Alguns já é alguma coisa,
quer dizer nem todos, mas há quorum
mesmo que sejamos 'nós' em minoria.
Ainda assim como não senti-la,
dia-após-dia, a escorrer na veia?
Aprendi a ser mais completo
ao contemplar as coisas simples:
árvores, flores, pedras, bichos.
Comecei a viver mais com sentido,
ao consentir-me apreciar a poesia
que existe aqui, acolá dentro
e até ao degustar a doçura
que há numa simples bacia
repleta de mangas maduras!
E até nas frutas bicadas
pelos passarinhos...
Gosto de poesia –
isso só me faz bem.
Também gosto de manjar a massa,
gosto da feitura do pão, das regalias
dos sonhos aos bons-bocados,
gosto de papos de anjo,
sem bancar o santo que nunca fui.
Gosto da boca, de tocar o céu com a língua
da lisonja de tecer versos e da cor azul,
gosto da tarde amena molhada de orvalho,
gosto de me deixar ao relento
a beber sereno o gosto da maçã
que me embriaga de quereres,
gosto de ver um cão a me fazer festa,
abanando o rabo de contente.
Nesses prazeres vejo poesia –
mas o que é a poesia?
Defini-la não me cabe. Não. Isso não.
Algumas respostas vagas já foram dadas,
e quantas 'indizentas' vezes,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um paraquedas providencial
ou um corrimão que me dá amparo.
Sou poeta, gosto de ser assim,
e assim me vou a ter/ser a lida,
carecendo mais poeta ser,
menos ter que ser do/ente, apenas.