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quinta-feira, 30 de junho de 2011

"O BARBA-AZUL"

Eu careço ir ao fundo do poço,
Quero ir com o balde
Dependurado
Descer junto à corda da roldana.
Quero ir chafurdar
A água lá no fundo,
Bem lá do fundo do fosso,
Sentir a tempestade alta a passar
A ganhar outros ares e se evolar
Nas asas da ventania.
Que venha o turbilhão, de súbito,
Mas que seja único, sem túnica.
Que me encharque toda alma troncha.
Mas depois me traga de vez a calma,
O fio e a meada a arrematar os acordes
Do meu coração desalinhado em dó.
Tudo por culpa de mais um amor que matei,
E que ora me deixou de queixo caído,
Boquiaberto, até botei a barba de molho.
Mas fazer o quê, me diga, se outro vai chegar?
E assim vai pintar outras cores,
Porque esse danado do amor,
Apesar das perdas e danos,
Vale a pena vivê-lo de novo,
E por ele, tantas vezes, perder a cabeça.
Acho até que esse danado do amor
Tem muito mais que sete vidas.
E haja fôlego!

terça-feira, 28 de junho de 2011

ESMOLA PARA SANTOS

Apesar da modernidade e da tentativa de globalização,
Na minha Várzea ainda tem dessas coisas.
Sim, ainda sobrevivem ritos e costumes, ao vivo e em cores,
Mormente nos dias que antecedem as festas dos santos.
São novenas para Nossa Senhora Desatadora de nós;
São simpatias e promessas para Santo Antônio;
São fogueiras e animadas quadrilhas para São João, 
Folguedos e procissão para São Pedro apóstolo, 
Este que é santo padroeiro mais festejado do lugar, 
Sem contar as quermesses para outros tantos santos.
 Cansei de encontrar pelas ruas e becos da Várzea e adjacências 
A incansável Dona Rola, ou Maria Batista da Conceição, 
Ela que era fervorosa devota de Santa Luzia, 
Carregava a imagem e/ou quadro de moldura estampando
O retrato da santa que trazia os olhos num prato 
E na outra mão a esperança erguida numa palma verde.
Dona Rola rolava pelas quatro bocas, batendo de casa em casa,
A suplicar esmola para a festa da santa homenageada da vez. 
Lembro-me de Dona Rola 
Ou simplesmente Rola, como insistia em ser chamada.
Era assim que povo a conhecia,
Era assim que o povo a admirava: ROLA. 
Mas não é a rola que estais pensando. 
Não é aquela pomba, a fogo-apagô. 
Apesar de pequena, achava-se bonita e ousada. Era isso ....
O que mantinha dona Rola de pé era a vida que ela levava.
Arrebitava o nariz e partia para a labuta, sem lamentação,
Com garra, determinação e o sagrado prazer
De fazer bem feito seu ofício.
Ela era assim. Filha contente da terra agreste. 
Dona Rola saia do Itapacurá para pedir esmolas,
A léguas e léguas incansáveis, destemida, ela mais parecia 
Que botava sebo nas canelas, e pernas para que as queria.
Para receber os donativos para a festa de Santa Luzia. 
Era assim que se sentia feliz angariando oferendas, 
Frutas, grãos e até animais
Que seriam vendidos para embelezar a festança.
Dona Rola sentia-se a mais rica das criaturas,
Nunca chorou ou passou fome pelo caminho.
Não sabia o que era tristeza, esquecia-se das dores
E nessa lida aprendera que, apesar dos pesares,
A vida é bela, ainda mais quando botava flor no cabelo
E usava aquele vestido novo de chita pra ver Deus,
Para louvar a Deus mais de perto. E se sentia grata,
Porque dava pra ver a felicidade nos seus olhos de festa,
Ela no meio das crianças a soltar rojões e fogos de artifício
Que se alastravam pelo chão da Várzea 
Fazendo a noite virar dia
A alumiar os céus
Numa chuva de prata.

domingo, 26 de junho de 2011

UM SALTO MUITO BAIXO PARA ARRANHAR O CÉU

Que há isso há.
Ressalte-se 

Que há saltos e baixos.
Há saltos altos e muito baixos.
Arrasantes!
Verbis gratia:
Como foi o caso do pobre Sabino,
Homem rico, desses do tipo trilionário,
Mas que não dava furo em jornais ou mídia.
Decidiu, pois, um dia roubar a cena:
O sujeito subiu nas tamancas, e furioso,
Visitando seu alto edifício, deu um voo rasante.
Mas não tendo asas (coitado, esqueceu-se disso),
Escafedeu-se numa queda-livre
Em prol de sua amada, que, exigira o ato,
Digo o salto, em nome de um tal amor próprio
Jogado fora, do topo do arranha-céu
Empurrado ao fosso do abismo:

 Plaft, pluft!
Era uma vez Sabino que se desencarnou
Presente num salto muito baixo,
Tudo porque levava uma vida de mentirinha.
Até que enfim estampou capa de jornal da tarde, 
Em letras garrafais:
HOMEM SE ATIRA DO SEU MAIS ALTO EDIFÍCIO,
COMETENDO SUICÍDIO, NUMA 'PROVA DE AMOR',
DEIXANDO UMA FORTUNA INCALCULÁVEL.


Ele só tinha isso. 
Pobre Sabino!

terça-feira, 21 de junho de 2011

DO MAMULENGO À VENTRILOQUIA (A MÃO E A VOZ EM LINHAS DE POESIA)

Eu escrevinho a sentir o mundo
Eu me bulo em movimento e graça 
Causo rebuliço público na praça 
A bordar sorrisos, encarnado em pano. 
Sou fantoche, sou ventríloquo,
Sou aquele que sabe falar sem abrir a boca
De modo que mudo de tal vez a voz
Que esta parece sair de outra fonte diversa.
Ledo engano, eu sou o dono da voz. 
Posso ter várias vozes.
Minhas várias enviesadas vozes.
Em tempo. Tempos nublados ou com sóis.
Várias vozes sem mover um lábio sequer.
Eu arregaço as mangas ao diálogo.
Eu abraço emoção ao inanimado marionete,
Dou vida ao morto-vivo, abraço o corpo. 
Faço gestos ilusórios com a mão 
Ao peito, uno versos adentro no ventre, 
Percorro o sagrado e o profano. 
Finjo ser o outro do outro rosto tingido 
Me visto tal e qual fulano de tal
Banco ser sisudo beltrano sem açaimos,
Quando ressurjo, exsurjo-me num lúdico sicrano.
É preciso ser boneco e homem, palco e praça 
Ao projetar-se na voz do outro,  
Que se ajeita nos trejeitos do ventríloquo. 
Sou poeta mamulengo, com honrarias,
Envolto no corpo de pano, leve e solto.
Se me perco no fio da meada, eira e beira, 
Desfio palavras do novelo 
Declamo visceralmente dentro do alto 
E as letras costuram meu poema,
Cingindo a instável face do boneco 
De cara e boca pintadas a retratar, de pronto, 
A lucidez, a loucura, o drama e a comédia
Do universo humano sob o disfarce que invento.
Quer saber, sei ser valente, animoso, de gentil presença
E a poesia foi o que me fez ser assim, senhor do meu nariz!
Logo posso ser o que eu quiser. Duvidas do meu intento?
Só te digo uma coisa, em alto e bom som:
Não sou de Deus a obra perfeita!
Nem tenho nas vísceras o segredo da matéria
O que tenho são versos entranhados

Pulsando na artéria, latejantes,
Querendo sair, girar o mundo 
Que rodopia em meu peito de poeta!

SONHOS NÃO ENVELHECEM...

Olá, meu querido velho!
Como vai minha velha!
Assim os chamo com todo carinho
Ao vir aqui buscar inspiração
Para escrevinhar este poema.
E inspiro-me, não apenas
Em rugas e marcas,  
Não apenas em faces encarquilhadas,
Não apenas em respeito
Aos teus cabelos grisalhos,
Mas na vontade de bem-quereres
Continuar a viver a vida!
Cadê aquela ávida chama que inspirava emoção,
Que vertia da tua alegria de viver em plenitude?
Apesar dos pesares, da tua mão impaciente e cansada,
Apesar das agruras da lida, dos anos idos,
Quem foi que disse que não se pode inspirar
Nessa vontade de ainda viveres, cada vez
Mais querendo nos fazer aprender convosco,
Que muito ainda têm para nos ensinar,  
Assim trocando experiências.
Não esquecendo de que um dia
Também chegaremos lá.
E que lá no final das contas, de certo, 
Vamos querer sim poder usufruir
Dos dividendos de uma vida digna
E ser respeitados como pessoa.

Portanto, procuremos ver o idoso 
Tal qual aquele beija-flor
Que poliniza a sua experiência de vida
Em cada um de nós.
Então, deixemos esse colibri continuar
Este bonito trabalho, valorizando mais 
Nossos beija-flores e com isto,
Certamente, tendo uma vida mais saudável
E repleta de recordações.
Para que num futuro próximo possamos
Chegar a ser um beija-flor amado por todos,
Um pássaro ainda cheio de garra e, por que não dizer,
Traços de juventude dentro do peito a sonhar, 
Porque os sonhos não envelhecem,
Apenas murcham como uma flor
Esquecida num canto do jardim.
O idoso precisa ser respeitado,
Preservemos, pois os nossos beija-flores,
Cuidando do nosso jardim com mais esmero.
Quem sabe assim não nos sobre apenas o consolo
De virmos parar num desses 
Abandonados abrigos de velhos!

domingo, 19 de junho de 2011

DESVARIOS

Meu amigo Juca
Como gostaria que ele 
Parecesse um João-teimoso,
Desses que cai-levanta, cai-levanta 
E ainda equilibrado fica de pé.
Ele prefere querer por trazer 
Um triste olhar fixo pro fundo do peito.
Desses de amor findo, de alvo desfeito, 
Caos de mundo desabado, 
Quando sobra uma dor pungente do tipo 
Que quase provoca aneurisma no coração da gente.
Ele se prostra a fitar o fundo do poço,
Querendo descer junto ao balde,
Com corda, roldana e tudo,
Dizendo nunca mais beber dessa água
Sem antes pintar uma certeza.
Sua pena se torna ainda maior porque
Pensa que o amor é sempre dor sobre a mesa.
Enxugue já essa lágrima, menino, venha brincar! 
Quem foi que disse que o amor é perfeito?
Se um amor se quebrou, ó rapaz,
Se o leite se derramou, partiu-se o vidro,
Não leve seus cacos tão a sério, ao impulso
De querer se matar só por isso. 
Veja-se capaz de arrebentar a corda que te prende,
Não seja mais um elefante amarrado ao piquete
Por não saber da enorme força que tem
Para se desvencilhar do castigo imposto.
Deixe esses cacos pra lá, tenha modos!
Venha para a surpresa do porvir. 
Atire outras garrafas ao mar...
Às vezes para ir ao mar, 
Até um rio muda de leito!

sábado, 18 de junho de 2011

A PEQUENA DALILA: FOME DE AMOR POR TERRA

Dona Dalila, minha avó paterna,
Eis a mulher mais rica que conheci…
Criou meu pai e mais seis filhos dentro da Várzea,
 Onde nasceu, casou duas vezes e cuidava da terra.
Ela valia por duas ou mais, dessas mulheres
Que enfrentam a lida sem medo do bicho-papão.
Era mais fácil ela papar o bicho,
Pois nunca teve medo de assombração.
Empunhando seu terço azul de contas e,
Com sua reza forte e rosário, 
Ela tinha a força de Sansão, com fé
Botava cabresto até em lobisomem,
Se um lhe aparecesse pela frente a desafiá-la,
Oriundo dos caminhos dos espojadouros.
Coitado do lobisomem!
Ela não tinha medo disso, não.
Destemida, afiava o punhal nos dentes, se precisasse.
Minha avó tinha menos que um metro e sessenta,
Mas era de uma coragem sem tamanho.
Era dessas que nunca levam desaforo pra casa,
Partisse de quem fosse, não media esforços,
Quando se pensava em plantar o milho,
Ela já estava com o fubá pronto há muito tempo!
Passei minha infância a brincar em sua casa,
Feito um borrego solto no sítio, 
Debaixo das goiabeiras e dos pés de caju.
Admirava seu gosto de meter a mão na terra:
Ela gostava de cultivar algodão,
Feijão, milho e mandioca.
Nem precisava muito de dinheiro.
Ela tinha mais que isso: guardava sementes,
Trazia a mesa sempre farta.
Ela tinha um caso de amor com a terra,
Amor que nunca lhe deixou na mão
(Desconfio que foi daí 
Que aprendi a ter fome por terra.
Escavo daqui e dacolá, escrevinho 
E acabo lavrando Poesia).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

BARRO PARA SANTEIROS

Um sopro de Deus,
E, por encanto, 
Do barro fez-se o homem 
E o homem feito ânimo
Criou vários credos
Várias casas
Várias mesas
Vários altares-mores
Um andar 
Uma andança.
Cuidado:
O santo é de barro!
Um andor
Uma imagem de santo
Uma procissão
Pra se chegar a Deus. 
Em cada canto tem um santo 
Em cada santo tem um homem 
Em cada homem quantas cabeças
Em cada homem tem um santo 
Em cada canto tem uma reza
Em cada reza um juízo em ritual
Cada cabeça, cada sentença
Em cada reza um bálsamo
Em casa bálsamo uma flor
Em cada flor uma promessa
Em cada vela um ardor
Em cada mesa a fome é acesa:
Ou falta  
Ou farta pão.
Enquanto isso...
Assim é assado
O pão nosso de cada dia.
Canto homem santo pão
Mesa posta num universo diverso. 
Indago-vos como e até quando consumir 
O pão que o diabo amassou e não comeu?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

PUXANDO A CIRANDA INTERIOR - CONCEDE-ME ESSA DANÇA?

 ‍Desde que eu era era menino
Eu já sonhava grande
Com essas radiantes estripulias.
Eu já avisava lá em casa:
Ó, minha mãe, quando eu crescer
Quero ser mestre de ciranda!
Sonhava em comandar toda aquela animação,
De tirar os cantos, de tocar o ganzá
De botar ordem no folguedo
Ou apitar minha própria 'arruaça'.
Queria poder enfeitar o salão e o terreiro
Como se fosse festa de São João,
Eu a pedir a mão da faceira Lia, 
Diante de uma imensa fogueira na rua.
Mesmo que fosse só de brincadeira,
Mesmo que fosse de vidro o anel-cor-de-fogo 
Que um dia eu sonhara pra ela.
Eu queria uma grande festança, 
Sem data nem hora para acabar o furdunço.
E a todo vapor os instrumentos a tocar
- ganzá, bombo, caixa, cuíca, pandeiro
Sanfona, zabumba e tarol.
Queria improvisar cantigas
Ou mesmo canções em ritmo de ciranda.
Ah, como eu queria, e nunca deixei de bem-querer isso.
Hoje eu cresci. E ainda acordo sonhando:
‍Ainda quero dançar pra valer.
E‍, neste exato instante, fecho os olhos
E me atrevo a um passo de dança. 
Estou de mãos dadas com a moça Lia,
A cirandar como se nos acompanhassem as ondas do mar.
E nós a girar-girando a vida com singelos versos,
Ao unir versos vou puxando a roda do tempo,
Sacudindo esse mundo a girar, a girar.
Vou habilitando o corpo nesse ritmo vital,
Vou me permitir uma dança a mais,
Vou deixar a Poesia me levar, passo a passo,
Vou ganhar o mundo nos braços 
De quem souber embalançar   
Meu coração cirandeiro, 
Ou a quem mais couber o dom 
De conceder-se ao brilho dessa dança!
Quem se habilita a cortar a fita inaugural
Pra fazer triunfar essa festa interior,
Fazendo o mundo inteiro rodopiar
Desabando a tal felicidade 
Dentro das nossas cabeças?

POESIA EM TEMPO DE PLANTAR BATATAS

Lá na minha Várzea,
Quando é tempo
De plantar batatas,
É preciso lavrar a terra,
Abrir leirões, sulcá-los,
Fazendo o chegamento
De terra às estacas,
Completando-se o plantio
Com a enxada, revolvendo a terra
Para que fique mole e fofa,
 
A esperar pelas primeiras chuvas,
Quando a água se entranha
Mais facilmente no seio da terra.
E com um bom grelo, em carreirinha,
Deita-se um punhado de ramas
Afastadas umas das outras,
Tapando os regos com mais terra.
Agora é esperar que o broto
Venha à luz do sol reverdecer.
Daí, resta capinar,
Cuidar com afinco,
Retirar as ervas daninhas,
Regar, afastar as pragas e o mato
Até chegar a hora mais esperada
De arregaçar as mangas,
De arrancar as batatas,
E encher os balaios e os caçuás,
Que chegam a fartar a mesa
De todo bom varzeano,
Em bolos, babaus, festas
Doces e mais doces
De batatas-doces.
Doces lembranças
De um tempo lindo,
Um mágico tempo
De plantar raízes,
Onde até a mais simples lida
Vira modesta e doce poesia em safra.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

QUE NEM CARANGUEJO

Empresta-me tua carapaça,
Pois no amor vou cravar as patas!
Se por acaso, chegar a perdê-las,
Tem nada não, é um meio de defesa!
Elas se regeneram, 
Nascem outras no lugar.
João Ludugero
O medo de amar
Impõe travas ao peito.
O coração encouraçado
Mais parece um caranguejo.
Anda de lado, debanda,
E para trás, com medo,
Só sabe recuar, recuar...
Convencido de que o tempo
Transmuda em nós o desejo,
Sigo na lida, avanço destemido,
Há dias em que imito o crustáceo,
Se há riscos, enfrento-me primeiro
Meto o pé na lama mangue a dentro,
Desengonçado, caranguejo-me. Por que não?
Recorro ao chão lamacento,
Nobremente ergo gesto evoluído.
Abro os olhos embaçados, miro longe,
Tenho nas mãos armadura espessa,
Me articulo para encarar o amor.
Depois do atoleiro, estou aprendendo
A me virar sozinho. Disposto, vou em frente,
Não fraquejo. Deixo vir os dias futuros, incertos, 
Com seus passos tenazes, sabe lá Deus!
Pois na arte do versejo, escudo-me.
Tenho lá as minhas manhas.
Sou forte, tenho traquejo,
Não vou mais encalacrar-me,
Comichando-me nos medos.
Amar de novo, eu consigo,
Afinal eu sou da terra
Do prudente desertor. 
Ó meu caranguejo uçá,
Quero fazer como fazes,
Saindo do frio fosso da lama,
Careço lavar a alma,
De frente e verso,
E até pelo avesso, inteiro,
Quero aprender a ser forte.
Nas lutas do amor exposto,
Quero aprender contigo,
Amanhã não, hoje mesmo.
Empresta-me tua carapaça,
Pois no amor vou cravar as patas!
Se por acaso, chegar a perdê-las,
Tem nada não, é um meio de defesa.
Elas se regeneram,
Nascem outras no lugar.

terça-feira, 7 de junho de 2011

inCONFIDENCIAL: DIA DOS eNAMORADOS


Prisioneiro em LIBERDADE inCONDICIONAL
Dia "d" eNAMORADOS: a liberdade que me olha no espelho é a mesma que me enamora todo santo dia-após-dia!
  Pronto. Já decidi. Já me arranjei:
Eu vou passar o dia dos namorados
Eu comigo mesmo, desprendido.
Cara, estou de cara comigo no espelho!
Aprendi a falar com meus botões,
Calado aprendi a pensar alto!
Eu estou precisando ficar a sós,
Sem esse negócio de cobranças ou dotes,
Nem me sentir moeda de troca ou barganha,
Aceitar 'mea culpa' sem perder a cabeça.
Careço amar meu eu do jeitinho que ele é
Numa iluminada introspecção.
Mais turbando a mente
Que de costume, me pego a divagar,

Alivio  o peso dos ombros, relaxo.
Me faço em caras e bocas, gargarejo.
Eu me zombo. Há tempos que aprendi 
A fazer gozação de mim mesmo.
Não preciso de pré-datados
Para me presentear,
Mando-me flores.
Estou certo de que vou achar
Um meio sadio de cometer loucuras,
Sem precisar usar camisas
De força ou de vênus.
Porque eu já me enamoro.

Quando estou de
'saccus scrotalis repletissimus', 
Canto e danço comigo mesmo!
E consigo chegar ao clímax,
Folheando estrelas!
É o que tenho pra hoje,
De presente para mim.
  Fico à vontade, afrouxo a gravata,

Me presto socorro, aperto o cinto.
Desnudo-me em domicílio,
 À torta e à direita,
Ao vivo e em cores no ar
Num dia "d" enamorado
Que é todo santo dia:
Eu tenho amor próprio
Que não me deixa na mão,
Que não me ganha pelo estômago
Nem me aluga pela barriga,
Nem me põe coleira de estimação.
Esse Amor, num simples 'toque de me dás', 
Ganha-me inteiro, doa-me,
Eu já me entrego em potencial,
À primeira vista, num piscar de olhos.
Porque a liberdade que me olha no espelho
É a mesma que me enamora, de fato, 
Repito: todo santo dia-após-dia!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A DOCE COR DO PARAÍSO

 De que cor que era 
A rede de algodão
Que se armava lá no alpendre
Da minha casinha branca
Que ficava situada ali na Várzea,
Bem ali na rua das pedras 
Que escorregava até o rio Joca?
Tinha a mesma cor da farinha crua
  De fazer escaldado de leite de cabra e beiju,
Que o guri tanto gostava de saborear
Tanto assim que, muitas vezes, até achava 
Que estava degustando a lua redonda
Em forma de tapioca recheada
No coco e na manteiga-de-garrafa,
Deitado sob a brisa que balançava a rede
Resserenando ao relento,
Como se fosse adormecer no poente,
Numa tarde espreguiçadeira 
Do tempo que não havia ferrolho nas portas
Que não se fechavam bem.
Não precisavam de trancas!
Nem as janelas careciam de tramelas,
Pois se abriam sem esforço nem alarde,
Apenas com um simples assobio do vento.
Porque ali a gente estava seguro.
Ali a gente se completava à paisagem
E se via contente bem-se-querendo  
Sem caçoar da sorte,
Batendo no compasso da vida, 
Feito um menino travesso com poucas vestes
Mas obediente e feliz,
Assistindo a tudo, às claras,
A comer sua bacia de pipocas,  
Sem arengar com as horas.
E para não perder aquele costume,
Para que o coração continue a bater,
Ora me brinca este moleque 
Com versos sem rima, 
Mesmo que seja só para não sair
 do ritmo que lhe chama 
Ao interior do coração,
Ao soar das cores vertentes
Da sua amada Várzea das Acácias,
Num doce olhar inarredável sobre 
Esse pedacinho de paraíso que existe, 
 Onde ele leva a alma para tomar banho
E mergulha fundo no azul 
Que lhe dá firmamento
Nesse lindo voo, 
Sem tirar os pés do chão nascente.