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sábado, 20 de março de 2010

BUCHADA DE BODE À VARZEANA

Autor: João Maria Ludugero da Silva.

Era dia de Domingo. Ainda era cedo, mas já se tornara rotineiro, na casa da Dona Zidora, Suetônio acender o forno de barro do quintal, utilizando quengas de coco e sabugos de milho. E a Dona Maria Calixto ajudava a socar a mandioca-mole no enorme pilão. Um cheiro de erva-doce, de melado de cana-de-açúcar e cravo tomavam conta do ar, parecia até que aquele aroma exalava um cheiro bom perfumando toda a rua José Lúcio Ribeiro. A gente podia sentir o aroma a quilômetros dali. Que cheirinho bom! Boas lembranças..

Não longe dali, Seu Pedro Calixto, Seu Pedro Izabel e Quequeca de Oneide, pai de Vânia, já esquartejavam e limpavam o bode pendurado pelos pés. Com uma lâmina afiada, o couro do animal era todo retirado, com enorme precisão cirúrgica e as vísceras jogadas numa bacia de zinco, onde seriam limpas e aferventadas. Bucho já tratado, a partir daí eram os miúdos utilizados para preparar a famosa iguaria: a buchada. Qual a receita?

Xinene Paulino, Mãe de Antonio (Picica) e Lucineide (Piu), ajudava a preparar e costurar os buchos com miúdos e temperos. Enquanto Seu Cícero Paulino, marchante de mão-cheia, degustava uma "passarinha" frita e um bom gole de conhaque Drehar.

Sob a mesa da cozinha ficavam fígados, tripas, bofes, coração, buchos e até os pés do animal, além de linha e agulha. Primeiro se misturavam os miúdos. Acrescentavam-se tantos temperos, tomate, pimentão, cebola, coentro, sal, colorau, vinagre, alho e pimentas de cheiro.

Depois, era só deixar descansar. O acabamento era requintado e demorado.
Dona Wilma Anacleto e Darquinha também chegavam para dar uma mãozinha na feliz receita.

Exigia habilidades manuais e até um jeitinho de estilista para dar forma aos buchinhos, mas nada que Dona Maria de Seu Odilon não soubesse a respeito. Na linha ela dava até duas voltas para ficar resistente e usava as de cor clara para não chamar atenção. Para costurar cada bolinha não demorava muito. Aí entravam Lúcia, Aldenira e Neuma de Seu Odilon ajudavam nesse trabalho, que parecia fácil. Bordas costuradas, o resultado era uma delícia recheada e suculenta. E que buchada!

Francisco, Dedé e Carlinhos de Seu Odilon traziam muitos amigos para uma prosa lá de casa. E quase todos saíam dali com água na boca, ou de barriga cheia. O cheiro da buchada era uma coisa de louco, atiça o paladar e faz bem ao corpo e ao espírito. Comida também é cultura. E para esses cheiros tenho bom olfato, tanto assim que guardei toda essa feitura para lhes aqui oferecer. Que sejam todos bem servidos! E viva a boa comida varzeana!

Lembro-me que Dona Marica de Seu Otávio aconselhava um grande segredo, o de não esquecer de aproveitar os pés do bode limpinhos, tratados (que soltam a gordura que dá um gostinho especial).
Panela tampada, agora, era levada ao fogo, por cerca de uma hora e meia, e depois estava pronta a buchada. Se preparada de véspera, melhor ainda.

Enquanto a gente podia degustar as delícias da gastronomia varzeana, acompanhados de um bom copo de cachaça da terra, ou "Pitú", ou de uma cerveja estupidamente gelada, podia-se ouvir Cícero Cego, sanfoneiro de respeito, a ensaiar uma nova composição no toque de sua sanfona. Ninguém ficava parado. Lembro-me que até o "Nhôr" Belo ensaiava uns passos de dança, e Lúcia de Dona Carmosina e Cleone "forrozeavam" bonito, pisando macio no compasso de um forró danado de bom.

Eta, sanfoneiro porreta esse Cícero Cego, que fazia a sanfona quase falar, num toque de não deixar ninguém parado. Mas que forró mágico aquele, e quanto remolejo que faz a gente recordar, mesmo que seja na dança do tempo, a gente se divertia, não precisava de data, ia chegando, como num passe de mágica, de muitas brincadeiras, e sempre fazendo da vida uma festa.

Quer ingrediente melhor que a alegria daquela gente?
Que povo abençoado é o povo varzeano!
Bendito seja o nosso povo. Bendito o seja sempre.
Que Deus proteja a todos, sem distinção.

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