Seguidores

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MARIA DO CARITÓ


A moça se debruça
no parapeito da janela,
fita o horizonte escarlate 
e se embevece de sonhos,
destramela promessas e anéis,
guarda sedas, meias e traças,
se veste e se enfeita de tranças,
sem uso, esquecida no caritó,
coleciona riscos imaginários
e ainda mais se tranca em frascos 
de perfumes guardados intactos, invicta,
rente à visão da velha ponte
que emenda a solidão da rua,
procurando chegar a lugar nenhum,
escrevendo cartas sem destinatário,
afastando indizíveis desejos.
refazendo promessas a Santo Antônio,
que permanece de cabeça pra baixo
enfiado num pote de água benta... 
E a moça se ajeita na janela às escâncaras, 
balançando bruscamente os brincos
na esperança de ser vista bela
usando um pingente de lua
com seu nome gravado
como que a reluzir o vazio
da multidão que anda só,
orando pelas quatro bocas,
cortando impulsos aos punhos,
mais turbando dissabores
onde nuvens carneirinhos se esfiapam
num vai-e-vem de acordes,
num vapor de fim de tarde
e no lampejo-norma habitual
onde sobeja a solidão dos nichos.

sábado, 29 de setembro de 2012

SÓ PRA DESOPILAR


Pelo avesso,
Eu trago um pouco de nós
Desatados, sem cortes 
Um pouco de tudo 
Que somos 
E do laço que perdemos 
Pelos vãos dos dedos, 
Pelos nãos dos medos, 
Pelas mãos dos ledos, 
Pelos sãos dos credos; 
Pelos tantos arremedos 
Pelas línguas estiradas 
Dos dias de tédio, 
Pelas bulas prescritas 
Pelos rótulos sem remédio 
Pelos unguentos em placebos 
Pelos pelos das ventas, 
Pelas tranças no cabelo 
Pelos poros, pelos suores 
Pelos goles tragados a seco 
Na esquálida esperança 
Das garrafas vazias nos cantos. 
Porque ainda tenho pés 
De moleque medonho 
Ainda não enferrujei as rotas 
Nem as rótulas dos joelhos arteiros, 
Ainda pretendo ir ao encontro do tempo, 
Ainda tenho um braço destemido, 
Ainda arregaço contente  
As praças, as taças e os brinquedos. 
Tenho cartas explícitas nas mangas, 
Não careço de camisas-de-força 
Nem quando tentado ir a Vênus. 
Mas, se me dou ao uso de coletes à prova de balas, 
Prefiro os de hortelã ou de anis-estrelado. 
Eu sou arauto de palavras benditas 
Que desopilam corações partidos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

AS MAIS BONITAS MARIAS


Minha Várzea é pequenina
Fica ali sob o Vapor
No Vale do rio Joca
São Pedro no topo está
No Comando das chaves
Que protegem esse lugar
Vige, Maria, como tem Maria 
A viver nesse lugar abençoado
Maria destemida feito varzeana
Daquela que desde cedo
Faz o cultivo do chão
E a Maria semeadora
Que ajuda na plantação
Tem Maria lá no encontro da praça
Que é a tal sonhadora
Cheia de esperança e graça,
Tem Maria que cedinho
Limpa a rua com a vassoura
Tem aquela que ensina,
A Maria professora,
A Maria trabalhadeira
Rodeia feito pião
Tem a Maria de fé
Transforma a farinha em pão
E a Maria morena bendita
Com corpo de violão,
De nascença é tão bonita
Tão modesta e tão rica
Que até vestida de chita
Não se furta às cores, rouba a cena, 
Sabe ser bela na fita!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

HOSPÍCIO


Nem precisou 
De camisa-de-força,
Fui levado a nenhum hospício
Acho-me louco e viciado
Louco de amor pela vida
Desses de ir à lua 
Num piscar de olhos,
Enfrentar meus dragões
Doido de atirar pedras 
No espelho d'água do açude 
Só pra ver os espirais a circular 
Sou doidinho e viciado 
Nas pessoas que amo.
Graças a Deus,
Não sou normal
Nem careço de bulas
Nem placebos
Nem remédio
Agora é tarde pra ceder, 
Não tem remendo pro vestido
Só me resta aguardar e seguir,
Arremessar meus tédios, de cabeça,
Esperar que o mundo gire, revire,
Que tudo mude ou desabe 
Ou que eu exploda antes do fim do mundo 
Não quero ser poupado antes que tudo acabe 
Tudo indo na leva da enxurrada
Ou nas lavas do vulcão...
Ora sei que sou levado a ser eu.

QUE ÍCARO QUE NADA!


Ainda me resta a palavra que ecoa
da tua boca de seda em carmim
que me deixa lúcido 
que tanto me envenena 
que me acende o olhar 
a voar mais longe,
bem dentro do céu 
que me comporta
ao me achar e me perder 
na tua boca.
Dobro os joelhos consentido,
escavo, escrevo versos afoitos
deixo-me escorrer ao teu umbigo,
encolho os ombros a te servir
deito meus olhos, pra todo dia 
poder olhar o mundo e ver, 
por Santa Luzia,
rezo, faço da poesia um canto 
alegre esvoaçar de pássaros
atravessando a aridez do agreste. 
Quero mais sim,
hoje careço redobrar as asas, 
ser mais que um Ícaro, derreter a cera, 
sem medo de perder o juízo, apenas
ir rumo ao sol, girar bem alto e dentro...
Mas, se chegar a cair,  
prometo a mim mesmo, sem penas, 
estou pronto pra colar meus cacos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O DEDO DE DEUS. por João Maria Ludugero


Eu gosto de cheiro de mato,
De ver de perto o mato crescer;
Faz um bem danado escutar 
Essa coisa solta tão natural
De se deixar levar pelo vento;
Sentir a brisa tocar os pelos
Da venta, passar a mão  
Em volta das barbas de Deus, 
Inspirar-se 
Na ideia de dançar
Com Deus, na paisagem
Sentir essa força ventilar
Reinventando-se cria, de passagem
Cria aturando-se paciente
Na impermanência do ser 
Molde de Deus, 
Desenhado
E assinado 
Com as digitais dele.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A PARTIR DO EU


Minha cabeça acesa
Me amarra em liberdade
Desato-me os nós 
Solto pelo mundo,
Nada tenho a esconder 
Ensimesmado adentro
Muito ainda miragem no oásis
Por não saber me exteriorizar,
Mas já que estou no labirinto
Não deserto da raia, adiro,
Passo a correr afoito, cedo-me
De todos os lados atento 
Do centro à margem,
Apenas me acho à beira 
De dentro pra fora
Do umbigo do mundo, 
No que há
Para além
Do que há
Da porta à soleira:
A caça do oculto me leva
Das claras à gema, 
Fundura em superfície,
O mistério do amor longe
Sem segredos se achega
Perto de todas as coisas,
Ao alcance dos dedos ao fio
Da meada da mão de Deus 
Que me livra da mira dos medos!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

ADMIRÁVEL EMBOCADURA, por João Maria Ludugero


ADMIRÁVEL EMBOCADURA
(Poema dedicado à amiga Kiro Menezes).

Pelo vão, sou riacho
a receber tuas águas...
afluentas-me cauadalosa,
atravesso pedras e limos
-Mas onde tem vau neste rio,
para que eu possa atravessar?
passo a vau, vou fundo
sou rio a desaguar no teu mar,
num mar de emoções incontidas.
Vou juntando teus azuis, teus verdes
que dançam aos olhos de Deus
no solene baile que ele nos permite sonhar
sobre os sentidos acordados.
Tudo passa em verdade no cenário
rabiscado pelo sol que nos horizonta,
trançando teu cabelo ao vento...
E o vento uiva a te enamorar
ao longo do caminho, atrevido.
O vento penteia teu cabelo
e emaranha tuas tranças,
uma a uma, feitas na fita,
enquanto o mundo ofuscado 
gira em cena, pouco a pouco, no palco
e silencia sob os acordes
da tua incessante beleza.

domingo, 9 de setembro de 2012

POR SER DE LÁ DA VÁRZEA



Por ser de lá
Carrego nas asas do vapor 
Minha saudade que arde toda tarde
No emaranhado da minha sede de escrever,
Confiando ao peito minha vontade de viver,
Que corre o espaço profundo a pelejar a sorte,
Colhendo o dia na força do braço,
Sob o chuá da lajinha ao lajedo do gado
A pastar por riachos do mel  
Em sítios do maracujá aos seixos
Dando forma ao meu desejo de lá viver
Minha paixão maracujá,
Por umbus, trapiá, itapacurá a dentro
Percorro o leito salgado do rio Joca e não esmoreço,
Renasço assim feito capim grosso, 
Sou majestoso juazeiro  
No meio do agreste de verde sonhar, 
Onde aprendi a trabalhar a quimera,
Acordar ação em hora certeira, 
Antes do sol bater na cumeeira, a pino, 
Entendo a magia e os limites do tempo.
Meu poema é semente de horizonte:
Pede empreitada de sonhos,
Plantio, trabalho, esperança nova.
Sou varzeano e acredito na lida, 
Tenho sede e escavo fundo minhas cacimbas
Que acabam vertendo poesia na veia,
Que mina, que brota dos meus olhos d'água.

domingo, 2 de setembro de 2012

CAPIM, por João Maria Ludugero

Fiz meu roçado 
Lá no Vapor de Zuquinha
Fiz a poda, levantei leirões com afinco
Sob o sol a pino
Desses de esturricar a moleira.
Plantei milho, feijão 
E mandioca pra farinha
Deu capim,  que não foi plantado
Nem tratado, mas nasceu ali.
E cresceu com tanta força,
Apesar da coivara de antes
Que tanto maltrata a terra, 
Apesar da pujança da queimada
Com línguas de fogo, labareda,
Bastou a primeira chuva propícia
A molhar a Várzea do rio Joca,
Para o capim reviver.
Capim é feito a esperança do povo
Mesmo que arda sob as chamas,
Quando parece desaparecer, 
Ela não tarda a renascer, 
Brota das cinzas!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CENÁRIO


Pense bem, 
Gire com o sol a pino,
Ganhe ânimo 
Dentro do espaço cá fora,
Sinta firmeza 
No sonho em cores, 
Com os pés no chão rodopie, 
Se inteire ao contemplar 
O que te completa.
Não deserte do oásis,
Dê a volta nesse mundo de Deus.
Acorde, mexa-se, 
Dance ao vivo, 
Mesmo sem saber dançar
Surpreenda-se, 
Recrie-se, reinvente-se,
Pois no grande palco da vida,
Temos que ser bons atores,
Aprenda a ter sede na beleza.
Saiba que a dureza da lida
Não favorece amadores!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

TIC-TAC


Do relógio que me deste 
Soltou-se um cavalo
Sem rédeas, ele ora passeia 
Pela loucura das horas acesas
Salta ponteiro meio dia a dia
Enquanto bate a pino 
Todo santo dia inteiro.
Até deu de acordar meus olhos mais cedo,
 No desespero de perder as horas e a ideia.
Num átimo de segundo, de pronto 
Temo que ele se queixe, se avexe
E, saudoso da sua toada de costume, dispare
Retardando a catraca do tempo em desatino.
Quiçá ele volte a ser um cavalo que se preste 
A tempo de se mostrar partido ao meio
Sem ficar prostrado na lida, a pastar 
Sem escoras nem eiras, sem esporas
Bem na beira da represa 
Das águas verdes-musgo
Do açude do Calango, 
A 'tictaquear' o destino 
Que lhe ponteia.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

SEMPITERNO, UM POEMA ÀS ESCÂNCARAS


O poema todo se esparrama,
Se esfarela, quebra a massa podre
Gasta saliva, fere a língua, enrosca
Leva cuspe, chute, tiro, tapa na cara,
O poema enverga e empena, transfigura
Mas escapa bem apanhado a tempo
Passado a ferro e a fogo em brasa
Se transforma, se amolda, se liberta
Do idiota que o prende 
e o tortura sem trégua
O poema não é bula nem placebo,
Apesar de vezes parecer remédio
Mas ante o culto do paliativo
Moribundo, cala-se em coma
Mas se cura por se achar antídoto.
Diante dos arremedos 
da lida não se entrega,
Em face de mostrar a cara a gosto
E, diante dos fatos, mostrar a língua
Escancarando às brochuras do medo
Arredando o tédio que mata à míngua,
O poema renasce após descer 
ao quinto dos infernos
Levando mil anjos e demônios na garupa
Mas, diante da impermanência das coisas,
Do desassossego ao desgoverno, 
brota, aflora e sobrevive,
O poema não se preocupa, desde logo
Passa a ser eterno.

O VALOR DAS PEQUENAS COISAS (VALHO MAIS QUE TODAS AS PÉROLAS DO MUNDO)


Eu gosto de viajar no tempo, 
recordar das coisas boas da vida 
e dos momentos vividos ali 
na minha Várzea das Acácias. 
Comecei minha vida escolar 
no Educandário Pe. João Maria 
– eu tinha pouco mais de sete anos. 
Minha mãe fez uma bermuda azul-marinho 
e uma camisa de volta-ao-mundo branca, 
nos pés meias brancas e o famoso Conga. 
Todos os dias era tempo de sonhar 
cheio dos afazeres escolares.
Que saudades da professorinha Maria Fernandes, 
a dona Marica de Seu Otávio, 
que me ensinou a ler, a escrever e a aprender a tabuada, 
enfim a fazer conta da lida, tirando os nove-foras!
Pintávamos a manhã inteira. 
Quando não escrevíamos ou pintávamos, desenhávamos; 
quando não desenhávamos, cantávamos; 
quando não cantávamos, brincávamos; 
quando não brincávamos, comíamos 
a mais deliciosa das merendas 
preparada por dona Benedita Rosa. 
Aprendi que o que conta 
é nossa postura defronte das situações. 
Talvez esse seja o maior ensinamento 
que a vida me deixou 
- Ora vivo o presente intensamente. 
Busco me contentar com o hoje 
e descobrir as coisas boas 
que estão à minha volta a cada momento. 
Procuro me contentar menos 
com um possível objetivo 
a alcançar e me contentar mais 
com o caminho pra chegar até ele. 
Realmente, minha viagem é 
muito mais interessante que meu destino. 
Como não sou capaz de prever com absoluta certeza 
o que ocorrerá no próximo minuto e as coisas são como são, 
só me resta viver o agora e fazer minha própria História. 
Todas as pérolas que eu valho não seriam suficientes 
para compensar tudo o que minha mãe Maria Dalva, 
muitas vezes sem se dar conta, me ensinou. 
Mas o principal ensinamento de todos 
o mais precioso talvez seja esse, 
que divido contigo agora: 
Eu sempre soube desde cedo, 
porque ela me dizia com imenso orgulho: 
- Joãozinho, meu filho, nunca se esqueça disso,
você vale muito mais 
que todas as pérolas do mundo!

domingo, 19 de agosto de 2012

A VELHA ALGAROBEIRA, por João Maria Ludugero



E a professora plantou uma árvore
Bem ali no recreio 
Da Dom Joaquim de Almeida. 
Perto do muro, a árvore cresceu, 
Ganhou altura e ficou frondosa. 
Mais tarde, demoliram o muro 
Para expandir as alas da escola. 
Quiseram derrubar a algarobeira em flor, 
Mas a sábia professora 
Zilda Roriz de Oliveira, 
Munida do seu espírito 
Ecologicamente correto, 
Discordou desse ato insensato, de fato 
Abraçou a árvore, ganhou a causa. 
E a árvore ficou pra enfeitar a praça 
Do encontro levantada no centro 
Da minha Várzea das Acácias. 
Ora a antiga algarobeira 
Verdejante se embalança 
A cantar sob a brisa 
Que chega amena, 
Tornando-se cantiga a me ninar 
Ao cair da tarde 
Quando o sol se deita!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

SIRIGUELAS (UM POEMA DE DAR ÁGUA NA BOCA)


Plantei um pé de siriguela
Lá no quintal da minha modesta casa. 
Já vislumbro ele carregadinho de frutos
Começando a amadurecer, tão bonito,
Atraindo sanhaços pro meu jardim.
Mas que riqueza! 
Vou poder acordar cedo 
Pra adubar a terra, 
Cuidar da lida com avidez  
Só pra ver de perto brotar, reverdecer 
Meu pé de siriguela no maior carrego!
Só de pensar já fico com água na boca.
Quero me fartar, colhendo o dia com gosto 
Cheio de frutas verdes, amarelas
E vermelhas, vou me pendurar afoito
Nos galhos, alimentar minhas brincadeiras.
Já descobri que tenho alma de passarinho
E quero lá fincar uma vida inteira, de certo,
Escutando a vida a se morder com os olhos,
Livre e solto nas estripulias de menino
Encantado nessa cantiga regada 
Pela polpa amarela da siriguela,
Ao me derramar inteiro 
Em suprassumos e néctares
Pelas quatro bocas da minha Várzea!

POESIA: EU SOU DA TUA LAIA!

Eu faço poesia com a alma
Eu teço versos consentidos
Mesmo sem rima nenhuma. 
Sou poeta, já nasci assim 
Desde cedo que me reinvento, 
Crio, recrio o poema como quem reza, 
Baixinho eu grito dentro dos nichos 
Só pra dizer aos santos que nunca fui anjo. 
Escrevo palavras ao vento em desafio 
Só pra sentir o horizonte que bebo 
Só pra me achar assim oásis-meado, 
Sem matar a sede do que me excita a fio: 
Fazer poesia a torto e a direito, 
Sem a pretensão de ser cabotino! 
Bem sei que há muita gente nessa raia, 
Mentes conhecidas, 
Ou que querem ser conhecidas 
Como poetas, 
Talvez um bocado 
Seja genuíno 
E outro magote soe falso, 
Rondando o recinto sagrado da poesia, 
Tentando parecer autêntico. 
Nem preciso dizer 
Que sou verdadeiro, 
E que faço parte dessa laia, eira e beira, 
Que ainda acredita com toda força 
No verso solto que me liberta das algemas 
E que me faz viver de recomeçar, 
Reinventar-me a partir da poesia 
Que traço, a que me faz a cabeça pensar sério 
Mesmo que seja de brincadeira, 
Todo santo dia!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

VÁRZEA: LENDA DA PAIXÃO


Do Vapor observo 
O sol mergulhando no rio
E o Joca se lança 
Onde a vista alcança.
Vejo minha modesta casa 
Que fica lá em Várzea, 
Terra de Bita Mulato, anarriê! 
E das tisnas, espelhos, fitas e brilhos
De Mateus Joca Chico, ê boi da cara preta!
Seara de luz onde a liberdade me orienta,
Onde o horizonte beira o céu da paisagem 
De um eterno verão da poesia que invento 
Feita de andorinhas nunca sós a me levar,
Posto da lenda do carro encantado 
Ao luar do agreste
Donde pulsa a cantiga 
Que alavanca a paixão
Que aboia os anseios pelas quatro bocas
Que perambula pela rua das pedras
E ganha a rua grande de outrora, 
Sob as pegadas da mulher que chorava,
Mas agora sorri satisfeita, de flor no cabelo,
Faceira ronda a praça de encontro ao tempo
E encanta este amante poeta varzeano 
De pêlo nas ventas,
Que passa de relance 
A assanhar as tranças 
Das pastorinhas de Joaquim Rosendo,
Encarnando cordão da cor da alegria, 
Que tange a tristeza da vida dessa gente
Que ainda acredita na força da lida
Que canta seus versos infestados 
De amor e de esperança!

domingo, 5 de agosto de 2012

ALVARÁ DE SOLTURA (LIVRO-ME SOLTO)


Não careço 
de camisa-de-força
nem menosprezo 
a camisa-de-vênus,
mas preciso me vestir 
de uma poesia linda,
de uma poesia lida, 
de uma poesia advinda, 
vinda e vivida, passo a passo
feita da vida nua e crua,  
toda assim tecida na lucidez 
da minha loucura esplêndida.
Eu preciso de um alvará de soltura,
escrever e ler me solta a cuca,
livro meus bichos, sem algemas.