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terça-feira, 23 de março de 2010

REDES DE ENVOLVER - O OFÍCIO DO PESCADOR E A VIDA DO POETA















O pescador esboça o croqui  da tarrafa, sua malha
ele tece suas linhas, seus nós,
suas crescentes teias
ele faz a rede, as fieiras, 
os rufos e os chumbos
ele tece as tralhas, 
ele embaraça as linhas, o labirinto,
eu faço o poema...


eu desembaraço cabeças e tranças, iscas e anzóis,
ele há muito tempo fazendo-a perfeita, 
fio a fio,
eu aprendendo a meada, 
linha a linha, palavra a palavra
eu me enredo no poema, me prendo, 
enlaço, me lanço no espaço.


de posse da tarrafa,
ele mata a fome da sua gente, seu sustento,
com sua crescente rede de pescados.
meu poema, por sua vez, tem a fome afiada
no novelo das palavras, soltas ao vento,
tem mais fome de sentimento,
de dizer o sentir cabível, ou não,
tendo em vista que não só de pão vive o homem.


porque para se fazer tarrafa
é necessário ter paciência e manha...
mas para fazer poesia
é necessário ter fome,
se inquietar com as palavras, fiá-las

desde a manhã e até depois de o sol se deitar,
com o sentir porque, pensando bem,
conclui-se que para fazer um poema...
rimas não são necessárias,
versos não são necessários,
métricas não são necessárias,
palavras não são necessárias...


Então se carece do quê 
para fazer um poema?
pensamento é necessário, de certo,
paixão é necessária,
sentimento é necessário,
Amor...
sem amor,
nada mais seria necessário!


Autor: João Ludugero, 17/02/2009.

PACTO DE SANGUE

Autor: João Ludugero

Não careço de remédio
Não preciso de bula
Não espero ter cura,
estou lúcido na mira
Estou com sintomas de paixão,
Mas não estou louco feito cão sem dono, de fato
Meu coração precisa de calma, não de cicuta.

Minha flor do maracujá,
venha logo me visitar, sem convite
Venha logo ser minha tábua de salvação
Trazer seu antídoto ao tédio,
Quero mergulhar fundo no teu leito
Quero saltar da ponte, criar asas
No teu beijo me perder de vez,
Só assim juro que vou
aprender a falar tua língua.

Ensina-me a ser mais
que você em nós dois,
Estou quase aprendendo a rezar tua novena
Estou sentindo meu coração no altar,
Salve-me da cruz,
de viver longe dos teus olhos,
Estou deveras perfazendo
o sagrado pacto de amar!

Nunca mais pretendo
pensar em cortar os pulsos,
Não quero parecer impulsivo Romeu
a implorar um último gole de veneno.

domingo, 21 de março de 2010

A TARRAFA E O PESCADOR DE ILUSÕES



Com a fieira ligada ao pulso esquerdo
fiz duchas com a mesma mão,
prendi as chumbadas guarnecidas aos dentes
com todo capricho e força,
passei a mão direita por debaixo das demais
conservei metade delas sobre o antebraço...


Colhida a tarrafa, a rede, o nylon,
dei um balanço no corpo para a esquerda,
descrevi com o braço direito um rápido arco
de círculo horizontal no azul,
o que chamam de panear...
lancei-me no espaço para a direita,
de corpo e alma a céu aberto, desnudo.


Arremessei-me no espaço, lentamente
abracei o rio, recolhi-me na rede
agarrei o mundo que coube inteirinho
nos meus braços. Dono do mundo, fiquei
Assim feito peixe fora d'água
na malha do tempo que se abriu bem
dentro das águas da saudade,
crescente malha.


Agora eu tento tarrafear
com alguma prática, a contento,
atento pra não ficar embaraçado,
pois apreender o ofício é dureza,
Assim como esquecer daquela criatura
demanda muita prática e jogo de cintura.


O rio Joca sabe disso,
o coração é que não sabe se cabe mais sem ti.

ESCAFEDER-SE

Autor: João Ludugero
.
Minha rosa-rosa,
Agora já não sinto teu cheiro
Nem teu passo, nenhum ruído...
Nem teus olhos verdes, nem tua boca
Não sinto mais a tua mão na minha,
Nem a tua língua mais me alcança,
Nem ouço mais o tambor do teu coração
Bater, bater e bater
Disparadamente,tão breve,
a querer meu amor eterno.

Tudo foi jogado às traças,
Tudo foi jogado às favas,
Tudo foi atirado ao vento
E o tempo levou os sintomas,
Pois já não me serve teu chá,
Minha rosa-chá!
.
Minha rosa-espinho, sem alma
Resultado do sangue encarnado
no dedo espetado, de fato desbotou
Minha rosa-flor da minha Várzea,
Esquecer, esquecerei
De ti e de mim, de imediato,
Da solidão de nós dois, enfim!

Palavras que ficaram por dizer,
Momentos por viver, desacatos,
Tudo se desfez no ar, promessas
Em vertentes vapores e vapores!
.
Minha rosa, digo minha ex-rosa,
Já assim tão descolorida, pálida,
Eu te disse adeus, esqueça-me de vez,
Eu suplico, pelo amor de Deus!
Mas a vida continua... a ser
O maior bem que a gente tem!
.
Se ficaram os espinhos,
bem assim o seu significado,
Que bom! pois eles vão me ajudar a fazer
O antídoto para que eu te esqueça
De lembrar em mim, de uma vez por todas,
Elaboradamente!
.
Desapareça, tome um chá
De sumiço ou se-mancol,tanto faz,
Pois não preciso mais viver nada
do que eu não mereça,
Escafeda-se!
CREPUSCULAR

O 
ovo 
do pintassilgo
fecunda o tempo...
o pássaro das horas
mergulhou 
fundo
no açude da memória,
o Calango

fiz um voo 
rasante
da minha velha infância
à maturidade

agora
abro os olhos
para o que sou,
de coração 
alado
para o eterno 
instante
em que irei me deitar,
assim  
como dorme 
o crepúsculo

autor: João Ludugero. 

MEU VARZEÃO

AUTOR: JOAO MARIA LUDUGERO.


É a minha campina cultivada
minha bela vista, meu Vapor,
minha boa vida, meu bem estar
Meus terrenos baixos e planos,
minha roça, meu roçado, meu milharal
que margeia o rio Joca e o riacho da Cruz,
minhas porteiras abertas, minhas cercas vivas
meu chapéu de palha, meus grilos, meus pirilampos
vou para minha vargem, meu varjão,
onde eu pratico minha pelada, meu futebol
amador descalço e nu, com a mão no bolso,
mas me sinto o cara mais rico
do mundo, no meu quintal
onde chupo manga no pé, que dá gosto
onde o sol é amarelo à beça
onde tenho sombra e água fresca
no alpendre onde asso castanha de caju,
no fogaréu com vara a cutucar a chama
no arisco da dona Beatriz, avó do Pedro Sales
onde vou descanso na minha rede de algodão, cru
sob o cafuné da minha inesquecível avó Dalila,
que não largava seu rosário, seu terço, seu credo de contas azuis.
onde me jogo num boa espreguiçadeira, a chupar cana,
a comer coco ralado na quenga com rapadura,
e engolir o bagaço, a ruminar,
remoendo a vida na rede
de pano de tear na casa de dona Suli,
mãe de 'Tinha', de Vilma, de Joana D'arc, de Joca
e do Quincas do Seu Nezinho Anacleto,
pai do Lula e do Silvinha, primos da
'Nal' Marinalva Bandeira, da Paz 'Paizinha'
e da Glória 'Glorinha' de Queiroz,
ali na lateral da matriz do apóstolo São Pedro.
Onde a gente rezava a novena de mãe Claudina 'Culodina',
que pitava seu aceso cachimbo de fumo de rolo,
que espantava o medo de dar à luz a vida varzeana,
nossa senhora do bom parto!
onde a Carminha vem ajudar a cortar o umbigo
e a fazer a criança chorar,
dando vivas ao novo mundo,
fora do útero, materno peito,
magnífico colostro, leite e saúde!
onde tomo banho de rio, a título de sadia recreação,
onde a gente lava a alma sem medo de ser feliz,
sem pressa a comer pipocas e paçoca de pilão,
de carne de sol, farofa d'água e cebola roxa,
feito um príncipe, um menino varzeano, um cabra bom
que não tem receio da rotina, nem dorme no ponto,
nem dá ponto sem nó, desde que não lhe pisem no calo.
onde encontro solução para os problemas da lida,
sob as preces do reverendo padre Armando de Paiva.
desfrutando da simplicidade de um mundo
admiravelmente único: um 'varzeão' que me dá orgulho,
de verdade, onde tenho um punhado de amigos de verdade,
sinceros, sem cera, os quais carrego comigo
no fundo do peito, do lado esquerdo do peito.
dentro do meu dia-a-dia, dentro do meu coração.

Texto do escritor João Maria Ludugero
(23/12/2008)

ISTO É VÁRZEA - 50 ANOS DE AMOR E DE ESPERANÇAS, DE TAPIOCAS, BEIJUS, SEQUILHOS E GRUDES DE GOMA COM COCO, DENTRE OUTRAS IGUARIAS SEM PAR!

ISTO É VÁRZEA - 50 ANOS DE AMOR E DE ESPERANÇAS,
DE TAPIOCAS, BEIJUS, SEQUILHOS E GRUDES DE GOMA COM COCO,
DENTRE OUTRAS IGUARIAS SEM PAR!

Autor: João Maria Ludugero.

Como é bom viajar para lá, sair de férias, curtir toda simplicidade daquele lugar. É gratificante andar pelas ruas, pelas calçadas, pelos becos da minha Várzea. É bom demais da conta acordar bem cedo, sair aos domingos e parar pelas barraquinhas da feira-livre e sentir o gostinho bem varzeano que essas guloseimas portam em si. Melhor ainda quando se está em companhia das melhores, entre irmãos, amigos de infância e outros entes queridos que fazem todos os desejos do filho visitante que retornou à sua Várzea para matar um pouco das saudades!
Sinto-me, deveras um príncipe em seu reinado.

Assim como eu sou um bom observador, e a cada dobra do caminho, a cada rua de paralelepípedos bem delineados na rua da pedra, cada coisa que muda de cenário, ali encontro bem diante de mim, um mundo que é só meu, o meu mundo! São nas pequenas coisas do mundo de ontem, do tempo do sempre, assim como havia guardado na memória desde minha infância, são nestas pequenas ocorrências que reencontro a minha Várzea das Acáciasl e fico bastante feliz ao sentir que ainda está intacta! E eu gosto dela assim, com todas as suas nuanças de simplicidade, de vida simples, sem muitas frescuras de cidade grande. Várzea é assim e eu gosto dela do jeito que é, incondicionalmente, sem tirar nem por, com toda modéstia.

A boa gente varzeana, tão hospitaleira, consegue sorrir apesar de todos os pesares, consegue mostrar cortesia ao visitante de passagem, e também aos filhos que ali retornam para matar as saudades. Essa gente que está sempre se preocupando em fazer o melhor para agradar a todos.

"- Meu filho, deixa eu fazer uma tapioca fresquinha, essa aqui já tem mais de hora... " E com um enorme sorriso nos lábios, a saudosa Dona Zidora misturava a goma com sal e água e acenava para Piedade ir buscar um coco ralado, ingrediente que dará um sabor todo especial a saborosa 'panqueca de origem indígena' que existe no nordeste e já tomou conta do país inteiro, aqui mesmo em Brasília, capital da República, dispomos de várias tapiocarias, mas igual à tapioca varzeana não dá nem mesmo para se cogitar uma coisa dessas. A tapioca à varzeana não tem similar. É mesmo um manjar dos deuses!

A simplicidade e a essência da legitima cultura do varzeano é, sem sombra de dúvida, um destes intactos cartões postais potiguares que com certeza se tornam cada vez mais raros! E não é puxando a sardinha para o meu lado, mas é muito difícil alguém conhecer Várzea e não se apaixonar por aquele lugar. Foi uma vez, vai querer visitá-la sempre. Quer tirar a prova, visite a minha Várzea das Acácias! Ao vivenciar uma experiência como esta, meu coração fica cheio de gratidão e minhas preces sobem ao Supremo Pai do Universo pleiteando o bem estar desta gente tão boa e hospitaleira, minha gente varzeana!

Essa gente conta consigo mesma a cada dia que Deus dá. E Deus dará... é bonito de se ver, é lindo ver o espírito empreendedor do varzeano. Trabalham com paciência de Jó e nunca perdem a esperança, pois esta se renova quase sempre... Lembro-me do magote de meninos, inclusive eu, Picica e o Abimael, desde meninos, vendendo pastéis, pirulitos, doces de banana, goiabada, cocadas e dindin (aquele geladinho com gosto de frutas). Lembro-me, também, das mocinhas vendendo artesanato de sua própria fabricação, Maninho no seu bar fritando peixes e aves, senhoras idosas ainda fazendo tapioca ou até mesmo rendas e Dona Das Neves com seu fuxicos coloridos; dentre outras mães esperando as crianças chegarem da escola,para saírem vendendo pirulitos caseiros ou tijolinhos de doce de leite e doce de banana, ali mesmo na rua do Cruzeiro, defronte à Escola Dom Joaquim de Almeida. E a gente fazia esse "trabalho" com alegria, sem reclamar da vida, pois a gente era feliz e bem sabia disso.

Várzea tem um pouco de tudo e de tudo um pouco. É gostoso passear na feira de domingo, comprar redes, doces de cajus e castanhas, queijos de coalho, manteiga de garrafa, picadinhos de carne de porco, sarapatel, mocotó, buchada de cabrito. Garajaus de rapaduras, de peixes e outros pescados, compotas das mais variadas frutas, frutas dos mais variados sabores.

Minha Várzea é um mundo encantado e especial que em si comporta um universo mais complexo do que se pode imaginar... Sabores da minha Várzea que torço para que tão logo não deixem de existir... Sabores da minha Várzea, da minha terra potiguar, do meu amado Rio Grande do Norte, que devem ser incentivados a existir para sempre!!!

É demais gratificante rever e aprender com os valores da terrinha. Espero que os varzeanos honrem seus costumes, e respeitem essa economia espontânea e esses empreendimentos tão ricos, tão modestos. Espero que neste novo milênio de globalização, ainda exista espaço para as pacatas barraquinhas de tapioca da feira, broas de goma, quitutes e outras iguarias varzeanas... E mais ainda, espero que aquela boa gente continue a sorrir e se preocupar em fazer uma tapioca fresquinha para si, para suas famílias, para sua freguesia visitante, por muito e muito tempo. E que viva o povo varzeano. Viva a minha Cidade da Cultura, Viva a minha Várzea das Acácias, a terra da Felicidade!

VÁRZEA, PARA TE AMAR, NÃO PRECISO DE RIMA!
Autor: Ludugero, 29/07/2009.
.
A poesia sem rima
É poesia do mesmo jeito,
Tem sentir, tem sentido...Eu sinto!
É como o sol que clareia mentes
Dando calor e cor aos ambientes,
É um açude tipo o Calango cheio,
Com sua água que parece verde...
.
É jardim que tem flor de todo tipo,
Flores de fedegoso, de muçambê, canapu
De diferentes estirpes, silvestres ou não!
É namoro com paixão, flor do Maracujá!
É coração cheio de amor agreste,
A se derramar pelas estradas de chão do Trapiá,
Sem precisar de alegoria nenhuma,
Sem carecer de rima
É doce de caju, é doce de goiaba,
É doce de leite, é licor de jenipapo,
É como cabrito novo a pastar na Vargem
Aprendendo a dar pinote, sem jeito,
É casinha branca simples, caiada,
Com água fria no pote, na moringa.
.
Pode a poesia não ter nem a métrica
Nem a rima, pode parecer dia ou noite,
Mas sempre haverá estrelas lá em cima;
O poeta é feito um cantador de viola,
Artista e obra-prima... É Cícero-Cego e sua sanfona!
São versos pirilampos que alumiam a alma da gente,
Mesmo se o poema não tem rima!
É como o rio Joca e um cardume de piabas afoitas
Numa alegria só solta na flor das águas tão límpidas!
.
A poesia tem perfume, tem Vapor e vertentes Amores...
Pode nela faltar rima, mas luz nem carece trazer,
Já viu faltar pisca-pisca na bunda do vaga-lume?
.
A poesia sem rima é poesia do mesmo jeito,
É milho no mesmo sabugo das letras.
É filho que traz sua mãe ao peito, nunca bastardo,
É a mãe que nunca perde o filho, nem mesmo crescido,
É uma jóia de valor, diamante de intenso brilho.
.
A poesia sem rima pode ser assim riacho de mel,
É castanha de caju, é uma bacia de mangas.
É como fazer a farinhada, repleta de tapioca e beiju.
.
Sem a métrica e sem a rima
A poesia assim mesmo se presta ao que SINTO.
Pois não falta o encanto, o cantar
Dos sabiás lá do seu Tida.
Não falta o romantismo das noites enluaradas
Da minha amada Cidade da Cultura,
Minha Várzea das Acácias!
.
A poesia sem rima
É bodega de cachaça, é o Bar do Beto ou do Maninho,
É o a conversa fiada lá na Praça do Encontro,
É a Semana Santa com peixe distribuído de graça,
É a oração de São Pedro, é a missa de Domingo,
É o incenso, o turíbulo e a fumaça.
.
A poesia sem rima
É um pássaro e o seu ninho
É um canário em seu chão!
Pode também ser a mais dura saudade,
Assim como a que agora SINTO,
Saudade da gota serena, a que SINTO da minha Várzea,
Pois sou mais um João longe da sua casa.
Assim sou feito espelho sem reflexo,
Sou um quadro que tem a sua feitura
Na moldura dos meus versos,
Mesmo que não tragam rima!
.
O que importa é o que eu SINTO:
Eu amo muito esta cidade que me dá felicidade,
Todos os dias em que escrevo meus poemas para ti,
É mesmo Amor em palavras o que SINTO
Em forma de coração, que é o molde da poesia!

MERCADINHO PÚBLICO VARZEANO: DIA DE DOMINGO

Era dia de domingo, dia de feira.
Dia das compras, de farinhas e de macaxeiras.
Acordávamos ainda cedo e já partíamos
para as barraquinhas, as bancas da feira, livre.
Íamos eu, meu pai Odilon e a minha mãe Maria.

Era gostoso acordar cedinho, ir ao mercadinho, no centro
Já no caminho, ali na Rua Dom Joaquim de Almeida,
a gente dava de caras com o João Carlinhos de Dona Genira,
Com a sua banca de novidades, frutas e legumes de primeira,
próximo à rua do Cruzeiro, esquina com a rua das pedras,
comprávamos balaios de feijão de corda, feijão verde, debulhado,
Favas, camarão seco e siri, farinha torrada, goma e polvilho.

E vinha gente do todo lugar, das cidades vizinhas,
das redondezas, e tinha até cordel, literatura,
que a gente gostava de ler, passatempo e refrescos.
Além das tantas outras cordas que a gente empunhava:
cordas de caranguejo goiamum, crustáceo azulado,
semelhante ao caranguejo, mas de paladar muito agradável.

Recordo do 'Picica de Xinene' que já cortava as mantas de carne-de-sol,
Auxiliando seu pai, Cícero Paulino, exímio marchante, cabra bom!
Tica do Mel vendia queijo de coalho, assado na grelha, que delícia!
Enquanto isso, Tota de seu Leopoldo atirava sal nas carnes-secas,
ao jirau, no açougue. Cestas e mais cestos,
couros, salmouras e charques, na rua do curtume.
No varal, almas esticadas sob o sol a pino.

Lá se vendia rolinha frita e nhambu, iscas e 'passarinhas',
além de galinha caipira com farofa e cerveja, geladinha
lá no bar do Eduardo, Maninho. Quem não se lembra?

Ah, tinha caçuás, uma espécie de cestos grandes e oblongos,
mais compridos do que largos, ovais, alongado e longos,
feitos de vime, cipós ou de lascas de bambu, com aselhas,
para pendurar às cangalhas e que é utilizado
no transporte de gêneros alimentícios,
para levar galinhas e outras aves ao mercado,
além de garajaus para transportar peixe seco e rapaduras.

Tinha fumo de rolo, tabaco em pó, rapé e espirros. Atchim!!!
E tantas outras bugigangas, anis-estrelado, cravo, canela e alecrim, etc.
Afinal era dia de feira, dia de domingo, pé de cachimbo...
Céu azul de anil, com cheiro de coisas simples, céu varzeano.
Uma cidade, uma saudade que bate na gente... e dói no peito
e não se acaba o mundo, touro valente!

Dia de domingo, dia de feira, tempo de 'Terezinha
do Couro', de sandálias Havaianas, cuscuz, tapiocas e pé no chão,
retratos de um tempo, que perdura até os dias de hoje.
Tempo de lambe-lambes, réstias de cebolas e alhos.

Ah, antes que eu me esqueça,
o mercadinho do passado ficou lá,
lá no passado mesmo, demolido.
Porque tornava feio o centro da cidade.

AUTOR: JOÃO MARIA LUDUGERO
(Em 15/12/2008).

sábado, 20 de março de 2010

DE QUINA PRA VIDA...

AUTOR: JOÃO MARIA LUDUGERO.

Aos magotes, meninos correm
pela Vargem a dentro, vida a fora
Alheios ao destino, seguem
margeando o sonho de sonhar,
percorrendo o caminho dos catolés
que leva ao rio Joca.

Pelo bueiro da estradinha de terra
Que nos conduz ao sítio de Zé Canindé,
A água se esvai além dos juncos e do capim.
E o sol a pino queima a pele do moleque,
Mas não evapora o sorriso do menino.

E os pés de moleque, inquietos, destemidos,
um após outro, correm ligeiros, lúcidos.
Até parece que têm sebo nas canelas,em desatino,
Serelepes meninos bons de bola.

Meu futebol de Várzea não segue a regra,
Minha pelada de pés descalços, contenta
Afoitos meninos que esperam alcançar o céu,
Agarrar estrelas, chutar a gol, com êxito,
E fazer da esperança um golaço, com garra,
Bem ali no meu Varzeão, na minha vargem,
mesmo que seja com bola de meia.

Com os pés na areia, de coração acelerado,
bem que sonham alcançar a lua, de súbito.
A lua, esta esfera bola branca na tarde amena,
é ocular testemunha do sonho acordado.

Corre o menino varzeano, traquinas,
feito tiro certeiro, vargem afora!
pé de moleque, se é doce eu não sei,
mas é arteiro, teimoso e ainda insiste
Por querer ser feliz!

Vai que vai e apronta a tua sina, ensina-me,
Ao tirar os pés do chão e teima, movido de amores,
Dribla a sorte, vai que ela é tua, persista
E acerte um gol pra lua.
Eu acredito nisso, boto fé
e não deixo a vida ao mero escanteio!
De quina pra vida, menino, não desista nunca
e marque de vez o gol da vitória!

BUCHADA DE BODE À VARZEANA

Autor: João Maria Ludugero da Silva.

Era dia de Domingo. Ainda era cedo, mas já se tornara rotineiro, na casa da Dona Zidora, Suetônio acender o forno de barro do quintal, utilizando quengas de coco e sabugos de milho. E a Dona Maria Calixto ajudava a socar a mandioca-mole no enorme pilão. Um cheiro de erva-doce, de melado de cana-de-açúcar e cravo tomavam conta do ar, parecia até que aquele aroma exalava um cheiro bom perfumando toda a rua José Lúcio Ribeiro. A gente podia sentir o aroma a quilômetros dali. Que cheirinho bom! Boas lembranças..

Não longe dali, Seu Pedro Calixto, Seu Pedro Izabel e Quequeca de Oneide, pai de Vânia, já esquartejavam e limpavam o bode pendurado pelos pés. Com uma lâmina afiada, o couro do animal era todo retirado, com enorme precisão cirúrgica e as vísceras jogadas numa bacia de zinco, onde seriam limpas e aferventadas. Bucho já tratado, a partir daí eram os miúdos utilizados para preparar a famosa iguaria: a buchada. Qual a receita?

Xinene Paulino, Mãe de Antonio (Picica) e Lucineide (Piu), ajudava a preparar e costurar os buchos com miúdos e temperos. Enquanto Seu Cícero Paulino, marchante de mão-cheia, degustava uma "passarinha" frita e um bom gole de conhaque Drehar.

Sob a mesa da cozinha ficavam fígados, tripas, bofes, coração, buchos e até os pés do animal, além de linha e agulha. Primeiro se misturavam os miúdos. Acrescentavam-se tantos temperos, tomate, pimentão, cebola, coentro, sal, colorau, vinagre, alho e pimentas de cheiro.

Depois, era só deixar descansar. O acabamento era requintado e demorado.
Dona Wilma Anacleto e Darquinha também chegavam para dar uma mãozinha na feliz receita.

Exigia habilidades manuais e até um jeitinho de estilista para dar forma aos buchinhos, mas nada que Dona Maria de Seu Odilon não soubesse a respeito. Na linha ela dava até duas voltas para ficar resistente e usava as de cor clara para não chamar atenção. Para costurar cada bolinha não demorava muito. Aí entravam Lúcia, Aldenira e Neuma de Seu Odilon ajudavam nesse trabalho, que parecia fácil. Bordas costuradas, o resultado era uma delícia recheada e suculenta. E que buchada!

Francisco, Dedé e Carlinhos de Seu Odilon traziam muitos amigos para uma prosa lá de casa. E quase todos saíam dali com água na boca, ou de barriga cheia. O cheiro da buchada era uma coisa de louco, atiça o paladar e faz bem ao corpo e ao espírito. Comida também é cultura. E para esses cheiros tenho bom olfato, tanto assim que guardei toda essa feitura para lhes aqui oferecer. Que sejam todos bem servidos! E viva a boa comida varzeana!

Lembro-me que Dona Marica de Seu Otávio aconselhava um grande segredo, o de não esquecer de aproveitar os pés do bode limpinhos, tratados (que soltam a gordura que dá um gostinho especial).
Panela tampada, agora, era levada ao fogo, por cerca de uma hora e meia, e depois estava pronta a buchada. Se preparada de véspera, melhor ainda.

Enquanto a gente podia degustar as delícias da gastronomia varzeana, acompanhados de um bom copo de cachaça da terra, ou "Pitú", ou de uma cerveja estupidamente gelada, podia-se ouvir Cícero Cego, sanfoneiro de respeito, a ensaiar uma nova composição no toque de sua sanfona. Ninguém ficava parado. Lembro-me que até o "Nhôr" Belo ensaiava uns passos de dança, e Lúcia de Dona Carmosina e Cleone "forrozeavam" bonito, pisando macio no compasso de um forró danado de bom.

Eta, sanfoneiro porreta esse Cícero Cego, que fazia a sanfona quase falar, num toque de não deixar ninguém parado. Mas que forró mágico aquele, e quanto remolejo que faz a gente recordar, mesmo que seja na dança do tempo, a gente se divertia, não precisava de data, ia chegando, como num passe de mágica, de muitas brincadeiras, e sempre fazendo da vida uma festa.

Quer ingrediente melhor que a alegria daquela gente?
Que povo abençoado é o povo varzeano!
Bendito seja o nosso povo. Bendito o seja sempre.
Que Deus proteja a todos, sem distinção.

sexta-feira, 19 de março de 2010

"DES-MUNICIA-MENTO"

Autor: João Maria Ludugero.

Eu disparo palavras de carinho,
Feito uma clavina ou clavinote,
mas sem nenhuma munição, sem pólvora
Eu miro tua retina, desarmado, sem balas.
Eu atiro setas a indicar o caminho, o alvo
Eu acerto teu coração, na mosca, num pinote,
E,para isso,não preciso de chumbo ou espingarda.

Eu converso, eu faço poesia, eu faço versos.
Eu acordo no meio da noite pensativo.
Digo acordo no modo de falar,não me abalo,
Pois passo a noite em claro, a piscar
Sob o sol do teu olhar, dois sóis,
Sem pregar a pestana, eu insisto,
A chorar de contente, eu pelejo,
Eu continuo a teimar, sem queixas.
Sabia que homem também chora?

Sem disfarçar, como gosto de falar
Eu descubro caminhos desconhecidos,
Finco minha bandeira de sonhos, de amores,
de bobeiras e outras coisas mais.
E ainda assim a gente concorda
Em ir lá pra ver o que será,
Por não achar sonho besteira.

Só pra ti, menina-moça faceira,
Por tudo isso é que venho aqui
Afoito a crescer, por tua causa,
Só pra te entregar de bandeja meu coração.

Já sei que és a dona dos meus olhos,
Por isso rogo a Santa Luzia, é claro,
Que proteja minha visão dia e noite,
Que sejas minha Salomé e eu, são João Baptista,
Que dances para mim, astuta odalisca,
Já não me assusta perder a cabeça!

Quero te dar todo meu Amor e carinho,
com raça, com força e determinação.
Chega de rusgas e ressentimentos,
Chega de me atirar no obscuro, quero me declarar.
Quero descambar no teu abraço, beijar tua boca
E morrer de paixão, minha flor do maracujá,
Entregando-te veias, capilares e coração.
Pouco importaria viver
senão fosse pra morrer de amor!

Tudo em razão de teres me mostrado, de fato,
Com todas as letras, com todas as palavras,
o que é viver a vida de verdade,desmuniciado.
Viver mais e melhor, a um passo
do paraíso do teu nome, sem desatino,
que une versos em poesia,
sem pecado nem juízo.

Tu que me conduzes ao retiro de seu Olival,
Onde mergulho em águas límpidas, cristalinas.
Tu que és da minha Várzea, meu aconchego,
Tu que és a flor da minha Cidade da Cultura e da simplicidade,
Terra tão repleta de Marias,tão cheia de graças!

SUPRASSUMO

AUTOR: JOÃO MARIA LUDUGERO.

Eu permaneço mudo, silencioso,
Envaidecido, a contento, me entrego.
Desbravo teus ariscos caminhos, afoito.
Quiçá na tua boca de beijar me encaixo.
É na tua boca de garapa
que eu me acho, meu riacho do mel.

Eu me perco no céu da tua boca...
Ainda que distante, eu me encontro,
Eu faço a felicidade toda desabar em nós,
Eu me aprumo ao falar tua língua, que grita,
Meus versos ficam mais ricos,
Afastam a ânsia oculta,
Entro em equilíbrio e harmonia.

E é contigo que aprendo a oração
Dos que não sabem rezar,
Dos que só sabem esperar
Dos que só sabem sentir,
Apesar das quebradas rimas.


E assim sigo vivendo, bem aventurado,
Beijando a tua boca que me anima
Doce como água com açúcar,
Pois engenhosa é a tua boca de melaço,
Boca que não me arripuna nem satura.
Macia carne de caju,
Polpa de manga rosa.
Juro que tens o néctar dos deuses,
Dona do suprassumo
Que não provoca gastura
Nem outras coisas insanas.

Boca cheia de se dar, de se doar.
Boca que dá gosto e vivo sabor à vida, dádiva.
Boca que não manga do meu salivar, que me atura
Boca que não me enjoa nunca, nem pudera,
Nem mesmo ao me ouvir falar
de algo que pareça loucura!

quinta-feira, 18 de março de 2010

VÁRZEA, MINHA TERRA, MEU AMOR À PRIMEIRA VISTA

Autor: João Maria Ludugero.

Eu estou a divagar
com meus pensamentos
Eu viajo em minhas lembranças,
Eu observo o mormaço, o vapor vital
Que convida todos os varzeanos
a viver a vida, a bem se envolver, nunca vazios,
de corpo e alma, com toda força, intensamente.

A se saciar em seus fartos peitos de mãe gentil.
Meu riacho do mel, minha terra prometida,
Minha amada cidade da felicidade,
Minha Várzea, meu amor à primeira vista
meu recanto da simplicidade,
Minha mina d'água doce,
Meu arisco, meu rio Joca
Minha doce cacimba cavada no coração
que fertiliza nossos sonhos acordados.

Minha terra de Otacília Marreiros,
Nossa inesquecível 'Cila'.
Terra de Bita Mulato Anacleto
Bendita terra de São Pedro apóstolo
Nesse lugar enterrei meu umbigo
E dele se apoderou meu coração,
Minha flor da paixão, meu maracujá em flor,
Minha Várzea movida de amor, a todo vapor!

quarta-feira, 17 de março de 2010

JOÃO MARIA, ETERNO APRENDIZ DE POETA

JOÃO MARIA, ETERNO APRENDIZ DE POETA
(Eu não queria ser Vereador ou Prefeito, eu queria mesmo era ser escritor).

Acho mesmo é que já nasci com a alma de poeta. Várzea era ainda uma cidade pura, sem as nódoas da falsa civilização, poeira dourada dos grandes centros, que tanta sedução empresta às flores do vício. Assim mesmo, ainda menino, comecei a brincar com as palavras, despreocupado com rima ou métrica, Várzea não me deu trena para medir os meus versos. Justiça dizê-lo, deu-me guarnição e em mim acendeu esse modo de ver a vida não como um deserto, mas como um oásis no meio do deserto. Eu sempre tive sede de ler e escrever. E não adianta muito fugir disso, as idéias brotam, insistem, persistem e proliferam. E, dá no que dá: a gente acaba nesse querer-ser-poeta, que não acaba mais...

Entretanto, continuo crendo que, nos dias correntes, minha alma de poeta nunca me faltou. Eu sempre vivi, vivo e revivo a vida apreciando a força de algo que me dá compasso, uma força estranha, porém sólida o bastante para levar a beleza aonde quer que eu vá, à altura da minha fé apurada, tudo se encaminhando de melhor a melhor, para gáudio íntimo desse varzeano.

Sou um aprendiz de poeta ou seria um poeta-aprendiz? Só sei que gosto de percorrer os lugares e sempre retiro o que há de belo neles, acho que é porque já levo comigo a beleza.

Já dizia o filósofo Emerson: "Se não levarmos a poesia e a beleza conosco, é inútil percorrermos o mundo.
Em nenhum lugar as encontraremos."

Não sei porque gosto do simples e das poucas coisas que eu crio, mas faço a minha existência a partir das coisas simples, renunciando a tudo que me prenda de ter vontade própria, gosto de repassar aos outros minhas idéias, não as acumulando, mas dividindo as coisas boas da vida. Não pratico o mal a nada nem a ninguém.

Desde a infância tenho um desejo contido de triunfar na vida, uma visão que conserva em mim a fé e o credo, como bom potiguar, um varzeano que trouxe do berço a certeza de que a cornucópia da felicidade é possível.

Deus rege a minha indomável vontade de chegar lá, lá aonde só chegam os vencedores. Creio que a riqueza, a fortuna não depende somente do trabalho, pois, se assim fosse, burro jumento seria milionário. Além de ter uma atividade com equilíbrio, segurança, faz-se necessário uma oportunidade. Sabê-la aproveitar e segurá-la com afinco e dedicação, aí está o segredo.

Olha aqui, eu fui vendedor de água-benta, nas missas e procissões de Frei Damião, quando da sua passagem pela cidade. Fui marcador de jogos de sinuca no Salão de Seu Otávio, nos dias de domingo, o que me rendia algum dinheiro para comprar material escolar. Tive as mãos calejadas ao trabalhar, ainda menino, nas frentes de emergência com o Seu Antonio Facão. Ali ganhei um dinheirinho que deu para comprar a minha primeira calça jeans (U.S.T.O.P.).
Eu fui servidor na Biblioteca Municipal Ângelo Bezerra. Era uma raridade aparecer alguém por lá para pegar emprestado algum livro ou até para fazer uma leitura. Eu, sem muito ter o que fazer, não fiquei a tirar a poeira das obras ali existentes, mas fiz uma aposta comigo mesmo: ler toda a biblioteca que estava aos meus pés, digo, à minha frente. Ali muito aprendi, viajei pelo mundo, sem tirar os pés de Várzea.

Eu fui Professor de matemática na Escola D. Joaquim de Almeida (substituí o prof. Antonio Cândido, que se afastara). Além de gostar de matemática, ao lecionar naquele estabelecimento, mais do que alunos eu ganhei amigos. Aliás, ao ensinar muito mais aprendi. Foi uma grande experiência.

Ao ser criada a Agência do Banco Econômico S.A. - Agência 421 - Várzea/RN, nela ingressei mediante concurso, tendo gabaritado toda prova (1º lugar). A vaga era minha. Trabalhei por algum tempo. Ali senti que não era o que eu queria, ficar contando o dinheiro dos outros, atrás de uma mesa, era um serviço que não me empolgava. Larguei tudo e parti para Brasília, com o coração partido.

Hoje sou Advogado em Brasília-DF (OAB-13231). E quem foi que disse que eu parei? Continuo estudando...

Um antigo ditado diz que a fortuna procura os seus. Mas para ser rico não é preciso fazer pacto com o diabo. Nada disso. Eu nasci predestinado para ser João Maria Ludugero da Silva. E quem sou eu? Sou um dos homens mais ricos do mundo. Considero-me um vencedor aos moldes que Deus me deu. Quem foi que disse que não sou rico? Tenho certeza disso, pois tenho saúde suficiente para continuar minha luta, a cavar a minha mina de felicidade.
Não preciso de muito dinheiro não, minha maior herança, a que eu trouxe do berço, que meu pai Odilon me deu é a honestidade, além de toda a minha fé e retidão de caráter. Não poderia ter sido diferente. Teria que vencer.

Oxalá, Deus me inspire para eu poder ainda fazer muito na vida. Estou em Brasília e, apesar de entre mim e Várzea passar esse rio da distância, mesmo assim, não me separei desse abençoado torrão, estou na outra margem, continuo a pensar no seu povo e ainda quero muito contribuir para o erguimento cultural de Várzea. Sei que a gente está aqui de passagem, pois o homem desaparece, mas a sua obra e o seu nome falam mais alto do que os feitos de ascendência pessoal.

Não tenho a pretensão de ser dono de nada, dominar o mundo, não quero isso não, o que desejo é que todas as pessoas vivam com dignidade e vivam bem, respeitando até mesmo a mais humilde existência. Porque a gente nasce para o que é: ser feliz, seja aonde for e do jeito que for, porque a riqueza não está na força do dinheiro, está sim na força da vontade, do querer experienciar, do ser triunfante em sua passagem pelo planeta.

De mãos postas, agradeço a Deus por ter me premiado com a maior das fortunas: meu par de filhos, Igor e Jordana, razão maior do meu viver, que me enchem o lar de venturas.

Sou um ser venturoso, não tenho do que relamar. Quando se chega aos 45 anos, após ter passado por forças adversas e muito fardo pesado, aprendi a ter mais serenidade, em ritmo de razão.

Sem nenhuma soberba, hoje eu posso dizer que cheguei ao átrio do Nirvana, qual um bonzo indo entender-se com Buda. Sem ilusões e ambições, bendigo a dotação que Deus me deu, por ver-me satisfeito, de bem com a vida, como agora, vivendo e revivendo tudo que amei e amo na vida. Obrigado, Deus, pela Mocidade de meus 45 anos! Mocidade com letra maiúscula. A Luz do Supremo Arquiteto me parece lisonjeira e eu vivo e revivo, recordo e acordo cheio de juventude, sem consultar a certidão de idade.

Feliz Cidade de Várzea!
Feliz Cidadão varzeano, João Maria Ludugero da Silva.
Que nunca quis ser vereador nem prefeito, apenas tem orgulho de ser varzeano.
Apenas tem orgulho de ser filho de Seu Odilon e dona Maria Dalva.
Quer maior riqueza? Quer felicidade maior? Seria impossível não ser feliz.
Portanto, proclamo: Eu sou o homem mais feliz do mundo! Anotem isso aí.

Brasília, Capital da República, 14 de novembro de 2008.

SE ACASO EU MORRER DO CORAÇÃO...

Autor: JOÃO MARIA LUDUGERO DA SILVA (17/11/2008)


Se acaso eu morrer do coração...

Ame como se ninguém nunca o houvesse feito sofrer.
Porque amar é algo assim como acordar e ouvir o canto dos passarinhos.
Sem se desencantar com o ritmo do encanto
De quem só saberia dançar tão devagar.
Achar-se sem se perder, nem que seja na caça de um beijo,
Que pode (ou não) dar mais sabor ao amargo da vida.
Sentir-se meio que perdido na casa-abrigo da solidão,
Mas faz bem ao corpo a entrega verde do espinho
Causa dor, mas cicatriza depois de dias de sol.
Seria o amor, uma ferida ou um curativo?
O Amor é o que nos faz arder no fogo da dor,
Somente para expiar nossas culpas e jurar que nunca mais vamos de novo amar.
E num piscar de olhos, aparece alguém-desejo
Que nos faz de novo se lambuzar de mel...
E chorando os ferrões da alma, abelha e zangão
De novo, não! Ah, por que não de novo?
Acho que sim, pois precisamos de asas
E de algo que nos faça de novo quebrar o gelo
E voar, assim com a leveza de uma asa-delta,
Num céu varzeano de setembro ou de outubro, ou seja lá em que mês for.
E, do velho amor, aquele esquecido num recanto do coração
Ou até mesmo perdido dentro de um livro ou num bilhete de papel de pão,
Renasce a poesia daqueles dias que ficaram guardados em papel de balas
Quiçá, a esvoaçar no esquecimento da rua do Educandário Pe. João Maria
Ou seria embaixo do jasmineiro da Escola Dom Joaquim de Almeida?
Será que amar é sempre recomeçar depois das feridas da alma e da vida?
Papel passado, poesia lida, sonho perdido num feriado.
Vamos de novo sofrer e se queimar como se nunca tivéssemos amado?
Eu quero esse incêndio, eu quero essa dor, eu quero sempre
De novo amor de novo amar, repetidamente, eu te amo, Várzea!
Pouco importa se a flor vai novamente perder a cor.
Desbotada a vida pode até ficar, mas prostrada, não!
Amar vale a pena, apesar de se estar de novo
No palco, sonhador e eteno aprendiz de poeta.
Logo, amar faz bem-estar bem,
Amar traz sofrimento e gozo à fera-vida.
Melhor amar que viver a vegetar sonhos, sem nada crescer.
De frente para o mar, a ver navios! Que nada!
Vale a pena sofrer, vale a pena recordar...
Vale a pena se ver de novo de novo amor (de novo!)
Mexa-se. Morda-se. Ame-se. Sofra-se. Colora-se!
Sinta-se, pois é isso que se leva da vida.
Dane-se o que não tem Amor!
Cure-se, amando de novo. É gostoso demais atear fogo no peito
Só para não ver a vida passar em vão.
Em branco, não! Dê adeus ao desamor, viva!
Mas se eu morrer, você saberá: Foi do coração, com certeza.
E daí? Qual o motivo? Não quero nem saber!!!
Não precisa explicar, nem chorar... Hoje eu quero mais é viver!
Se eu morrer, foi de Amar, foi de Amor... Eu te amo, Várzea!
Portanto, arquive-se o E-le-t-r-o-c-a-r-d-i-o-g-r-a-m-a!


Texto de João Maria Ludugero para o VNT Online em 18/11/2008.

ANUNCIAÇÃO (BEBÊ A BORDO)

Autor: João Ludugero.
(Para o(a) filho(a) do Amigo Cleber Pereira Lobo)

A felicidade bateu na porta
O tempo fechado se descortinou
abriu-se um feixe de luz verde bala soft
além do sonho e da fantasia,
Além da utopia veio a realidade incandescente

e você está pra chegar, meu rebento.
Uma nova aurora raiou, amanheceu
acordei viçoso girassol
jorrando luz real aos quatro cantos
desde já antevejo seu sorriso
que mais parece música nata
na terra, no ar, no espaço

Estou eufórico, contente
a me embalar, a me ninar
Só por causa de você
que está para chegar
serás meu céu a me dar chão,
Que sejas menino ou menina
que venhas dar mais cor
ao nosso mundo

Estou feito pássaro feliz,
coruja no ninho
meu passarinho,
me traga a chuva
me faça o verão, minha andorinha

Sua melodia já surge
em meio a flores
que sorriem em qualquer estação
Já virei a página do outono,
as folhas caídas

E o inverno passou
agora não mais sinto frio,
tua chama nos acendeu
perene candeia
és tal qual um enorme violoncelo
de amor, vida e música no ar

somos agora mais
que duas vidas:
três em uma!
És um girassol
a nos guiar à luz do sol
e nos encher de toda graça e alegria
iluminando a nossa casa
lá no Ville de Montagne

você está chegando
em nós para ficar
Bendito filho meu!
Bendita filha minha!
Sejam bem-vindos!
A nossa casa é toda sua!

João Ludugero, em 30/01/2009.

MEU LEGADO

Autor: João Maria Ludugero.


Eu João Maria Ludugero da Silva, escritor varzeano,
quero deixar para meus amados filhos,
Igor Gabriel e Jordana Majella Ludugero dos Santos,
o exemplo de ser humano gentil e alegre,
determinado e otimista, cuja vida se torna,
a cada dia, a forma visível do meu sonho.
Não quero mais que isso: ser um homem simples.
Alguém que gosta de lugares simples assim como Várzea,
de pessoas, comidas e hábitos simples,
de sentimentos simples, mas firmes,
nunca mornos, porém nobres.

Eu sou alguém que observa os movimentos da vida
tentando traduzir, mediante o trabalho, meu sonho
de que também toda minha vida seja simples, soberana.
É essa a forma que encontro de levar a beleza para o mundo.
Como pai e amigo, quero dar o exemplo da força
de saber saborear a vida, de buscar realizar sonhos
sem perder a simplicidade, a integridade, a bússola, o norte.

Eu sou de uma terra onde o povo, além de amar a liberdade,
a simplicidade, cultiva frutas no quintal, flores no jardim,
gosta de conversas na praça e, sob o recanto do luar,
emociona-se com pequenos gestos, sejam de bravura ou
de momentos tangidos pela musicalidade dos acordes do coração,
sobretudo quando emoldurados pelos sentimentos mais nobres da alma humana.
Várzea tem muito a ver com isso. Portanto, é que estou sempre a declarar
meus sentimentos por ela. Ela que merecidamente tornou-se referência
em cultura potiguar, resultado do esforço de pessoas que amam a cidade
e insistem em preservar seus valores e a sua cultura.
Abra mais o seu coração. Preste mais atenção na sua cidade.
Valorize-a. Quem ama, cuida. Sempre que o seu coração bater,
lembre-se de sentir mais amor pela nossa Várzea.
Isso não só faz bem para você, também para as as futuras gerações.

Várzea acredita no seu potencial. Ela acredita que podemos fazer mais por ela.
O desafio está lançado. É um enorme desafio, mas, sim, é possível!
Sonha-se ali com o amanhã. Nós queremos ver o sonho varzeano sonhado a partir de agora;
desejamos que o relógio do tempo marque horas felizes,
prenúncio de um novo tempo de despertar.

Eu, como escritor, procuro eternizar nos meus textos todas aquelas pessoas
que vivem na memória de cada um de nós varzeanos,
registro quantos ali vivem/viveram e iluminam/iluminaram a nossa terra
com suas presenças amigas, seja edificando a esperança nesse chão,
desde o seu alicerce até os dias de hoje, seja elevando a nossa Várzea
a ser mais que um simples ponto no mapa do Brasil.

Consabido que a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida,
não me custa abrir um arquivo vivo para guardar toda essa gente no escaninho da memória e,
para sempre, nas páginas da vida varzeana. E o faço com enorme vontade de fazer bem feito,
homenageando todas essas pessoas pelo subido valor que representam para a cidade
e para o engrandecimento da sua história.

Sem dúvidas, este é um momento muito feliz da minha caminhada.
Momento de compromisso, mas também de celebração, pois,
ao escrever as "Memórias de um menino varzeano",
escolhi compartilhar minha vida com a história desta gente.
Por isso e tudo o mais, sinto-me lisonjeado e, por que não dizer, até orgulhoso,
por estar a contribuir com a história de vida da nossa gente.
É para mim algo muito gratificante. Acreditem. É tudo verdade.
É a minha vida no papel, é um sonho de verdade, acordado, passado a limpo,
escrito com toda a força do coração e o senso equilibrado que a cabeça me atina.

A todos os varzeanos, por tão gratas e afetuosas atenções, sou sinceramente agradecido,
como grato sou a todos aqueles que direta ou indiretamente me incentivaram
a perseverar na minha luta, nos meus ideais, e me admitiram
em seu honroso convívio, ontem e hoje. Porque, apesar de estar distante dos olhos,
aqui em Brasília, Capital da República, numa outra seara deste imenso país,
continuo no coração da minha querida cidade, Várzea, levando a sua história a todos os lugares
e demonstrando todo o meu amor e consideração pela terra fundada por Ângelo Bezerra.

Sinto-me deveras influenciado pela fé em Deus, pelo Amor e pela Esperança.
Acompanhado pela a paz interior, pela verdade, pela sinceridade, pela liberdade e pela justiça.
Hoje, como ontem, tão indispensáveis ao convívio humano.

Aprendi uma verdade:
Tudo muda: mudam as pessoas, mudam as coisas.
Tudo muda, no decorrer do tempo. É o que é!
Portanto, curta a vida, pois ela é curta demais para ser pequena!


Escritor: João Maria Ludugero
(Em 10 de dezembro de 2008).

RISOLITA, MULHER-CORAGEM, SIM, SENHORA!

RISOLITA, MULHER-CORAGEM, SIM, SENHORA!
Autor: Ludugero, 08/05/2009.
.
Eu sou poeta - nasci para ser poeta
tenho mil e uma palavras, e mais se preciso for
mesmo assim, muitas vezes, confesso
não sei por onde onde começar
tenho mil e um sonhos e uma plantação de outros
e várias vezes não sei o que se pode sonhar
tenho quimeras, ilusões, devaneios e sementes.
Eu sou poeta - disso eu tenho certeza!
Eu tenho força, desde cedo,
desde a hora em que acordo
eu tenho a alma infinda de ansiedade
eu tenho sempre mais um anseio
posso dormir nas estrelas e acordar na lua
posso fazer do sol o meu recreio
e brincar com seus raios até no meio do gado bravo
como se fossem um feixe de lenha lá dos Seixos
ou brincar com seus raios em qualquer rua lá da minha Várzea
ou lá na beira do Calango, açude de muitas lembranças.
Eu vivo a vida com todos os sentidos,
fazendo de todos um só para amar
e ter Amor pelo simples viver
e viver só por um simples olhar
e num simples olhar ver a alma engrandecer...
Eu sou poeta. Alguém duvida?
Eu não tenho dúvida!
Eu conheço uma mulher-coragem
Eu conheço esta grande mãe chamada Risolita
Eu conheço esta paraibana que veio de Araçagi
aos 20 de novembro de 1967,
para cuidar de terras neste solo potiguar.
Uma senhora naturalizada varzeana,
uma proprietária de terras do infinito da beleza
uma cidadã chamada de
Risolita Ribeiro Ferreira.
Sem ela a definição do que é belo ficaria 'viúva',
pois é uma criatura de beleza ímpar,
um espelho de exemplar grandeza
grande mãe de Rosa, da graciosa Nena,
da alegre Riselda, da bela Neta
de meiga Lena e da amiga Rosimere Queiroz.
Senhora de seriedade, braço firme e forte!
Risolita, de força indomável
grande mãe de Reginaldo (nosso 'Ré')
de Nô, do inesquecível Naldo
(que foram morar lá em Cima);
Mãe de Rosalvo "Xinxa", do Zé Hernandes e
do nosso querido 'Ramo' (Ramonilson).
Risolita, nunca é demais repetir
Não é rasgação de seda,
não é chover no molhado,
Senhora de pulso forte, de laços
de uma grande família.
Risolita, mulher-coragem, de fibra,
fogo que atenua o gelo
da dor na hora da dor,
sabendo ser doce e amável
na medida exata, sensata
a alimentar-se de tamanha fé
em São Pedro apóstolo!
Risolita, senhora de dotes e certeza
do esplendor alcançado da vitória
de estar aqui na aridez do agreste,
sem nunca ter perdido a batalha da vida!
Risolita, mãe e rainha,
do riso e da dor
que fez do coração a sua muralha, seu escudo
e tem como única arma todo o seu Amor.
Além de carregar a coragem no peito,
é dona de bondade, bravura e humildade
Senhora paraibana, mulher de verdade
Sim, senhor! Sim Senhora!
Somos testemunhas dessa realidade.
E este poeta varzeano
acaba de fazer esta mais justa homenagem
A esta grande mulher, mãe, avó e bisavó
que nos deu de presente
um Calango, um açude de muitas memórias,
Não tenho mais palavras...
Obrigado, Deus, por ter criado pessoas
feito Dona Risolita!
Justiça seja dita,
feita e ponto!

MINHA VÁRZEA, MEU AMOR

AUTOR: JOÃO MARIA LUDUGERO.


Várzea já nasceu bonita, às margens de um rio chamado Joca.
Em 20 de dezembro de 1959,
veio a e emancipação política(Lei de nº 2.586).
Grandiosa conquista:
desmembrou-se do município de Goianinha.
Tornou-se mais uma estrela no mapa do nosso valoroso Rio Grande do Norte.

Graciosa terra de Ângelo Bezerra,
de Minervino, de Genésio Coelho,
de José Anacleto e de tantos outros
que chegaram primeiro e se banharam nas águas do rio Joca.
Foi lá que meu avô José Ludugero da Silva
conheceu dona Dalila Maria da Conceição.
O lugar era aprazível - Chamaram-lhe de Várzea!
Que terra ditosa! Cheia de ternura e bênçãos!
Que amada seara, que dá doces batatas e alvas macaxeiras, além de leite e mel!

Que torrão de tanta fé verdadeira.
Acho que Várzea me ensinou a ser um Homem de muita fé!
Desde criança minha avó me ensinava a rezar
e a admirar o nosso divino São Pedro.

E eu sempre recordo da vida do domingo daquele lugar.
Belas tardes no Estádio João Aureliano
Relembro-me do sino da torre da igreja
que ouvia tocar, da armação do presépio de Natal
Da catequese das tardes dos anos da minha infância!

Lembro-me de dona Maria Orlanda de Seu Nestor,
De Dona Marina de Seu Minor e seus carneiros bem cuidados.
Da casa do Seu Walfredo, ali na esquina da Igreja
De dona Suli, mãe de Dona Wilma Anacleto a fazer seus bolos e seus quindins.
Lembro-me dos borregos do Seu Nezinho, Pai do Joca e do Quincas.
Lembro-me de tanta gente insequecível:
De Dona Risolita Ferreira, Mãe do Ramos, do Reginaldo (Ré das vaquejadas), Mãe de Rosa, mulher de Humberto de Dona Noilde, Mãe de Sônia, Galego e Paulírio Gomes e Dona Palmira, esposa de Seu Adalberto, o Homem do Arisco dos cajus e das mangas.
Lembro-me do Seu Olival e de Sua querida dona Penha, pais de Wilma, Willyane e Marcos.
Lembro-me de Seu Antonio Belo, ferreiro de mão cheia, das brasas, torquês, acendedor de fole,
Ferros e ferraduras.
Lembro-me de dona Lídia, de Seu 'Louro', das quatro bocas da rua.
Lembro-me do Seu Nenê Tomaz, Plácido em sua lucidez tão sublime,
dizendo da formosura das meninas varzeanas: "Essa menina dá um pitéu!"
Quanta sabedoria e bondade na vida dessa nossa gente.

Quantos amigos, quantas famílias, quantos filhos da Várzea,de histórias bem-vividas.

São Bitas Mulatos, Maricas de Otávio, Ninas, Tidas, Totas, Ticas, Totitas, Anas do Rego,Gabrielas, Maurícios, Antônios, Belos, Duacas, Coelhos, Rodrigues, Pereiras, Virgílios, Pedros, Ocinos, Bentos, Oneides, Jandiras, Zildas, Vilmas, Dezildas, Dalvas, Anacletos, Tomazes, Limas, Carvalhos, Florêncios, Dalilas, Beatrizes, Santinas, Ribeiros, Paulinos,Lulas, Claudinas, Carminhas, Marreiros,Conceições, Júlias, Rosas, Piedades,Palmiras, Julietas, Chicos, Graças, Carmosinas, Cíceros, Severinos, Arletes, Dores, Albanitas, Olivais, Oliveiras, Louros, Cíceros, Glórias, Manos, maninhos, Betos etc, etc, etc.
Citei apenas alguns nomes. Peço perdão, pois aqui não caberiam todos os lembrados e jamais esquecidos.Páginas vivas da História de Várzea.

Lembro-me de tanta gente, parece que passa um filme na minha cabeça,
como um magote de gente em procissão pela cidade.
São pessoas que, no seu ritmo, dão passos adaptados para realizar desde
pequenas a grandes coisas, estando a felicidade em cada passo dado,
em cada momento, em cada reza, em cada novena, não no fim, mas nos passos para se chegar lá.
Parece ser esse o segredo da felicidade humana: o passo e o ritmo, a razão e a emoção.
O objetivo: Juntos estarem a fazer a festa na cidade de São Pedro.

E a vida acordava de mansinho, meu Santo Deus, nestas doces campinas do riacho do mel!
Benditas terras do Excelentíssimo primeiro prefeito, Pasqualino Gomes Teixeira.
Benditas águas, terra e ar e céu ...
Lembre-se: a gente ama, a gente cuida!
O céu de Várzea é mais azul,
erguido de nuvens que mais parecem de algodão. Algodão doce?
O cheiro da terra é como um perfume que se evapora das flores do Maracujá, dos marmeleiros,
Das flores de algodão em flor.
Várzea, terra propícia ao cultivo do milho, feijão e mandioca.
Acorda, Várzea, e mostra em toda a natureza seu encanto!
Ali há tanta magia que pelo céu flutua,
sem nunca renegar o pão nosso de cada dia aos filhos teus.
Realmente: "...Ali, em se plantando, quase tudo dá".

O ardente coração varzeano bate suave e valente entre os coqueiros,
Ao vento da manhã de um novo tempo,
de esperanças novas, de Titos, Quincas, Mandus, Tonhas e Pepedos.

Vento que enche os pulmões de alegria, de ar puro,
na certeza de colorir a juventude que brota
desde a Escola Plácido Tomaz de Lima aos muros, ruas,casas e janelas
que acordam cheias de graciosas meninas
E corajosos meninos apanhadores de sonhos e de amores.
Várzea, doce Várzea, da força da União, do recanto do luar
Ainda mais doce é o teu matutino orvalho, tuas baladas
Tuas jovens tranças, tua juventude na praça do encontro
que reluz sem receio, sem temor pelas praças e escolas.

Hoje estou distante,
E pelos 'ais' da minha alma
dá para ouvir meu lamento (baixinho)
que passeia pelo cemitério da saudade
Lembrando de dona Maria de Seu Odilon Soldado
E de tantas outras pessoas queridas
que já partiram da Cidade de Várzea,
para morar num outro paraíso.

Quando minha voz perder-se, à noite,
Quando eu derramar a minha alma
Quero vagar em teus jardins, às margens do rio Joca
ou nas verdes campinas do Vapor varzeano,
que o coração melhor perfuma.

Açude do calango, a lavar meus pés,
em doce engano quero me banhar.
Quero derramar em ti a minha alma!
Só para lembrar de Madrinha Joaninha,
Só para lembrar da minha estrela D'alva,
Dona Maria, que no seu seio de Mãe,
que a noite embala,
eu, eterno menino deitado no seu colo,
Pulsando quente e febril com a maior ternura!
Aquele anjo querido, minha Mãe Maria,
Que a minha dor de filho ausente lhe revela.

Várzea, hoje eu morro de saudades!
E o que me nutre, na minha tristeza ainda,
De corpo e alma, por entre vasos e capilares,
É o sangue do passado e da esperança
que corre muito ávido em minhas veias
rumo a este meu imenso coração tão varzeano.

AUTOR: JOÃO MARIA LUDUGERO DA SILVA


Texto de João Maria Ludugero para o VNT Online,em 19/11/2008

FELIZ DA VIDA - O SONHADOR

Autor: João Maria Ludugero.

Vou agora lá pra Várzea,
aquele é o meu lugar!
lá tem batidas de coco,leite de onça,
lá tem garapa, caldo de cana-caiana,
tem suco de umbu-cajá, doce de jaca,
tem rapadura batida, castanha assada
tem cocadas da branca e da preta!

Lá tem licor de jenipapo, doce de caju e jaboticaba,
tem raiva, carrapicho e bolo preto de Marinam,
tem queijo-de-coalho assado na brasa,
tem macaxeira frita na manteiga de garrafa,
tem torresmo de porco, picadinho e sarapatel.

Tem coalhada e tapioca de coco ralado.
Lá no seu Tida, avô de Tereza Gabriela,
lá tem leite de vaca tirado na hora, na caneca de ágata.
Lá tem o cantar do galo a abrir o sol, a alvorada.
Lá temos banho de açude e cavalgada.

Na minha Várzea das Acácias
tem felicidade a perder de vista.
Ah, isso tem mesmo, sim, senhor!
Lá tem muita moça bonita pra se espiar.
E a gente fica só cubando, sem pigorar...
Quem é besta, atreva-se só pra ver no que dá!
Lá tem muita gente boa e hospitaleira.
Lá tem isso tudo e muita simplicidade.
Diga-me uma coisa, quem carece de mais nada?

Lá temos tudo isso, de sobra,
além de uma rede de algodão
armada no alpendre ao sol descambando
onde a gente se deita sem aperreio
só pra fazer um balanço da vida,
Só pra sonhar acordado e ser feliz!

terça-feira, 16 de março de 2010

CAVALGADA

Autor: João Maria Ludugero.

Eu sei que sou moço bom
De linhagem de estirpe
Eu sou mesmo sangue bom,
Com toda modéstia.
Sou filho de Várzea
Gosto de cavalgadas,
Gosto de gente feliz,
de festejar a vida do meu lugar.
Gosto mesmo é de estar
Bem próximo à natureza,
Amansar meus bichos, com garra
domar meus receios e ir à luta.

Sou da terra do Calanguim, meu açude
Sou da laia de Joaninha Mulato
Sou da laia de Ana do Rego
Sou neto de dona Dalila Maria da Conceição
E afilhado de São Pedro, Apóstolo.
Eu sou filho de dona Maria Dalva
E Odilon Ludugero.

Quem mexe comigo, já sabe como é,
Não sou de pisar no calo nem de negar cafuné
Mas cuidado, desavisado camarada, fique atento,
pois se precisar, salto de banda e de lado,
Sou de dar nó em pingo d'água, driblo a sorte
E num piscar de olhos, faço da jia um pitéu
Melhor não pagar pra ver! Pode acreditar.

Também posso destilar venenos, se necessário.
Sou cobra de água salobra do rio Joca, não nego minhas origens,
Não fujo dos meus enredos, posso até perder a rima,
Mas não arredo o pé, tenho a mão pesada, tenho raízes
Se quer pagar para ver, cuidado, com a encruzilhada
Posso amarrar suas mãos, desarmar cabra da peste,
Só com a força do pensamento, dou rasteira na tristeza
Desbloqueio seus segredos, desato os nós sem cortá-los
Sou filho de Santa Bárbara, não tenho medo de invernada,
Muito menos de trovão ou do raio que o parta.

O rio que trago no peito não é efêmero
É caudal de sofrimento e de Amores
Que seguem entre secas e cheias,
Mas não arrastam minha alma a cavalgar
nas torrentes de águas turvas!

Na Várzea onde me acho sou feliz
Viro rio, volto a ser riacho, eu sigo
Se for preciso eu ataco, eu consigo
Sou rocha irregular, sou pedra
Quebro-me em outras tantas pedras
Para aprender me virar, viro Seixos.
E a vida continua a me levar... Seixos
Rio acima rio abaixo, rio arriba
Rio que descamba até encontrar o mar.
Eu sou Vapor, vou às nuvens e faço a chuva cair!

segunda-feira, 15 de março de 2010

TROMBETAS

Autor: João Maria Ludugero.

Que venha meu anjo com seus cântaros.
Venha me dar banho de cuia, ao ar livre
Venha me lavar com seus bálsamos a céu aberto
Venha cantar-me uma canção que toque na alma, no espírito
Venha fazer teus sinais, soprar com toda força uma música
Que possa ensolarar minhas sombras
E acalmar meus desassossegos.

Venha me levar para o paredão do açude de água verde-musgo
Do Calango quero toda brisa, ser anjo bendito
Do Calango quero todo vapor da tarde amena, acolhedor
Venha me tirar do labirinto de lembranças tantas...
Quero me aquietar no seu abraço caloroso, apertado
Mesmo que seja necessário um osso oculto
cravejado em minhas costas, que seja assim,
Mesmo que me careça uma asa calada, esvoaçante.

Reza-me em ti, aos pés de São Pedro no altar
Ornamenta-me o peito com tuas relíquias e credos
Quero teus incensos, quero me sentir a salvo
julga-me no teu passo rápido até o Cruzeiro
Amansa-me no teu colo aquecedor, dá-me paz
Faze-me sentir todo dominado, de fato.

Ilumina-me os passos e o caminhar,com devoção
Abre-me um clarão, uma clareira que seja
Prova-me o sal na pele, o suor vertente, batiza-me
0stenta-te além dos precipícios abundantes, nos lajedos
nos Seixos e descansa nas margens serenas do rio Joca.

Rasga-me o céu em arco e flecha na carne,
Mostra-me que serás flor de Maracujá na primavera,
Que serás meu solo preparado no estio à espera da chuva
Que não és fogo de coivaras ao vento,
Que tens sementes férteis guardadas a sete chaves.
E com elas teremos muito mais que mãos calejadas,
Seremos um só arado ao Vapor, um bonito campo, um roçado
Em todos os outros dias de Amor e fartura, anuncia-me.

domingo, 14 de março de 2010

VÁRZEA E SEUS QUINTAIS

Autor: João Maria Ludugero.


Na minha Várzea,minha terra boa,
Há ruas de casarios coloridos,
Casas caiadas, casas simples, vidas simples
Ali a gente não tem pressa de andar, e voa.
Voa junto com a imaginação, longe-longe.
Voa pelos Seixos, pelas esperanças renovadas
Voa pelos ariscos, pelos Itapacurás, voa que voa.

No quintal das casas há hortas e pomares,
Há frutos caindo de maduros, ao vento,
Há pés de pau de graviolas, pitangas e siriguelas
Há pés de goiabas brancas e vermelhas
Há mamoeiros carregadinhos e Maracujá,
há um cheiro bom de erva-doce no ar.

Sem nunca esquecer das flores
dos hibiscos-rosa dobrados
Que enchiam nossos olhos na casa de seu Nestor.
Eram flores cultivadas pela dona Maria Orlanda,
que vida, que saudade, que cheirinho bom!

Sem contar com as belas româs
de dona Inês Rosa
que a gente insistia em colher,
às escondidas sem culpa.
E a gente nem corava a face,
sem vergonha de viver.

Sem contar com os umbus-cajás
Lá do quintal de dona Maria Marreiros...
Só de pensar pego-me a salivar,
Que tempo bom de alegria,
de dar água na boca!

sexta-feira, 12 de março de 2010

TEMPO DE QUINTAIS

Autor: João Maria Ludugero.

No quintal das casas há frutos
caindo de maduros ao vento,
Pés de pau de graviolas, de goiabas brancas e vermelhas
Sem esquecer das flores dos hibiscos-rosa dobrados
Que enchiam nossos olhos na casa de seu Nestor
Flores cultivadas pela dona Maria Orlanda, que cheiro bom!
Sem contar com as belas româs de dona Inês Rosa
que a gente insistia em colher, às escondidas sem culpa,
E a gente nem corava a face, sem vergonha de viver,
Sem contar com os umbus-cajás do quintal dos Marreiros...
Só de pensar pego-me a salivar,
Que tempo bom de alegria, de dar água na boca!


E pelos caminhos corre a beleza
que o vento não leva
Que surge em cada olhar,
sem nada pedir, sem nada cobrar
E por cima dos ombros vejo os telhados cinzentos
Interessante mas a gente ia ao rio pescar
E já voltava para casa com o peixe
E com outros ingredientes para temperá-lo,
desde o coco fresco ao tomate-cereja colhidos ali na beira
nas ribanceiras do rio Joca, a gente parecia que voltava da feira.

Observo o mormaço, o vapor vital
Que convida todos os amigos varzeanos
a viver a vida, a se envolver de corpo e alma
A se saciar em seus peitos fartos de mãe gentil.

Minha amada cidade da felicidade,
Minha Várzea, meu recanto da simplicidade,
Minha mina d'água doce,
Meu arisco, meu riacho do mel
Minha doce cacimba cavada no coração
do rio que fertiliza nossos sonhos acordados.

metAMORfose

Autor: João Maria Ludugero.

Eu subi apressado a rua grande
Eu desci muito espantado
E quase sem ação
pasmado, estupefacto
Com as idéias confusas,
Atordoado, perturbado, atônito
Eu atravessei a Brasiliano Coelho.

Eu vejo a imagem de São Pedro
No topo da igreja-matriz,
Sem reparar que o Santo está
De costas para a rua do arame.
Mesmo assim, ele olha por todos!

Eu sigo pelos becos
Eu chego à rua da pedra
Eu entro na barbearia do Arlindo
Eu me vejo forte e belo, não fraquejo
Diante do espelho,
Eu comigo, de frente e verso,
Cara a cara
Ante a indefinição
Da imagem,
Em face da dubiedade
Nele refletida.

Num abrir e fechar de olhos,
Num curto espaço de tempo
Num átimo,
tornei-me velho, de repente
No preciso instante dos fogos
De artifício em dia de veneração
Entre o fim da procissão
E o acender
Das luzes da da minha Várzea.

E agora, onde vou, o que sou
Eu?
Marcho adiante
Rezo baixinho a São Pedro
Olhando para o topo da igreja,
Vejo o santo apóstolo pescador
Com as chaves nas mãos
Pronto para abrir as portas
Do meu coração de poeta.

E lá vou eu segurando o andor
transportando a mãe de Deus.
Eu sigo pelas ruas de Várzea,
Atravesso a multidão
E sozinho
deixo aos pés do altar,
Sob o olhar da Virgem Maria,
A minha velha face.

E a esperança amiga se renova.
E, então, cadê o vigor que era verde?
O vapor desabou em mim, evaporou-se.

Meu coração antigo e a velha face exposta
Ambos caíram de maduros aos pés do santo
Que, de pronto, abençoou o cortejo.

E assim segue a procissão.
Prossegue a vida numa série de pessoas
que seguem umas atrás das outras.

quinta-feira, 11 de março de 2010

DÁDIVA

Autor: João Maria Ludugero.

Ah, minha Várzea,
Minha amada terrinha do agreste
Ah se eu pudesse, e posso,
Desde logo te asseguro,
Ao meu coração eu daria de presente
Passar o resto dos meus dias, de certo,
No teu seio, no teu ventre, no teu cerne.

Oh, minha dádiva, minha afeição, meu carinho
Por quem tanto sonho, meu apreço, meu tesouro,
Por quem faço versos e poesia, sem me cansar,
Por quem trago sentimento de apego sincero.

Alguém até pode me achar piegas, sentimental demais,
Mas se amar é ridículo prefiro morrer amando,
A ter que passar o resto dos meus dias em brancas nuvens,
Ou no baldio terreno sem cultivo algum, na aridez,
Quiçá na lama ou a rastejar pelos muros alheios.


Portanto, ciente estais de que a nossa ligação
vem desde o berço, minha terra da cultura.
Eu digo de rastro: EU TE AMO!
Com todas as letras,
Pois a ti dedico todo carinho,
bem como respeito, amizade e valor.

E se hoje o mundo acabasse pra mim,
se acaso eu morresse do coração,
De uma coisa poderias ter absoluta certeza:
Ainda assim eu seria mais que um astro a te alumiar,
Minha pequena estrela da vida inteira,
Minha Várzea das Acácias!

quarta-feira, 10 de março de 2010

"DES-MUNICIA-MENTO"

Autor: João Maria Ludugero.

Eu disparo palavras de carinho,
Feito uma clavina ou clavinote,
mas sem nenhuma munição, sem pólvora
Eu miro tua retina, desarmado, sem balas.
Eu atiro setas a indicar o caminho, o alvo
Eu acerto teu coração, na mosca, num pinote.

Eu converso, eu faço poesia, eu faço versos.
Eu acordo no meio da noite pensativo
Digo acordo no modo de falar,não me abalo,
Pois passo a noite em claro, a piscar
Sob o sol do teu olhar, dois sóis,
Sem pregar a pestana, eu insisto,
A chorar de contente, eu pelejo,
Eu continuo a teimar, sem queixas.
Sabia que homem também chora?

Sem disfarçar, como gosto de falar
Eu descubro caminhos desconhecidos,
Finco minha bandeira de sonhos, de amores,
de bobeiras e outras coisas mais.
E ainda assim a gente concorda
Em ir lá pra ver o que será,
Por não achar sonho besteira.

Só pra ti, menina-moça faceira,
Por tudo isso é que venho aqui
Afoito a crescer, por tua causa,
Só pra te entregar de bandeja meu coração.

Já sei que és a dona dos meus olhos,
Por isso rogo a Santa Luzia, é claro,
Que proteja minha visão dia e noite,
Que sejas minha Salomé e eu, são João Baptista,
Que dances para mim, astuta odalisca,
Já não me assusta perder a cabeça!

Quero te dar todo meu Amor e carinho,
com raça, com força e determinação.
Chega de rusgas e ressentimentos,
Chega de me atirar no obscuro, quero me declarar.
Quero descambar no teu abraço, beijar tua boca
E morrer de paixão, minha flor do maracujá,
Entregando-te veias, capilares e coração.
Pouco importaria viver
senão fosse pra morrer de amor!

Tudo em razão de teres me mostrado, de fato,
Com todas as letras, com todas as palavras,
o que é viver a vida de verdade.
Viver mais e melhor, a um passo
do paraíso do teu nome, sem desatino,
que une versos em poesia,
sem pecado nem juízo.

Tu que me conduzes ao retiro de seu Olival,
Onde mergulho em águas límpidas, cristalinas.
Tu que és da minha Várzea, meu aconchego,
Tu que és a flor da minha Cidade da Cultura e da simplicidade,
Terra tão repleta de Marias, tão cheia de graças!

CORAÇÃO AGRESTE

CORAÇÃO AGRESTE


Autor: João Maria Ludugero.


O tempo passa, a ferrugem emperra as catracas
As portas rangem ao se abrirem ao vento
Eu destravo trancas, ferrolhos e tramelas
Eu abro todas as janelas para o sol entrar.

Por um instante eu sonho acordado,
Eu fecho os olhos e me vem à mente um filme
Um magote de meninos a correr pela vargem
atrás dos borregos e dos cabritos
E a minha alma desgarrada ovelha
Segue sua sina a trilhar estradas de chão
A sentir o cheiro da terra molhada,
A sentir o aroma das flores silvestres
A percorrer o leito seco do rio Joca
A repousar junto com o sol na sua areia morna.

E segue em paz meu coração agreste, nunca morno
Porque tenho o sangue quente, vertente de amores
Porque sou aquele eterno menino da Várzea
Que não desatina ao seguir seu destino, sua sina.

Porque trago no peito não uma ferida de saudades,
Mas a marca perene de viver a vida contente,
Com a certeza de que sei muito bem, de fato,
o que signifca a felicidade de ali ter nascido
E ter bebido das águas do açude do Calango!

terça-feira, 9 de março de 2010

BAGATELAS

Autor: João Maria Ludugero.


Eu já cometi tantas pequenas loucuras, bagatelas.
Em sã consciência, é claro, roubei tantos beijos em tantas bocas
Eu roubei teu olhar que me ofuscava, guardei na retina lembranças
E no fim das contas, sequer me culpei por ter te dado esperanças vãs.

Fui 'ladrão' de castanhas de caju, umbus e tamarindos
Só pra te ofertar, fazer teu gosto atento a delícias, de fato.
Fui 'ladrão' de flores da paixão-maracujá, relaxei teus sentidos,
Só pra poder vê-la atravessar a Brasiliano Coelho, toda faceira.

Eu furto-cores feito camaleão, roubo sonhos acordados,
Simplesmente para torná-los possíveis, apesar dos pesares,
Apesar das cancelas e dos arames farpados,
Eu me enveredo Vapor a dentro, apaixonadamente,
carro encantado que aparece e some, inexplicavelmente
Feito a lenda da mulher que chora a duras penas.

Sou um Calango que não tem medo do sol
Enfrento altas temperaturas de seixos a lajedos
Não quero outra coisa nem aprisionar tua liberdade
Venho roubar teu coração-vertente de amores
Não venho roubar teus sentimentos
Nem fazer para ti mil juramentos
De amor por toda a eternidade, não, isso não!

Vim colher um ramalhete das flores que plantei.
Se o espinho me ferir, ferido sangrarei feliz,
Por ter um coração que sempre amou.
Vim ocupar tua mente com meus versos simples,
Fazer-te sentir o que há de bom na nossa Várzea
Não estou aqui apenas de passagem, digo,
Que fosse, mas não te faria sofrer nenhum desgosto.

Eu te faço canções, escrevo poemas assim
Muitas vezes sem rima, palavras suaves
Que cantam dizendo que te amo, Várzea,
A fim de que percebas de uma vez por todas,
Que estou deveras dominado, não apenas ofuscado.

És minha dona, estou algemado sem algemas
Vim roubar e fui roubado, na margem do açude
Menino solto na vargem a driblar a bola da vida
Mas não estou ferido, tristonho ou cabisbaixo
Apenas arrodeado de beleza e simplicidade.

Nunca serei pobre coitado, nem me escapulir de ti
Sem deixar sequer um recado:
Fui para longe de ti, minha Várzea,
mas nunca arredei meu coração
deste abençoado solo de São Pedro Apóstolo.

segunda-feira, 8 de março de 2010

MINHA VÁRZEA EM PRECIOSOS FAVOS

Autor: João Maria Ludugero.

Eu quero o que tens de mais precioso
Não quero diamantes nem tesouros,
Eu não quero ouro, nem botijas assombradas,
Quero tua paisagem, sentir tua natureza sem igual
Quero o todo, não quero aparte,
Não quero passar por ti a vegetar apenas
Não quero viver mais longe de ti,
A perambular pela vida feito alma penada.

Quero ver de perto o verde varzeano
em típicos ariscos de Seu Virgílio
Quero teu solo propício às bananeiras e seus cachos
Teus olhos d'água teus riachos teu rio Joca
Tuas minas d'água tuas cacimbas azuis
Quero mergulhar em tuas vertentes
Em tuas lagoas compridas teus vapores

Quero degustar teus pomares, à mancheia
entrar no mato, correr com os preás nas macambiras.
Quero ver a beleza das flores dos mulungus-em-flor
Enveredar-me em tuas entranhas,
Encher balaios de feijão de corda e arrancar favas
Colher potes e potes de mel, de súbito,
Sem temer aos ferrões das abelhas-europa,
Feito Zé Miranda com seus baldes repletos de favos.

Quero de novo me achar ao desfrute
dessas coisas simples, com gosto de fruta mordida.
Fui audacioso ladrão de graviolas
Fui também inocente ladrão de pitombas,
Apanhei cajás no Itapacurá, a gosto,
no sítio da Vó da Edileusa Cunha, dona Julieta.
Fui inocente ladrão de mangas lá no Jundiá.
Lá as frutas caíam de maduras no leito do riacho
Enquanto minha saudosa mãe Maria me dava banho de cuia.
Furtei carambolas no pé, com rubor na face, que nada!

Fui caipira, sim senhor,
corri atrás de galinhas-d'angola
Vi o jasmim-manga florescer, exalar seu cheiro
e agora sinto saudades daquele tempo bom
Em que morei no Jundiá de Cima.
Comprei muita araruta na bodega de Joaquim Dedé,
Andei em carro-de-boi, acompanhei meu pai Odilon
Nas idas ao roçado apanhar jerimuns
lá no sítio de Seu Manuel Pupu.

Pulei muitos muros, cercas vivas, aveloses,
Só pra pegar frutas maduras, jabuticabas no pé,
No quintal vizinho, sem vergonha nenhuma,
de roubar laranjas-da-terra, sem vergonha
de ser uma criança de bem com a vida,
Sem vergonha de ser um moleque feliz!

sábado, 6 de março de 2010

JÓIA RARA (HOMENAGEM A TODAS AS VARZEANAS NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER)

JÓIA RARA

(HOMENAGEM A TODAS AS VARZEANAS
NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER)

Autor: João Maria Ludugero.


Menina-moça-mulher varzeana
Quando criança, não esmorece,
Repleta de novas esperanças
E ela nunca se cansa
De no amanhã acreditar,
Descobre como a vida pode ser simples
Quando se tem um sonho uma causa
Uma razão para continuar

Quando adolescente,
Uma princesa em flor
Do amanhã, faz o presente.
E quase sempre se sente
pronta pra despertar.

Quando adulta, mulher-coragem,
Depois de muita luta,não se escora,
Depois de arregaçar as mangas,
Acredita num futuro
de alicerce e prumo
Algumas dizem: a partir de amanhã!
Ela proclama: juro que vai ser agora!

E quase sempre sonha mais seguro.
Mas sentindo como é duro,
Ver o outro dia chegar,
Vai caminhando,altiva,
De cabeça sempre erguida
Seguindo em frente, otimista,
Seus problemas enfrentar.

E acorda pronta para a lida
Quando idosa, fica prosa
Cheia de experiência.
E com muita paciência,
Aos trancos e barrancos,
Pode a todos ensinar, tão sábia,
Que a essência de viver a vida
É pela vida não passar em branco.

Mulher varzeana,
Mulher destemida, de pulso
De garra, desdobra fibra por fibra
São elas Claudinas, Divas, Marias,
São Ninas, Elbas, Albanitas,
São Anas, Júlias, Penhas, Rosas
São Dalilas, Rosildas, Nenas, Terezinhas
São Eugênias, Jandiras, Lucilas, Joanas
São Carminhas, Querubinas, Zidoras
São Tantas mulheres que não cabe
Citar aqui no meu poema, mas todas elas,
Estão bastante vivas na minha Várzea das Acácias.


Parabéns, Mulher Varzeana,
Pelo seu dia, por todos os dias
Em que lapidas essa beleza de ser
Mulher-mãe-avó e para sempre amiga
De todas as horas, jóia rara de viver!

quinta-feira, 4 de março de 2010

VÁRZEA:SORTE DE QUEM NASCE ALI!

VÁRZEA: SORTE DE QUEM NASCE ALI!

AUTOR: João Maria Ludugero.

Na mesa farta, repleta de respeito
todos unem as mãos e rezam.
Agradecimento sincero, solene,
todos os destinos junto ao pão.
Pão de trigo, pão de sal e outros brotes.
Tudo quentinho a sair da padaria
dos Tomaz de Lima (que saudades do seu Nenê!).

Eta tempo bom!
Tempo de tantas lembranças,
de cheiros e ruídos
Onde a sorte entrava sutil
pela porta da frente, gentil
Junto com um magote de crianças
Que embalavam sonhos e outras regalias.

E o mundo descansava na rede,
Rede de sisal ou de algodão
Rede armada no alpendre
De casas simples, coloridas, caiadas,
A indicar que o paraíso fica(va) logo ali,
Onde a paz faz/fez sua morada, de fato.

Ali onde mora o sol a tingir
De laranja o mais belo poente do agreste
a decorar a tarde do açude do Calango
de aves e pássaros de maviosos cantos
que vão surgindo em bandos, de súbito,
Como que a fazer uma comemoração de costume
Na dança majestosa do crepúsculo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

BONS VENTOS DA MINHA VÁRZEA...

BONS VENTOS DA MINHA VÁRZEA...

Autor: João Maria Ludugero.

Eu atravesso
a Brasiliano Coelho de Oliveira
Eu Sinto aromas e ruídos.
Pressinto cheiro de esperanças novas no ar
Eu sinto o vento bater na minha cara
Eu sinto o mormaço do rio Joca a evaporar-se.

E venta que venta
ao sol do meio-dia a pino
Sopra o vento com toda força.
Eu ouço a cigarra a cantar ao longe,
Eu ouso um passo de dança ao ar livre
Eu invento, eu teço meus versos ao relento
Eu vejo nuvens se dissiparem no céu aberto
E o vento dos ariscos a sacudir a poeira.

Venta pela rua da pedra,
Apagam-se as velas do Cruzeiro.
Avivam-se as cercas verdes, pelos quintais a fora.
E em meio a tudo isso, eu observo Seu Antonio Ventinha
A tanger seus porcos prontos para o próximo abate.

Eu faço este poema trazido pelo vento-brisa,
onde as palavras rodopiam, driblam mata-burros.
As palavras seguem por recantos
de chão de terra molhada
por retiros de mato verde.
Eu me lembro de Seu Olival,
Eu me lembro de Dona Penha.

Eu me lembro do açude do Itapacurá
Eu bem me lembro das flores do Maracujá.
Eu vou junto com a ventania pelo Vapor a dentro.
E assim, suave como a brisa que passa eu me atiro
Com a leveza intensa do orvalho que fica
que nos remete a uma bonita ciranda.

Imagino quanta palavras,
pequenas ou não, o vento leva,
quantas ele traz direto ao meu poema.
Vento propício, lindo, profundo, forte.
Indo e vindo, melancólico, belo e favorável
A trazer boas novas!

Ventos inesperados de um novo tempo
Venha e venta assim um vento bom pela varanda
A abrir portas e janelas da minha Várzea.

Chega perto e vem feito vento bom a balançar
as tranças das meninas-moças, contentes
Venha desfolhar as palhas dos coqueiros
e das palmeiras de São Pedro apóstolo.

Ah, como eu gosto desse vento
que desalinha minhas palavras.
Vento que me atiça a memória, dando-me norte,
E nas entrelinhas bafeja meus versos
Evaporando pra longe a tristeza da vida.

Venta e traz ares mais puros
numa brisa amena, calorosa,
que avança pelas quatro bocas
das crianças saudáveis, espertas,
que pintam o sete na minha Várzea,
numa lição de amor que vira crença.

Vento que não desbota o verde-compromisso
Com o meio ambiente, com a natureza
Que bem começa no meio da gente.
Só pra o nosso bem-estar, bem-querer-viver,
apesar de toda aridez, apesar das pedras,
Só pra despertar, no meio de nós,
a alegria de ser varzeano, de fato.

segunda-feira, 1 de março de 2010

PARA SEMPRE, VÁRZEA!

PARA SEMPRE, VÁRZEA!

Autor: João Maria Ludugero.

Se acaso eu morrer do coração,
Não fique triste não chore a minha partida.
Eu vivi, eu tive tudo o que sempre quis
Eu vivi de verdade a vida mais bonita.
Por isso mesmo, acredite, eu fui feliz!

Eu tive tempo e ele foi precioso
Eu fui preciso, eu aprendi a ver as coisas simples
Eu aprendi a conversar com a paisagem,
E os ventos, as folhas, o açude do Calango nunca me silenciaram!

Se acaso eu morrer do coração
E os céus chorarem águas na minha despedida,
Veja que serão as lágrimas de São Pedro apóstolo
A mostrar que a natureza tem seus olhos d'água
Que se debulham a chorar de felicidade,
Por alguém que viveu intensamente, não apenas vegetou.


Se o sol se eclipsar, e as aves, nesse dia, não cantarem;
Não fique triste, amanhã renascerei
com os primeiros raios do sol
E vestirei o dia de cores brilhantes,vivas, intensas.
Eu pintarei uma tela gigante com a minha cara de contente,
Porque continuarei vivo e presente no coração de cada varzeano.

Com a minha ida, não haverá um vácuo no tempo,
Ficarei repleto em cada sorriso,
dando alegria a um magote de gente,
Pois tristeza é rima fácil
e pouco sentida em meus versos simples.

Não tenho tempo pra chorar feito um réu lastimoso.
Confesso, a vida é boa demais pra mim, sou um ser abençoado,
Nasci na terra de Joaninha Mulato, grande mulher varzeana
Que um dia se foi, mas deixou seu exemplo
e um legado de fé na vida, esperança e Amor.

Desde logo antecipo, com toda modéstia,
Quero que minha ausência possa ser sentida
Em lugares por onde se alastre a minha poesia.
Queria estar presente no meio dos seus livros, de fato.

Eu queria ver minha gente a ler meus versos,
sentir alento em meus poemas, entender-me, falar de mim.
Queria ver minha gente pra frente, sonhando acordada
com a crença de que Várzea é mesmo uma dádiva, uma bênção.

Se acaso eu morrer do coração,
permanecerei mais vivo do que nunca, acredito.
Levarei o deslumbre e a poesia do teu sorriso.
Verás meu rosto em todos os lugares, nos ariscos, nos seixos, nos retiros
Nas pedras, nos lajedos, nas lagoas, no Vapor, nas nuvens,
Nas flores e até mesmo nas águas verde-musgo do açude do Calango.

Tua lembrança, minha Várzea das Acácias, tua alma estará comigo.
Quero que saibas disso: Eu te amarei sempre, até depois da vida!