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quinta-feira, 29 de abril de 2010

REFÚGIO DOS VARZEAMADOS

autor: João Ludugero

Ali na beira do Calango
com o açude a sobejar
pelo sangradouro suas piabas
aqui e ali na vargem alagada
vejo a pular carás e jacundás
na festa da enchente do rio Joca

entre um e outro juazeiro,
pedaço de sossego a acolher minha alma
que megulha no verde-musgo profundo
sem ter hora para voltar
meu coração se derrama
e vai junto lavar teus cabelos
e vai junto escovar teus dentes
com raspa de casca de juá

eu me derramo em teu colo
como se fosse travesseiro,
descanso o crânio satisfeito
sob o cafuné da ponta dos teus dedos
deixo-me levitar assim,
alcanço o céu,
mesmo sem sair do solo

de súbito,
descobres o mapa do meu peito
e eu em revide, frente e verso,
percorro tuas curvas de níveis
me acho em tua geografia

folheando-me por inteiro
chegas a cada vontade,
afastas cada medo
do meu coração, e não tem jeito
aproximas cada virtude ao sonho
cada desejo que busco
tão ímpares no livro aberto
que invadem as páginas pares
dando sentido aos meus versos simples

cai a tarde amena
cai o sereno
escurece e ninguém vê
que adormecemos no
aconchego da Várzea
sem preocupação com o tempo,
sem receio do perigo.
no meu refúgio não há do que fugir,

afinal estamos em casa
rodeados de pirilampos,
sob as bênçãos de São Pedro

quarta-feira, 28 de abril de 2010

FÊNIX


autor: João Ludugero

vida de passante, sim
no final das contas
passo eu passas tu
osso eu ossos tu
cinza eu cinzas tu
é o que resta, enfim
nem grafite nem diamante
nenhum dia mente, é claro,
voltamos ao pó de novo
para ser apenas humus

então, ora passo a indagar
por que tentas me engolir
insosso assim pela metade
ainda cru a pegar tempero,
por que tentar me tragar
se ainda estou sapo a coachar
na lagoa ainda sou pato
justo eu que não tenho
nenhuma pretensão de ser rei
nem cisne serei
não careço parecer bonito
pois aprendi a amar o feio
que há em mim, de vez

ora, ora pois, meu amor,
não me vejo belo sem tua forma
o que tens de mim é meu inteiro
tu é que me engoliste de fato
não me vejo a mim também
movediço estou agora sem teu chão

estrada que não sei aonde vai dar
em que paradeiro vai pousar essa nave
ninguém nunca soube a resposta
quem está onde quem é quem,
pouco importando a interrogação
quem nasceu primeiro
se foi o ovo ou a ave!

por que no final
após a combustão,
tudo se transforma em cinzas
e até os sonhos vão junto com as cinzas
a poeira do que resta é atirada
ao vento ou no mar
e vira comida de peixe

será que me ouvirão depois
entre as bromélias que plantamos
eu já me ouso a pensar, atrevo-me,
ouço a ti e a mim além dos canteiros
ouço o canto do galo a cantar em nós
será que outros sentirão
nosso (des)encanto por derradeiro,
quiçá entoarão uma canção de amor
quiçá acreditarão que somos Fênix!

terça-feira, 27 de abril de 2010

PROPÓSITO

autor: João Ludugero

não sei dançar,
mas rodopio 
invento um passo
fecho os olhos 
e vislumbro um clarão
disponho-me a imaginar
capto palavras
teço versos, 
ambiento-me
rezo um terço
mas preciso agir
escrevo poemas
sem pena de mim

à espera de paz
lembro-me da prece
da lição de casa
cresço, fico maior
universo 
quando me ajoelho 

e ressoa em mim
tua voz de veludo 
encarnada
como se
cravasse na jugular um
silêncio incontido

um silêncio que grita
vestido de palavras não ditas
que mudas
dão  sentido ao poema
que alto se estica
palavra por palavra
tanta vez
me desfaço
me componho
me curto no curtume 
me proponho a ficar mudo
só pra te ter 
num novo começo 

eu consigo alcançar 
tudo no meio do nada
meu coração mergulha
contemplativo
descansa na fé
quer afago 
na paz do teu sorriso nu


e para deleite 
dos meus olhos
que se abrem ao azul
na imensidão de ti, 
eu agradeço e chego ao céu
oh, minha estrela-guia,
eu imploro às escâncaras
pode chegar, venha logo
num piscar de olhos,
vou fazer meu pedido:
caia depressa
venha me fazer cafuné
eu careço disso!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

PERFEITO DELÍRIO

autor: João Ludugero

Paulírio
plantou pé de pau
só pra dar sombra 
na varanda da sua casa
ao redor atirou sementes
pra todas as bandas
brotou belezura em flor
nasceu margarida e lírio
Paulírio achou bonito
de se ver na plantação

renasceu a esperança
o verde se renovou
o lírio indo ao delírio
chegou junto a delirar
a enfeitar seu jardim
para fazer um buquê
de lírios
e aos borbotões
a sua rosa coroar

com o galho intumescido
molhado de orvalho
com os espinhos arrepiados
a rosa
goza
no meio do jardim
o gozo veio sem fim
orgasmo de flor em flor
perfume e vapor

após a poda
da erva-daninha,
apareceu passarinho
a tecer macio ninho
de gravetos e painas
e trocas de penas
na copa da árvore
de Paulírio
e a rosa toda prosa
aprovou
e gargalhou sua alegria no cio
com aroma de amor-perfeito

logo o mato todo
florido ficou
nasceu primavera
nos ariscos caminhos
com as tintas de Deus
com o dedo de Deus
Paulírio se fez só riso
e foi passear no bosque
com sua rosa feliz
da vida que ora se leva

AMOR DE DURAR

autor: João Ludugero

Porque um amor de verdade
tem que ser grande?
pensando bem, 
pesando o amor  
o valor do amor, como o dia
um amor de verdade
não tem que ser grande,
nunca é de assombrar

amor de durar é calmo, discreto
tranqüilo como um açude
um riacho a escorrer na Várzea.  
nos aquieta a alma, o espírito 
um grande amor prenuncia
um coração na cruz
um altar de grandes tragédias,
desastres fatais  
paixão com términos,
dolorosos
ao passo que um amor 
de verdade não é só de flores
não exige rosas no começo,
versos e poemas para exaltar.
nem pede socorro aos mui amigos,
divãs de analistas ou aconselhamentos

visto que um amor de durar é assim
só pede a paz dos dias
de todos os dias,
do acordar de manhã
à paz que antecede o lusco-fusco
esperando a lua chegar 
com o anoitecer

as horas de tempestades, estas
perdem-se tristes a qualquer hora
esvaem-se no mormaço das tardes.  
e a noite é parceira
da paz renascente
e a gente nunca fica só, 
mesmo estando a sós,
porque a paz acontece e dura
numa eternidade 
num instante do dia,
porque o amor é o bastante
sem precisar ser gigante 
nem assombrar... é só!

O JARDIM DO MEU CORAÇÃO


 autor: João Ludugero

acordado, com o peito
repleto de ares puros
a envolver corpo e mente,
sonho com um jardim,
plantado, cravado, 
idealizado, pacato
dentro do coração da gente

sonho com um jardim
florescendo, real
em cada amanhecer,
renovando-se, varzeamado
no coração do poeta

sonho com a paisagem viva
da natureza primaveril
Sábia e bela, casulo e borboleta
inabalável, bem-querer 
a reproduzir-se, perfeita
no coração da princesa Jordana

sonho com um jardim ensolarado
com flores de toda cor, com o vigor
de árvores brotando verdejantes
e pássaros cantando, maviosamente
canários de chão, sabiás 
e colibris de flor em flor
anunciando que é o céu desceu à terra
que a festa da vida já começou
no coração do Igor Gabriel

domingo, 25 de abril de 2010

SEIXOS

autor: João Ludugero 

Dona Dalva,
com seu maternal carinho
deu-me a vida,
deu-me agasalho e calor
desde o colostro 
desde cedo me deu colo
quando chorei no seu peito
porque  o leite empedrou

mas mesmo assim 
ela me deu um coração
que não é de pedra 
apesar de parecer feito de granito,
de às vezes, parecer pedra comum,
paralelepípedo

meu coração  se derrama
ele se derrete todo, inflama
poderia ser diferente lava de vulcão
ser um coração tipo rocha ardente,
magma que o tempo esfriou por fora
 
mas a vida me fez assim
pedra solta, seixo
pedrinha dura, de arestas aparadas
pedra que ficou assim de tanto rolar 
na correnteza do rio
pedra polida pela força 
oriunda das águas 

pedra sem a pretensa forma 
ou a dureza do diamante
que coberta de limo, 
simplesmente é pedra lapidada 
que diferentemente do geral
traçou-me um pitoresco destino
solta, à beira do caminho
pedra atirada ao vento inusitado
pedra base do interessante castelo 
que ainda alicerça meu curioso sonho

sonho que não virou pó, poeira
de um sonhador que ainda sonha  
porque o amor ainda está aqui
e não se desmanchou em mim 
que também sou feito de sonhos

sábado, 24 de abril de 2010

ÊXTASE

autor: João Ludugero

Passei a ver mais
o céu de Brasília 
a contemplar
o lusco-fusco da tardinha
que me faz tão bem

que me leva bem-estar 
ao coração
que se faz presente
ardentemente novo
algo assim como um contraste 
na veia 
a queimar por dentro,
tornando-me assim
seu único propósito,
viver o instante único
que faz toda a diferença 
de ser-me [n]o fim
exuberante [à] mente!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Ofuscado (um amor de fusca)

autor: João Ludugero

um fusca colorex
quase naquela cor creme
de louça de ensopado 
da santa marina
cor de gema de ovo batido
cor de pirex antigo 
amarelo maduro curtido
que o tempo de uso
o fez ficar fosco fusca

percorri seu rastro, às claras,
com meu pálio azul marinho 
era quase escuro 
e ainda assim brusco
quase noite o segui
e morreu
de mansinho
ali ó, na beira do parque
onde crianças pulavam 
amarelinhas
e o tal carro cor 
de bago de jaca madura
ou seria de polpa de cupuaçu?

só sei que a tarde 
amena amarelou
como a minha cara
e a dos caras da rua
que ajudaram a empurrar o fusca
ali na via lateral do prédio 
da preferencial 
situado no Brasil XXI
e ó
pó pó pó
pegou no solavanco
aos trancos
e rumou direto ao eixo
monumental a caminho de casa

no longe o vi ainda a ofuscar
redondo e engrenado,
soltando fumaça e cheiro 
de gasolina
dentro dele uma boca sorridente,
além do buraco do tatu
no mormaço da tarde 
além das bocas sem dentes
dos túneis das tesourinhas
que cortam Brasília

daí não tive outra saída
encontrei-me ofuscado
e até hoje, confesso,
oh, meu Volkswagen,
não tenho medo da vida
de conduzir minha sina,
mesmo tendo o destino
que abrir meu coração

levá-lo-ei à oficina, sim,
para uma revisão de praxe
e ó, meu coração,
pó pó pó
assim bate ele, 
enquanto eu apanho, 
resignado
forte é o motor fiel 
condutor do meu peito  
apenas vai fazer uso
do martelinho 
de ouro...
estou pronto 
pra restauração
para mostrar 
a quem interessar possa 
que amo de paixão 
que vale a pena
acelerar esse amor
que dá rosto a essa busca

e mais aposto
que ele está longe 
de ser passageiro
de ser lusco-fusco impostor 
porque se aquele velho fusca falasse
todos saberiam 
de uma vez por todas
o quanto fui feliz
e ainda sou!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

APESAR DOS PESARES

autor: João Ludugero

tudo está no seu devido lugar
eu enamorado da vida, curto-a
vivo agora-já meu amor eterno 
que já não está sozinho na janela
 
o sonho está dormindo e pesa
na cabeça dos homens
o homem está andando 
na cabeça de Deus,
a driblar o mundo
a julgar-se dono dele
a chutar o globo 
feito bola de futebol 
surtado ele acha que pode!
 
minha mãe está no céu, em êxtase,
eu estou no meu corpo, acordado,
onde mais eu poderia estar agora,
diga-me lá, meu coração?

DESATADOR DE NÓS

autor: João Ludugero

eu encho o peito, 
orgulho-me sim, deveras
mesmo que seja do meu jeito
só pra te dizer, sem demora,
que não tenho vergonha alguma
de repetir, de dizer sem o não, 
o tão fadado ditado, 
aquele que propaga
que homemque é homem 
também chora, porque não?

tenho sim, alguns pudores 
mas largo tudo, e decidido 
parto logo ao teu encontro
só pra secar teu rosto na praça
só pra não vê-la cair em pranto
abro meu coração, na raça
sangro assim feito açude cheio

desabo no teu colo quente
eu me acabo na tua boca nervosa
só pra atingir teu céu aberto
e arranhar nosso ego imposto
só pra ficar pronto
a tempo de voar contigo
pra qualquer lugar,
seja inferno ou paraíso 

Caso contrário, 
admito com todas as letras
prefiro o purgatório em chamas
onde o suicida, a cabo da vida,
também sua, 
inflama e se dana,
a pingar seus  suores 
na eterna coivara

mas se não vieres 
a desatar meus ais,
se não mais sentires nada 
nem  solidão de ser só dois,
o que mais importaria, de fato,
se o mundo acabasse por desabar
sobre as nossas cabeças?

não tenhas dúvidas
que só restaria mera página
de estampada notícia 
do adeus, no jornal diário  
ou como manchete global
na TV a cabo!

O MAPA DA MINA

autor: João Ludugero

meu tesouro,
minha botija,
meu encanto
minha pepita de ouro
a reluzir na bateia
minha pedra preciosa,
traga-me  noticias de lá
fale-me das águas 
do pequeno rio grande
da vargem e dos seixos a rolar 
das cacimbas salobras do Joca
que lá careço matar minha sede!

quero beber em tua moringa
de potável saudade
andar descalço
e ver de perto o riacho
a encher cristalino leito
repleto de piabas e jundiás
só pra me fazer a festa
transbordar o Calango, sangrar
no interior do meu peito
insistindo pra eu ficar
e satisfeito nadar na correnteza!

não, não me diga mais nada
deixe-me ouvir o canto do bem-te-vi
saiba que eu te quero danada
com todo jeito de mato
com todo aroma da terra
toda molhada de orvalho
acho bonito vê-la nos ariscos
a me seguir nessa estrada
até um dia eu chegar de jeito
só pra te serenar, meu sabiá!

Várzea,
já lhe fiz tempero, com versos,
já virastes sustento, feito alimento
e é quase um desespero, um entrevero
se não te sinto cá dentro... 
minha mina,
minha Várzea, 
meu doce rio de amor
meu açude do Itapacurá,
ria de mim, acho doce viver assim...
a correr, a discorrer a ideia do meu canto!

terça-feira, 20 de abril de 2010

ARCO-ÍRIS

autor: João Ludugero

oh, meus olhos azuis,
dois sóis a decorar minha vida,
quando meu coração 
não ouvir mais o teu
quando eu me esconder 
cintilante sobre o céu
sorria e olhe a imensidão do firmamento,
desdiga o adeus!

Deixe a lágrima chegar, 
lavar teu rosto de perto, sem enfado,
pois serei um oásis 
no deserto que ficou
só pra não deixar tua esperança perecer
e regar as plantas de verde esmeralda,
fazendo teu jardim
de inteiro florescer

chore, guarde os lenços e as cinzas
não se esqueça de lembrar desde o pó
que a graça no sofrimento está em tudo,
está em sê-lo graça, de certo, de toda cor
razão dos meus dias ensolarados!

também não desista
da alta mira
de admirar as nuvens de algodão
sabendo que a linha 
pintada no céu,
que parte detrás 
da linha do horizonte,
depois da chuva, amor meu,
poderá ser meu sorriso-prisma

e assim descerei aliança
em sete cores vivas,
uma a uma, espectro
a moldar um arco
a partir da tua retina,
só para  tingir o movediço chão 
ao largo do céu que pisas

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIAGNÓSTICO: QUANDO FALA O CORAÇÃO

autor: João Ludugero

de toda e qualquer sorte,
sobre a válvula aórtica
insuficiente
a ser trocada
para dar reforço ao meu coração
ainda me esforço
pra me acostumar
com essa ideia de corte

nunca quis a dor
como sentimento
sinceramente,
estou aprendendo
a dar ouvidos
às batidas do meu coração
 
paro e reparo 
olho nos olhos
escuto e ausculto
e corajoso sigo

atravessarei
mais essas cúmulo-nimbos
e as trovoadas
de verão,
esses raios
que o partam,
os que viverem
sentirão comigo,
sobreviverão
 
eu consigo, bem sei
acredito, 
sobreviverei
pois tenho um coração
que não foge da raia,
resistente a chuvas
e a outras pancadas 

da vida que levo
e ele me diz, inquieto,
que muito ainda hei de viver
a nadar, a nadar
e não morrer na praia

MEU CORAÇÃO ARTEIRO

autor: João Ludugero

amiúde,
vou abrir meu coração
sisudo, 
valente, 
corajoso 
assim é  meu coração

e sai o diagnóstico
o laudo 
de ecocardiograma.
sofro 
de insuficiência aórtica

trocando em miúdos,
minha válvula está preguiçosa
com mísero refluxo, 
pulsa em grau discreto.
meu ventrículo esquerdo 
só aumenta de volume

engrandeço meu coração 
de poesia, artérias, 
veias, vasos e capilares
em meio a vísceras
e vertentes veios  
de um poeta aprendiz

e agora, doutor,
diga sem demora 
o que fazer

com meu coração 
tão especialista na arte 
de fazer o que não se espera,
tão arteiro, 
tão sonhador? 
EUREKA, EUREKA!


não quero apego aos anzóis
não quero ser apenas  isca
nem o peixe a morrer pela boca
não espero robalo à risca 
tampouco ser teu namorado
não quero ser o bispo da tua missão
nem dom Pero Fernandes Sardinha
que virou comida de canibais
ao ser devorado pelos Caetés,
em inesperado programa de índios.

espero por ti,
até que o mundo me deixe mudo
até que eu me acostume e siga
na solidão de ser apenas dois
até que nenhuma bomba rebente
e floresça
até que uma rosa desabroche rosa

que eu aprenda a desarmar todas as minas
até que eu amoleça teu coração de rocha
e que a palidez do teu semblante
desapareça em meio a estrelas reticentes
que desabem, cadentes na paz descoberta

que somente encontro em teu sorriso nu

que eu ache chão e cresça
em razão do céu que desce
a partir da tua boca carmim
que me inflama,
que me chama
que me convida ao frio da dor

espero encontrar terra firme
e não apenas areia movediça,
espero abrir meu coração, à vista,
nele encarnar meus ais enfim,  
só se for pra viver incendiado
na celebração desse Amor

autor: João Ludugero

terça-feira, 13 de abril de 2010

FRANBECCO
(ou A Chave para Rebecca Piro Dedavid)

é latente essa voz
que ecoa, 
que dá vida,
que nos engravida a todos,
nesse ultrassom 
que tem cores
que longe ressoa
que tem rosto, 
perto e dentro de ti

escutai  esse grito
esse coração que bate
que vibra na pele
que toca a terra
tocado pelo balbucio
da tua verve verde
da tua voz, Rebecca,
que nada teme

vertente novelo 
que cresce
que arredonda 
tua barriga, 
que acende 
pira perene
que instiga a felicidade
a chegar depressa, de súbito
acesa na vida da gente
a desatar todo ser triste,
a fazer sorrir os descontentes

essa tua tenacidade
aflora na tela do real
fazendo teu corpo 
teu ventre a gerar outro ser
dando margem à alegria,
que navega ao encontro
de um veleiro em flor

e chega desabando cercas
abrindo corações e mentes
como se tivesse as chaves 
para um voo sem asas, 
sem laços de passarinheiro
sem alças nem alçapão, 
sem medo do mergulho 
na maré alta
sem receio do nado sem guelras,
sem guelras nem asas,
só Amor. só o Amor
que a tudo ilumina. 

só o Amor.
só tudo na tua casa,
quer seja em São Paulo ou aqui, 
o que mais querer da sorte,
diga, minha amiga,
do que mais precisas,
se tens a posse das chaves
para abrir o sol 
que faz girar 
tua vida a 360°?

autor: João Ludugero

segunda-feira, 12 de abril de 2010

PÃO & POESIA


Hoje, eu acordei e fiquei a pensar: algumas pessoas acham que a vida somente tem sentido para quem deixa uma herança ou um legado. Um registro qualquer sobre a terra. Bobagem!

Não há diferença entre deixar para trás uma escultura gigantesca, que paire sobre toda uma cidade e um simples livro - "Memórias de um menino varzeano"-, desde que ambos sejam capazes de um dia, no futuro, comover pessoas. Ou uma pessoa que seja. Nisso, com toda modéstia, me igualo a um artista. Sou um escritor. A meu modo deixo a minha obra de arte.

E por falar em memórias, não poderia deixar de aqui trazer, mais por uma questão de justa homenagem e reconhecimento, o nome de Plácido Tomaz de Lima, Seu Nenê Tomaz, que, justiça feita, figura entre as personalidades varzeanas, sem que eu esteja aqui rasgando seda ou puxando a sardinha para a minha lata. Não é isso. Mas o Pai de Terezinha Tomaz de Lima, sob a minha ótica, foi um grande cidadão da nossa terra.


Plácido Tomaz de Lima, homem detentor de uma simplicidade inesgotável e um grande e dedicado pai de família, justo, sensato e zeloso. E por que não dizer, preocupado com o bem-estar da cidade, da sua grande prole, sua descendência, o que ele sempre defendia, diga-se de pronto, com unhas e dentes, com denodo e honradez.

Só sei de uma coisa: Já não se fazem mais pessoas com a estirpe de Nenê Tomaz, digo, sem receio do acerto, homem de dignidade e destemor ímpar, que arregaçava as mangas e não tinha medo das agruras da vida. Nunca teve. Que exemplo, não é mesmo dona Tilde?

Eu me lembro muito bem, portanto, tenho propriedade em falar dele, pois cresci ouvindo suas tiradas inteligentes, a própria voz da experiência, um homem que acreditava na força do trabalho, que não media esforços para manter sua família unida e em condições dignas de bem viver, seguindo suas justificáveis cautelas e exigências baseadas no bom-senso. Ele sabia porque as coisas tinham que ser daquele jeito.


Ele nos ensinava, a seu modo, que a lei da vida é dura, crua, que ela nos cobra caro e suado e, se pisamos em falso e no escuro, a situação não nos deixa em condições favoráveis, vulneráveis, pois precisamos agir sempre e constantemente com responsabilidade, determinação e sensatez. Consabido que a vida nos cobra e o retorno sempre vem. Pode até demorar, mas vem. Precisamos fazer a nossa parte, com qualidade, respeito e vontade de fazer bem feito. A vida vale a pena, apesar dos pesares, do fardo. A vida vale mesmo "pitéu". Parodiando o nosso inesquecível Plácido Nenê Tomaz: "Essa menina dá um pitéu".

Tudo isso só me faz bem recordar. Ali na Padaria, a gente se reunia e não perdia tempo, a empacotar bolachas pequenas, bolachões, biscoitos doces e salgados, sequilhos, soldas, brotes, torradas e regalias, feitos de farinha de trigo. Eram balaios e mais balaios, de pão e poesia. E conversas jogadas fora. Prevalecia a amizade sincera, sem pressa, desinteressada, como se aquele ambiente saudável fosse uma extensão da casa da gente, um puxadinho.

Ali na padaria de Seu Nenê Tomaz, a gente ocupava a vida, lia, se atualizava, se informava de um tudo, desde geografia, conhecimentos gerais até a vida do povo, a vida alheia, sim, por que não? Dali saía de um tudo um pouco, estórias, pães quentinhos, balaios de roscas, conversas fiadas, biscoitos finos, contos, notícias fresquinhas, mídia, televisão, viajava o mundo todo, sem sair de Várzea. Pode uma coisa dessas? Até mesmo as lições da escola a gente fazia ali, as composições, os teoremas, a aritmética da vida.

Ali o forno de lenha, a fornalha continuava acesa, quentinha, aonde o 'Zé Pifani' preparava a massa do pão e enrolava os biscoitos, as bolachas, o trigo, a farinha. A gente não tinha mesmo pressa nenhuma. A esperança ficava mais acesa no restante do tempo, a gente lutava para que ela não se apagasse. E deu no que deu: a chama continua acesa, a gente nunca vai morrer de frio. Disso eu tenho certeza!

Ter conhecido e convivido com pessoas como Plácido Tomaz de Lima, confesso orgulhoso, com toda pureza d'alma, para mim, foi uma bênção, eis que, por graça e ação de pessoas de tamanha estirpe e respeito, vejo-me ora ostentando no peito honraria de alto quilate. Sou eu um escritor varzeano. Tenho memórias a escrever, tenho história para contar, de verdade, de gente-gente. História da minha Várzea querida.

Seu Nenê Tomaz foi um ser humano inigualável, de um espírito para cima, não tinha tempo ruim para ele, que fazia de tudo com a mesma simplicidade com que também organizava sua padaria, seus pães, sobre fornalha de pau de lenha, ali na subida da travessa Brasiliano Coelho.

Lembro-me que o seu passo arrastado e sua cara de semblante sisudo, sério, quando adentrava nos corredores da padaria, era a senha para a debandada. A gente corria ou ficava de bico calado. Por ele, a gente sentia o maior respeito e só falava de coisas e assuntos calcados no bom alvitre e no comportamento exemplar. Ele realmente era um homem cauteloso, que agia com prudência e seriedade, em se tratando das coisas da sua casa, da sua panificadora e da sua Lagoa Comprida. Isso é tudo verdade. Assim era a sua vida.

Hoje eu sou escritor. Mais um homem que aprendeu a lidar com palavras. Já escrevi e tive a ventura de descrever momentos singulares da minha vida, tecendo minhas memórias no papel. Continuo escrevendo e retratando pessoas e eventos que marcarão a minha vida para sempre. Já escrevi vários textos e artigos que pretendo publicar em breve. Sou um homem da palavra. Palavra. Palavras. Lido com elas. Trabalho muito com elas. Uso-as. Lapido-as, Aproveito-as. Cruel, descarto-as quantas vezes nas revisões. E as palavras salvas na 'bateia' viram frases, textos e muitas delas estarão estampadas no meu livro "Memórias de um menino varzeano".

Apesar de ser um homem que lida com palavras, me emociono ao tratar de pessoas que para mim têm um alto significado. Confesso, é nessas horas que a emoção me cala. Há momentos em que fala com mais intensidade o silêncio. Falo por mim. Eu, João Maria Ludugero da Silva, homem que lida com as palavras, não as teria, nesse momento, para manifestar os mais exaltados agradecimentos que me fervem no coração. Agradecimento a Deus por ter conhecido pessoas do calibre do povo varzeano.

Aproveito o ensejo para agradecer a todos os varzeanos que, mediante as memórias sobre a história da nossa cidade e nossa gente, acabo de realizar um grande sonho: escrever minha obra, o meu livro.

Permitam-me dizer-lhes: Vocês me deram o mérito de entrar na vida do povo varzeano para me tornar escritor, de verdade, para entrar no magnífico hall dos homens da letras e das palavras. Obrigado, meu grande povo varzeano. Muito obrigado!

E dentre as banalidades cotidianas, a gente chegava cedo para assuntar da vida: Éramos eu, Chiquinho, Terezinha, Piedade, Dorinha, entre tantos outros que não vou mais citar nomes para não correr o risco de esquecer de alguém...
 

E o ato de comprar pão virava rotina. A gente dava as cartas no jogo da vida, reinventando o dia-a-dia, unindo no mesmo espaço alimento para o corpo e para alma. A gente idealizava projetos de vida, pão e poesia.

A gente empacotava biscoitos, embalava nos saquinhos de pão nossos sonhos, que eram diversos, nós estreantes de um mundo não muito distante da gente, o mundo do sonho, do pão e da poesia. Recordo-me que a Dorinha Tomaz incentivou-me a ler "Menino de Engenho" e outras tantas obras. Ela trazia a literatura para o cotidiano, para a leitura à mesa, ao balcão da padaria, para me aproximar do mundo não me distanciando do hábito de ler.

Os livros me chegavam às mãos com a simplicidade do pão, unido ao corriqueiro. Ali a gente fazia dos deveres de casa, as lições de vida. Como eu não tinha dinheiro para comprar os livros indicados na escola, meus amigos se reuniam e adquiriam os livros para mim. Em troca, eu devorava os livros, para 'auxiliar' meus amigos na hora "h" das avaliações, provas e outras aferições.

A gente ocupava o tempo embalando biscoitos e, de passatempo, senta-se nos bancos da padaria, nas cadeiras, nos tamboretes, na mesa forrada por toalha de mesa salpicada de farelos de pão. Ali a poesia ampliava seu alcance envolta pela ludicidade e pelo improvável: encontrar poesia na repetição automática do embalar de biscoitos, bolachas, sonhos e pães.
 

Ocupando a vida com trabalho, a empacotar pão e a embalar sonhos, a gente se esbaldava em fazer valer o nosso cotidiano. Hoje a gente se espalhou, tomou diferentes rumos. Mas nós estamos a fazer a nossa parte, como parte da vida que é, para todos, adquirida com muito suor, mas não cruzamos os braços às adversidades. Estamos na luta, estamos na lida. Agora circulamos pela vida desde mãos finas a calejadas pelo trabalho duro, transformando o banal em momento singular, pouco importa, o que nos orienta é uma força divina, é essa Força Maior que vem do alto, é o que nos basta.
 

Um dia sei que não estaremos mais aqui. Mas isso já é uma outra história que será contada adiante, quiçá, por nossos filhos e gerações futuras. 

De resto, por ora me é gratificante dizer: o que seria da vida sem pão e poesia, o que seria do sonho?

Autor: João Ludugero

domingo, 11 de abril de 2010

ÁGUA VIVA 

eu tenho um coração 
que bate descompassado
eu apanho calado
ele bate disritmado
eu insisto em escrever
eu escavo, apressado,
eu lavro palavras,
não me canso disso, 
pois sinto o que escrevo 
escravo, escavo veios,
Procuro raízes

consabido é 
que só depois 
de chegar no mar
é que um rio encontra repouso.
esse rio não morre, 
apenas  soma  suas águas 
às do mar, aberto,
é quando as águas se misturam
para formar um só mar,
e somem no mar, 
aceleradamente 
só pra ser maior, imenso

tornando-se oceano,
além de todas as barreiras
do inferno

assim é meu coração 
nada pacífico, intenso
curso de um rio 
que sacrifica sua identidade,
mas realiza a infinitude, 
de ser mar
que se dana a bater, cativo,
embora desregulado

embora 
fora do ritmo preciso, 
mas sem nenhum medo 
da morte súbita, de tal sorte
sem temer virar mar,
na unidade de ser teu.

tu que me levastes
ao caminho das pedras
ensinando-me 
como um rio novo, 
afluente de mim,
que todo meu ser deságua 
no mar de um amor
de um amar
sem fim...

autor: João Ludugero

sexta-feira, 9 de abril de 2010

VÁRZEA, 36°
 
o sol está mais perto
o sol está a pino
o sol está sempre lá
o calor no batente
o sol está quente, ardente
com toda razão 
duvida o padeiro
teria a vida se tornado 
um inferno no Vapor
ou estaria o forno da padaria 
mal regulado?
 
tempo quente
diga-me lá, oh, seu Plácido Nenê Tomaz,
diga-me lá, oh, Tomaz Neto,
quando é que São Pedro apóstolo
vai derramar aquela chuva
para fazer ainda mais florida a nossa Várzea?
 
autor: João Ludugero