dias em que imito o crustáceo,
Se há riscos, enfrento-me primeiro
Meto o pé na lama mangue a dentro,
Desengonçado, caranguejo-me. Por que não?
Recorro ao chão lamacento,
Nobremente ergo gesto evoluído.
Abro os olhos embaçados, miro longe,
Tenho nas mãos armadura espessa,
Me articulo para encarar o amor.
Depois do atoleiro, estou aprendendo
A me virar sozinho. Disposto, vou em frente,
Não fraquejo. Deixo vir os dias futuros, incertos, 
Com seus passos tenazes, sabe lá Deus!
Pois na arte do versejo, escudo-me.
Tenho lá as minhas manhas.
Sou forte, tenho traquejo,
Não vou mais encalacrar-me,
Comichando-me nos medos.
Amar de novo, eu consigo,
Afinal eu sou da terra
Do prudente desertor. 
Ó meu caranguejo uçá,
Quero fazer como fazes,
Saindo do frio fosso da lama,
Careço lavar a alma,
De frente e verso,
E até pelo avesso, inteiro,
Quero aprender a ser forte.
Nas lutas do amor exposto,
Quero aprender contigo,
Amanhã não, hoje mesmo.
Empresta-me tua carapaça,
Pois no amor vou cravar as patas!
Se por acaso, chegar a perdê-las,
Tem nada não, é um meio de defesa.
Elas se regeneram, 
Nascem outras no lugar.

terça-feira, 22 de março de 2011

QUANDO ENCANTA O SABIÁ













Quando cantas no agreste,  ó sabiá,
Fazes vibrar o coração
Deste cabra da peste, ó sabiá,
Teu cantar é emoção, ó sabiá,
Que acalenta meu peito
Que afugenta a dor atroz
Que acaricia minha alma inquieta,
Numa sinfonia tão bela
Que só se compara
A uma feliz saudação
Numa oração de amor,
Sem letras nem palavras,
Sem precisão de orquestra.
O teu cantar mavioso, ó sabiá,
Faz meu ser ficar em festa logo de manhã, 
Ávido pra ver o sol  que me chama
Pra ver a vida escorrer no riacho
Maravilhar-me, sem medidas,
Ao vir ver a vida que não se esvai,
Quando ouço teu cantar
Ao cair da tarde primaveril,
Quando me ensinas a olhar pro horizonte.
Não tem preço, não se teria como avaliar, 
Apreciá-lo, degustando o mel desse riacho
Que tem curso pela vida afora,
Que me manda desbragada a mente,
Sem pejo, ouvir teu canto de sorte,
Antes que a vida me desencarne
De uma vez por todas, de certo,
Antes que teu canto solene 
Emudeça meu encanto, ó sabiá!
Quero ouvir encantado
Tua cantiga de amor,
Melodiosa mente, até chegar o dia 
De estar com a tal da gota serena
E dizer-te adeus, ó sabiá!

segunda-feira, 21 de março de 2011

O AMOR QUE ESTAVA AQUI, CADÊ?


Deixa estar,
Só pra ver como é que fica.
Deixe ficar a porta aberta,
Quiçá Rosa volte de veneta,
E entre direto, emburaque
Casa a dentro, sem precisar bater.
Ela largou as chaves debaixo
Do esquecido vaso
Das orquídeas secas,
Esturricadas no hall de entrada.
E o tempo a correr em escalada.
Se ela voltar, não haverá tropeços,

Apesar do escuro que ali se alojou,
Após a luz cortada.
Ela conhece de cor,

Até se vendados seus olhos,
Cada vão de escada,
Cada falso degrau

Da sala de estar,
Cada compartimento,
Cada trinco de janela
Que devido ao desuso
Emperrou os ferrolhos.
Não é de se estranhar, de certo,
Pois até na água da torneira
Deu ferrugem, ficou imprópria ao uso.
O tempo range que range nas enormes portas
Feitas em madeira de demolição.
Ficaram sem lubrificar há um tempão
E as dobradiças até parece que murmuram,
Quando se abre a casa
Só pra entrar o vento,
A fim de arejar o tafetá das cortinas
E a tapeçaria pendurada na parede.
O vento espana os mofos dos retratos,
Mas as assombrações se espalham,
Estas ainda penam pelos corredores
E arranham as pastilhas de vidro encarnadas,
Quase a afogar o sol na gigantesca piscina.
Mas o sol se deixa entrar, abre as sombras
E devagarzinho se achega, manhoso,
Pega intimidade no quarto do casal,
Onde fora guardado, a sete chaves,
Aquele amor de outrora, ora adormecido
Numa gaveta de criado-mudo.
Discutiram a relação, debateram-se.
E agora, doutor, quem é que vai cuidar da gata,
Quem vai botar ração pr'o cachorro?
Eles pediram um tempo, deram-se espaço.
Expuseram a outra face pra rua bater.

Nada adiantou. Roeram o osso, não teve outro jeito.
Acharam-se estranhos sob o mesmo teto.
A corda corroeu. Arrebentou.
As distorções ganharam corpo, voz e musculatura
Nessa era de sensacionalismo midiático. 
Circulou até em jornal a notícia
Acerca do desfazimento.
Aquele velho amor não teve mais conserto.
Mas o amor se encontrou de novo:
Só que no corpo de outra criatura, de cara nova,
E tudo ganhou um certo esplendor. Vida ávida!
O tempo no degrau andou, correu.
E, apesar do enterro de um amor,

Nenhuma lágrima sequer escorreu por ele.
O Amor continua cada vez mais vivo.
É só deixar ficar a porta aberta.
E o Amor? Não o conheces.
Ele vai, mas um dia volta,
Nem que seja de cara nova.
Só deixe ficar a porta aberta.
Nem que seja uma fresta.
Não digas nada. Ouça.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
É outra vez o amor em festa,
Que divaga, mas chega.
Tão devagar que sobe. Entra.
Não digas nada. Apenas ouça:
É com certeza alguém que saiu da fila,
Que vai arrumar suas gavetas,

Limpar a poeira, eliminar as traças;
Alguém que vai desocupar seus troços,
Alguém que vai fazer sua cabeça,
Alguém que vai chamar o chaveiro 24 horas
Para mudar o segredo da porta. Urgente,
Antes que o velho amor, num certo dia, errado
Dê na doida, dê as caras e queira fazer sarapatel
Arrancando suas tripas, figado e coração!

POEMA BESTA



POEMA BESTA
Autor: João Maria Ludugero

Eu sigo domando
Meus bichos
Pela Vargem à fora,
Enquanto a noite chega
E, do fundo do açude,
Estrelas fixas
Decidem ir embora.
Na cadência de alguma
Ainda tenho tempo
De soletrar meus três pedidos,
Sem temer às verrugas
Que apontam em meus joelhos.
E a vida passante me encanta
Ao contar estrelas
Até chegar aos Seixos,
Onde caminha a tal burrinha
Da possante felicidade.
Arre, égua, Menino! 
Não vês que a potra alegria
Está doida para empacar
Ou desembestar pelas sendas,
Sem arreios nem desesperar,
Doida pra se espojar 
Pelo chão do agreste,
Fazendo-me vir a desatar 
Essa alegria incontida
Ao fazer este poema simples
Não quero outra vida.
Essas palavras secas
E sem rédeas me ditam
O rumo dos vertentes ariscos
De água-doce.
E lá vou eu sorrindo à toa,
Sem esquentar a cuca,
Sem me 'pre-ocupar'
Com outras besteiras,
Vou-me levando dia-após-dia
De cabeça erguida, contente, 
Empertigada mente,
Fazendo valer minha
Santa paciência.

SELO MELHORES
BLOGS LITERÁRIOS
R. B. CÔVO

sexta-feira, 18 de março de 2011

COM AS TINTAS DO MEU INTERIOR: NATUREZA VIVA DA CASA DO MATO













Quero tecer um poema
Com jeito de mato,
Ter uma rede na varanda 
Só pra me aninhar
No deitar do crepúsculo,
Espiando o pôr-de-sol,
Ouvindo o canto da juriti
E maravilhar-me
Com essas coisas simples, 
Que só existem lá
Na minha casinha simples
De pau-a-pique,
Tão pobrezinha
Tão humilde,
Com seus jiraus,
Alguidares, bilhas e jarras,
Com suas panelas de barro
Assentadas no trempe,
Com seu forno à lenha.
Tão pequenina assim, 
 Mas quanto me faz bem estar
Na minha casinha do mato,
Fincada ali no meio da natureza.
E pra enriquecer ainda mais 
Dá gosto ouvir o chuá
Do riacho do mel
Que brota do verde perto.
Sinto-me parte dele,
Ganhei jeito de mato,
Com cheiro de terra molhada.
Adoro ver a lua vespertina,
Que cedo desce ainda tímida
A fim de enamorar-me.
Não custa acrescer que a lua,
Vista da minha tapera,
É lua muito mais bela,
Toda na mira deste sonhador,
Brilha que brilha em frente do alpendre

Onde tem uma laranjeira em flor,
Ali no terreiro aonde ciscam

Galinhas poedeiras vigiadas de perto
Pelo possante e envaidecido galo, 
Bem como assanhadas galinhas d'angola
Que fortemente cantam 'tô-fraco, tô-fraco',
Ao redor de onde pastam borregos e cabras.
A minha casinha tem paredes
Com reboco de taipa, é tão simplezinha.
Modéstia à parte, é ali que bem me atinge
Quase toda tarde, de pronto,
A tão sonhada felicidade,
Aquela que bonita desaba
Sobre minha cabeça, não nego,
Em forma de estrelas cadentes
Bem lançadas no firmamento,

Num céu que eu mesmo pinto.

quinta-feira, 17 de março de 2011

ASA-DELTA




















ASA-DELTA
Autor: João Maria Ludugero

Eu queria fazer um poema
Desabotoado, relaxada mente
Fazer um poema alado
Sem me preocupar com calos,
Com meus calcanhares
De Aquiles, 
Aliado ao ser livre,
Sem cintos apertados,
Sem prendedores nem gravatas,
Desatado de todos os egos
De todos os nós cegos,
Porque se os nós viram nó
A ponto de serem cortados,
Melhor largar mão dos laços.
Para tanto, larguei a mão
Da ideia das algemas
Das trancas, das cancelas,
Abri os cadeados, presilhas,
Escancarei as celas,
Ilhas, janelas e porteiras, 
Relaxei os nervos e as pilhas
Dos meus medos penitenciários.
Quero um poema liberto,
Sem rédeas nem cabrestos,
Sem amarras nem segredos
Sem cadeias, desacorrentado
Um poema assim desarmado
Que me pega de assalto,
Que me asa-delta a alma
Que me redima sem lacres
Que me domine solto, sem aparas,
Como os versos de um cordel
Que mais parecesse reza,
Embalando-me numa canção inédita,
Cantada livremente nas ondas
De rádio que só toca no coração,
Como quem aboia e encanta,
Como quem levita, sai do chão,
Mas sem cativeiros nem percalços,
Nada de peias no passo, nada de esporas.
Chega de trancar as portas de casa,
Nada de me fechar em exílios ou desterros,
Quero apenas ter esse perene libertar
Que tanto me fascina, sem barreiras, 
Que me afasta do cárcere
De não saber amar-se.
Meu coração não suportaria
Lugares fechados, morreria de asfixia.
Tenho certo pavor do uso de algemas,
Por isso aprendi a dormir com o peito aberto,
Pois sendo assim, acordo mais leve, de certo
Sem sufocos, sobressaltos ou pesadelos,
Sem receio de que algum carrasco
Medíocre se atreva, levianamente,
A furtar-me o ser, subtraindo-me as asas. 
Porque ser assim não tem preço.
Deixar de ser assim, é aprisionar-se,
É não saber o gostinho tão precioso
Que tem a nossa senhora liberdade!

A PROFECIA


A PROFECIA

Eles foram feitos um para o outro.
O encaixe perfeito. Ele se chamava Íris.
Ela também tinha o mesmo nome.
Coisa rara, coincidência: Almas gêmeas,
Formavam a laranja inteira. Coisa do destino.
Ela de escorpião, ele virgem. Muito significativo.
A cartomante profetizou que foram feitos um pro outro,
Estava escrito nas estrelas, na linha da mão,
No sorte das cartas do tarô, nos búzios da vidente,
Não descuidavam do que lhes alertavam os signos, 
Liam o horóscopo, dia-após-dia, religiosamente.
 Fazia sentido, o nó fora dado,
Muito bem atado ele não tinha dúvidas.
O ciúme doentio os afastou até dos amigos.
Eles se bastavam na solidão de ser apenas dois.
Dominado, ele a amava de paixão, cegamente; 
Ela achou que achara o seu homem,
Anteviu a letra "I" na linha da vida,
Na borra de café, no caule da bananeira.
Fez tantas simpatias, coseu foto em patuá, 
Perdeu a conta de quantas velas acendeu 
Para Santo Antônio de cabeça para baixo
E para todos os santos.
Estava tudo certo para o enlace na matriz
De Nossa Sra. da Penha, onde eles pagaram promessa
De se entregarem só depois do casório.
E foi dura a penitência,
Quase autoflagelação, quando ambos
Ajoelhados subiram os 365 degraus da escadaria da igreja  
- um para cada dia do ano-
Esqueceram e marcaram o dia "D" do evento
Para o dia 29 de fevereiro
- Não teve degraus para eles no ano bissexto -
Mesmo assim, demarcaram a sorte e agradeceram
Por se acharem tão cúmplices com as bandas de suas caras-Metades. Reservaram a igreja, as flores, o luxo da festa. Delimitaram o número de convivas, padrinhos, pagem.
E logo Marcaram a data para a troca das alianças.
Aos olhos do mundo, tudo estampava 
Indizível felicidade! O amor é lindo!
Logo veio a pomposa cerimônia, e virgem santa! Pasmem. 
Aconteceu o que ninguém esperava:
O padre se disse impedido
Para o intento, não haveria mais casamento, de fato,
Uma vez que aquela mulher fez ele ser o que é hoje: Padre.
Ele entrou para o celibato, fez voto
De castidade com Deus, tudo Isso em causa.
Mas nunca deixou de amar aquela Íris
Arqueada  à sua Frente, até depois da batina imposta.
Íris era sagrado segredo de Estado. 
Mas o Sacerdote roubou a cena,
Perdeu a cabeça, esqueceu-se de sentir dó,
Deixou de lado o pecado, afastou o próximo,
Tendo em vista que ele a viu primeiro
E seria o último a desposar aquela mulher, 
Abraçou a noiva com toda força
E a beijou no altar-mor
Diante do Cristo crucificado. 
Santo Deus!
Ela, contente, abriu um sorriso iridescente,
Meio conivente, quase feliz sem acreditar
Que aquilo tudo estava acontecendo.  
Aos olhos alheios, não se importaria mais  
Se agora fosse virar mula-sem-cabeça.
Sob o olhar perplexo daquela multidão alardeada,
Mais de 200 testemunhas na mira do ato.
Foi aí que o ex-noivo sacou de pistola calibre 38
(Perdão! Teria sido um revólver Taurus 38?),
Atirou para o alto quase aos pés de um santo,
E furioso, atordoado, aos berros,
Ameaçou dizimar a todos, e a ele próprio,
Assustando aos presentes, que estupefatos com o quadro,
Chamaram a polícia, que lhe ofertou um par de algemas, 
A fim de lhe arrefecer os ânimos.
Dilema resolvido, logo saiu dali feito um louco
Numa camisa-de-força: O ex-noivo
Algemado, com um par de alianças
De ouro 18k no bolso do casaco
E ainda estava lá o cravo branco na lapela do terno.
Saiu dali direto para a cela,
Por desacato à autoridade policial.
A vida tem lá suas surpresas desde o arco da velha,
Da retina à íris, a vida bebe dessas cores em dias embaçados,
De uma ponta a outra do arco-íris,
Seja nos dias de sol com chuva ou vice-versa,
De repente, seja nos dias em que a vida vem
E nos surpreende de certa maneira
Com cada cor, que ficamos boquiabertos,
Amar-elos
Com o queixo na mão,
Ou a mera queixa da vida real.

terça-feira, 15 de março de 2011

CHUVA: LAVE-ME!












CHUVA: LAVE-ME!
Autor: João Maria Ludugero

Eu brinco com a chuva
Alcanço as nuvens,
Invento bichos nelas,
Viajo com eles
Provocando-as, 
Faço elas chover.
Eu brinco na rua
Pulo, deito e rolo
Nos dias de chuva,
Saio de casa sem guarda-chuva.
De qualquer sorte, de costume,
Iria mesmo esquecê-lo
Em qualquer lugar.
Se estou na chuva,
Permito-me molhar.
Sou à prova d'água, resistente,
Não fui feito de açúcar,
Mas deixo-me lavar.
Enfrento a enxurrada,
Eu me presto socorro,
Eu escorro, me levo.
Se escorrego no limo,
Solto palavrão, dou esporro,
Levanto-me depressa,
Arejo a cabeça, corro
Lavo-me da lama na chuva 
Não me prostro, isso não. 
Na embocadura do rio Joca,
No aguaceiro da lua cheia,
Eu faço ela toda se deitar,
Chover nos ladrilhos da minha rua
Que se chama São Pedro,
Toda prosa se derramar, nua
Derreter-se em  prata e poesia.
Ela me tira do terreno baldio
E sei que vou parar direto 
No brinco da  princesa,
Que brilha e me ilumina inteiro,
Sempre que me beija e não viro sapo.
Mas, se é o que me reserva o destino, 
Se se não me apresentam escapatória,
Se do final ao princípio tiver que ser isso,  
Virar pingente de lua, entrego-me.
Logo me penduro no pescoço de Lia,
Pérola que me retirou do ostracismo
A me ninar o sonho acordado,
Só pra valer literalmente o ditado:
Ele nasceu virado pra lua! E foi mesmo.
Sei dos meus valores de homem de chuva.
Sem aquelas acirradas estratégias,
Sem pensar nos extratos de bancos
Nem acumular preocupações com a bolsa.
Que venham cúmulos atemporais.
Não tenho medo de cirros,
Nem de estratos ou nimbos.