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segunda-feira, 12 de abril de 2010

PÃO & POESIA


Hoje, eu acordei e fiquei a pensar: algumas pessoas acham que a vida somente tem sentido para quem deixa uma herança ou um legado. Um registro qualquer sobre a terra. Bobagem!

Não há diferença entre deixar para trás uma escultura gigantesca, que paire sobre toda uma cidade e um simples livro - "Memórias de um menino varzeano"-, desde que ambos sejam capazes de um dia, no futuro, comover pessoas. Ou uma pessoa que seja. Nisso, com toda modéstia, me igualo a um artista. Sou um escritor. A meu modo deixo a minha obra de arte.

E por falar em memórias, não poderia deixar de aqui trazer, mais por uma questão de justa homenagem e reconhecimento, o nome de Plácido Tomaz de Lima, Seu Nenê Tomaz, que, justiça feita, figura entre as personalidades varzeanas, sem que eu esteja aqui rasgando seda ou puxando a sardinha para a minha lata. Não é isso. Mas o Pai de Terezinha Tomaz de Lima, sob a minha ótica, foi um grande cidadão da nossa terra.


Plácido Tomaz de Lima, homem detentor de uma simplicidade inesgotável e um grande e dedicado pai de família, justo, sensato e zeloso. E por que não dizer, preocupado com o bem-estar da cidade, da sua grande prole, sua descendência, o que ele sempre defendia, diga-se de pronto, com unhas e dentes, com denodo e honradez.

Só sei de uma coisa: Já não se fazem mais pessoas com a estirpe de Nenê Tomaz, digo, sem receio do acerto, homem de dignidade e destemor ímpar, que arregaçava as mangas e não tinha medo das agruras da vida. Nunca teve. Que exemplo, não é mesmo dona Tilde?

Eu me lembro muito bem, portanto, tenho propriedade em falar dele, pois cresci ouvindo suas tiradas inteligentes, a própria voz da experiência, um homem que acreditava na força do trabalho, que não media esforços para manter sua família unida e em condições dignas de bem viver, seguindo suas justificáveis cautelas e exigências baseadas no bom-senso. Ele sabia porque as coisas tinham que ser daquele jeito.


Ele nos ensinava, a seu modo, que a lei da vida é dura, crua, que ela nos cobra caro e suado e, se pisamos em falso e no escuro, a situação não nos deixa em condições favoráveis, vulneráveis, pois precisamos agir sempre e constantemente com responsabilidade, determinação e sensatez. Consabido que a vida nos cobra e o retorno sempre vem. Pode até demorar, mas vem. Precisamos fazer a nossa parte, com qualidade, respeito e vontade de fazer bem feito. A vida vale a pena, apesar dos pesares, do fardo. A vida vale mesmo "pitéu". Parodiando o nosso inesquecível Plácido Nenê Tomaz: "Essa menina dá um pitéu".

Tudo isso só me faz bem recordar. Ali na Padaria, a gente se reunia e não perdia tempo, a empacotar bolachas pequenas, bolachões, biscoitos doces e salgados, sequilhos, soldas, brotes, torradas e regalias, feitos de farinha de trigo. Eram balaios e mais balaios, de pão e poesia. E conversas jogadas fora. Prevalecia a amizade sincera, sem pressa, desinteressada, como se aquele ambiente saudável fosse uma extensão da casa da gente, um puxadinho.

Ali na padaria de Seu Nenê Tomaz, a gente ocupava a vida, lia, se atualizava, se informava de um tudo, desde geografia, conhecimentos gerais até a vida do povo, a vida alheia, sim, por que não? Dali saía de um tudo um pouco, estórias, pães quentinhos, balaios de roscas, conversas fiadas, biscoitos finos, contos, notícias fresquinhas, mídia, televisão, viajava o mundo todo, sem sair de Várzea. Pode uma coisa dessas? Até mesmo as lições da escola a gente fazia ali, as composições, os teoremas, a aritmética da vida.

Ali o forno de lenha, a fornalha continuava acesa, quentinha, aonde o 'Zé Pifani' preparava a massa do pão e enrolava os biscoitos, as bolachas, o trigo, a farinha. A gente não tinha mesmo pressa nenhuma. A esperança ficava mais acesa no restante do tempo, a gente lutava para que ela não se apagasse. E deu no que deu: a chama continua acesa, a gente nunca vai morrer de frio. Disso eu tenho certeza!

Ter conhecido e convivido com pessoas como Plácido Tomaz de Lima, confesso orgulhoso, com toda pureza d'alma, para mim, foi uma bênção, eis que, por graça e ação de pessoas de tamanha estirpe e respeito, vejo-me ora ostentando no peito honraria de alto quilate. Sou eu um escritor varzeano. Tenho memórias a escrever, tenho história para contar, de verdade, de gente-gente. História da minha Várzea querida.

Seu Nenê Tomaz foi um ser humano inigualável, de um espírito para cima, não tinha tempo ruim para ele, que fazia de tudo com a mesma simplicidade com que também organizava sua padaria, seus pães, sobre fornalha de pau de lenha, ali na subida da travessa Brasiliano Coelho.

Lembro-me que o seu passo arrastado e sua cara de semblante sisudo, sério, quando adentrava nos corredores da padaria, era a senha para a debandada. A gente corria ou ficava de bico calado. Por ele, a gente sentia o maior respeito e só falava de coisas e assuntos calcados no bom alvitre e no comportamento exemplar. Ele realmente era um homem cauteloso, que agia com prudência e seriedade, em se tratando das coisas da sua casa, da sua panificadora e da sua Lagoa Comprida. Isso é tudo verdade. Assim era a sua vida.

Hoje eu sou escritor. Mais um homem que aprendeu a lidar com palavras. Já escrevi e tive a ventura de descrever momentos singulares da minha vida, tecendo minhas memórias no papel. Continuo escrevendo e retratando pessoas e eventos que marcarão a minha vida para sempre. Já escrevi vários textos e artigos que pretendo publicar em breve. Sou um homem da palavra. Palavra. Palavras. Lido com elas. Trabalho muito com elas. Uso-as. Lapido-as, Aproveito-as. Cruel, descarto-as quantas vezes nas revisões. E as palavras salvas na 'bateia' viram frases, textos e muitas delas estarão estampadas no meu livro "Memórias de um menino varzeano".

Apesar de ser um homem que lida com palavras, me emociono ao tratar de pessoas que para mim têm um alto significado. Confesso, é nessas horas que a emoção me cala. Há momentos em que fala com mais intensidade o silêncio. Falo por mim. Eu, João Maria Ludugero da Silva, homem que lida com as palavras, não as teria, nesse momento, para manifestar os mais exaltados agradecimentos que me fervem no coração. Agradecimento a Deus por ter conhecido pessoas do calibre do povo varzeano.

Aproveito o ensejo para agradecer a todos os varzeanos que, mediante as memórias sobre a história da nossa cidade e nossa gente, acabo de realizar um grande sonho: escrever minha obra, o meu livro.

Permitam-me dizer-lhes: Vocês me deram o mérito de entrar na vida do povo varzeano para me tornar escritor, de verdade, para entrar no magnífico hall dos homens da letras e das palavras. Obrigado, meu grande povo varzeano. Muito obrigado!

E dentre as banalidades cotidianas, a gente chegava cedo para assuntar da vida: Éramos eu, Chiquinho, Terezinha, Piedade, Dorinha, entre tantos outros que não vou mais citar nomes para não correr o risco de esquecer de alguém...
 

E o ato de comprar pão virava rotina. A gente dava as cartas no jogo da vida, reinventando o dia-a-dia, unindo no mesmo espaço alimento para o corpo e para alma. A gente idealizava projetos de vida, pão e poesia.

A gente empacotava biscoitos, embalava nos saquinhos de pão nossos sonhos, que eram diversos, nós estreantes de um mundo não muito distante da gente, o mundo do sonho, do pão e da poesia. Recordo-me que a Dorinha Tomaz incentivou-me a ler "Menino de Engenho" e outras tantas obras. Ela trazia a literatura para o cotidiano, para a leitura à mesa, ao balcão da padaria, para me aproximar do mundo não me distanciando do hábito de ler.

Os livros me chegavam às mãos com a simplicidade do pão, unido ao corriqueiro. Ali a gente fazia dos deveres de casa, as lições de vida. Como eu não tinha dinheiro para comprar os livros indicados na escola, meus amigos se reuniam e adquiriam os livros para mim. Em troca, eu devorava os livros, para 'auxiliar' meus amigos na hora "h" das avaliações, provas e outras aferições.

A gente ocupava o tempo embalando biscoitos e, de passatempo, senta-se nos bancos da padaria, nas cadeiras, nos tamboretes, na mesa forrada por toalha de mesa salpicada de farelos de pão. Ali a poesia ampliava seu alcance envolta pela ludicidade e pelo improvável: encontrar poesia na repetição automática do embalar de biscoitos, bolachas, sonhos e pães.
 

Ocupando a vida com trabalho, a empacotar pão e a embalar sonhos, a gente se esbaldava em fazer valer o nosso cotidiano. Hoje a gente se espalhou, tomou diferentes rumos. Mas nós estamos a fazer a nossa parte, como parte da vida que é, para todos, adquirida com muito suor, mas não cruzamos os braços às adversidades. Estamos na luta, estamos na lida. Agora circulamos pela vida desde mãos finas a calejadas pelo trabalho duro, transformando o banal em momento singular, pouco importa, o que nos orienta é uma força divina, é essa Força Maior que vem do alto, é o que nos basta.
 

Um dia sei que não estaremos mais aqui. Mas isso já é uma outra história que será contada adiante, quiçá, por nossos filhos e gerações futuras. 

De resto, por ora me é gratificante dizer: o que seria da vida sem pão e poesia, o que seria do sonho?

Autor: João Ludugero

domingo, 11 de abril de 2010

ÁGUA VIVA 

eu tenho um coração 
que bate descompassado
eu apanho calado
ele bate disritmado
eu insisto em escrever
eu escavo, apressado,
eu lavro palavras,
não me canso disso, 
pois sinto o que escrevo 
escravo, escavo veios,
Procuro raízes

consabido é 
que só depois 
de chegar no mar
é que um rio encontra repouso.
esse rio não morre, 
apenas  soma  suas águas 
às do mar, aberto,
é quando as águas se misturam
para formar um só mar,
e somem no mar, 
aceleradamente 
só pra ser maior, imenso

tornando-se oceano,
além de todas as barreiras
do inferno

assim é meu coração 
nada pacífico, intenso
curso de um rio 
que sacrifica sua identidade,
mas realiza a infinitude, 
de ser mar
que se dana a bater, cativo,
embora desregulado

embora 
fora do ritmo preciso, 
mas sem nenhum medo 
da morte súbita, de tal sorte
sem temer virar mar,
na unidade de ser teu.

tu que me levastes
ao caminho das pedras
ensinando-me 
como um rio novo, 
afluente de mim,
que todo meu ser deságua 
no mar de um amor
de um amar
sem fim...

autor: João Ludugero

sexta-feira, 9 de abril de 2010

VÁRZEA, 36°
 
o sol está mais perto
o sol está a pino
o sol está sempre lá
o calor no batente
o sol está quente, ardente
com toda razão 
duvida o padeiro
teria a vida se tornado 
um inferno no Vapor
ou estaria o forno da padaria 
mal regulado?
 
tempo quente
diga-me lá, oh, seu Plácido Nenê Tomaz,
diga-me lá, oh, Tomaz Neto,
quando é que São Pedro apóstolo
vai derramar aquela chuva
para fazer ainda mais florida a nossa Várzea?
 
autor: João Ludugero 

segunda-feira, 5 de abril de 2010

OS BILROS

Lembro-me da minha avó Dalila,
tão terna, tão maternal
tão pequena, tão gigante
com seu terço azul nas mãos
com seus credos e novenas
tinha a força de Sansão

No alpendre lá da Várzea
da sua casa caiada
casa simples, casa farta
paredes de pau-a-pique, taipa
mais parecia uma rainha 
a tecer 
sobre a almofada, 
nos bilros,
suas rendas, 

suas prendas 
em curtidas mãos de fada
que exercitavam sem pressa
a mais líquida paciência

Eu ficava a espiar 
admirando o ofício
e até hoje escuto os bilros 
que têm sons de infância
tecendo a renda 

do tempo

lavrando minha poesia
com versos estou envolvido, 
lembrando de outras quimeras
das cores da primavera
da minha avó rendeira
que me ensinou 
desde cedo
a andar com fé na vida

tranquilo sigo adiante,
boto o pé no batente  
no alegre bater dos bilros,
e apesar dos pesares,
da vida não tenho medo

autor: João Ludugero

domingo, 4 de abril de 2010

EU NÃO ME RENDO AO DESAFIO


eu teço meus poemas
eu tenho meu tear, 
tenho minha vida,
ela trama minhas rendas
ela se borda em palavras
eu transbordo sentimento
eu adentro corações e mentes


versejo e não me calo no peito
tenho minhas mãos calejadas 
meus fardos, minhas pedras 
mas canto minha música
mesmo sem saber cantar
invento passos de dança 
e danço no silêncio, 
rodopio ruas e avenidas

eu traço o movimento
eu me curvo, lanço-me no espaço 
só para ganhar teu abraço,
cair na tua mão, sem medo
agarro-me solto 
e ela livre me conduz 
sem embaraços


piso nos teus pés, 
deixo-me levar no desafio
no compasso dessa dança
tuas pernas me enlevam;
e as minhas pra que as quero,
senão para aprender teu passo
e dar a volta no mundo?


Eu giro, divago 
bem sei que devagar 
se vai ao longe, e chego
nessa ciranda do  tempo
que me resta, de súbito,
percorro nossos sonhos


feito de prendas,  
meadas e finos tecidos
de rendas, vestes e fios
quando em seu ofício
de bailar no azul, 
vivo a dançar, dançar
sob o som dos nossos acordes

mesmo depois de findo, 
o poema não se finda 
e assim se veste de prendas,
reveste-se com versos
tingidos de um verde novo 
em vários exercícios
de renovadas esperanças


autor: João Ludugero.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

NAU-RAZÃO
  
lembro-me muito bem 
que a gente se caçava 
em tantas coisas
que a gente se achava 
meio perdido no tédio
e a gente ainda mais 
desperdiçava-se 
no porvir, nus passatempos
a divagar sem remédio

e a gente continuava 
alheios pelos desvãos
das coisas desprezíveis, 
meros entes sombrios
seres descartáveis,
seres humanos,
que nada!

foi aí que me acertaste 
em cheio na mosca, 
com um dardo astuto
mais que certeiro
no alvo, no cerne, na carne
e assim se abriu um clarão, de fato
e tudo ganhou luz e cor

de tal sorte, 
não pretendo mais
chorar meus barcos furados,
há tempos deixei de ser náufrago;
fui deveras salvo, minha tábua 
em tua operação boca a boca 

daí acreditei, de imediato

que havia uma saída, um beco
e acordei na tua cama, lúcido
não mais precisei 
atirar pedras na lua

nem de aspirina
nem de estricnina 
e cortar os pulsos, 
nem pensar!

justamente agora 
que preciso de norte,
minha bússola, em desuso,  
já se encontra viciada, não serve
então, vê se me empresta a tua,
a do teu coração, eu imploro
quiçá ele orientará 
validamente 
minha nau-razão

venha e pegue a minha mão,
ajuda-me a desapegar, 
a sair do casulo do nada,
ensina-me a nadar, borboleta, 
leva-me à terra firme, 
num preciso bote 
do teu olhar,  
tu que és minha 
estrela da manhã,
dona do novo 
tempo de despertar!

autor: João Ludugero









PROZAC 

Maria Joana tomava Prozac  
escorada em Beto 
varava a noite
enquanto Cláudia 
raiava o dia
Lucas nem dormia
eles não sonhavam mais,
e mais se perdiam 
do que se achavam
na selva urbana

de pedras na mão
de pires na mão 
na sala de estar,
tateando no escuro 
eles não tinham certeza
se bem ou mal se queriam,
identidade pelo avesso
dualidade no espelho,
ânsia entre prazer e desprazer

na corda bamba
ou tirando o coelho da cartola
qualquer coisa servia
qualquer luva cabia, 
até mesmo dar murro 
em ponta de facas
ou ser stand delas 

e essa gente tomava Prozac
e outros barbitúricos
e a vida real desandava 
êxtase passado em branco,
que vida que nada!

diga-se 
de passagem,
vida elevada a zero
e o resultado disso tudo 
não poderia ser diferente:
impotência, devaneio
e miragens

FORMIGA CABEÇUDA

mais pareciam formigas
enfileiradas 
uma a uma
a carregar folhas 
e recortar
seus destinos 
antes da chuva 

a desfolhar trilhas 
a percorrer estradas, páginas
que o caminhar de costume
já desenhara em lacunas,
em convencionais labirintos 
com setas fluorescentes,
indicando somente a entrada

acredita-se que formiga
quando quer se perder 
cria asas
acredita-se 
que formiga 
que sai da fila
pode ser carregadeira 
perdida, alienado inseto 
alado, podendo até ser 
descartado da labuta, 
pobre coitado(a)!


de tal modo, cabeça dura,
lá vai a formiga que cortava
virar húmus, 
tudo em nome da rainha,
junto com as folhas caídas
página da vida, 
folha virada

formiga cabeçuda
bicho insano sem cabeça

"cai, cai tanajura,
tua mãe tá na fritura
cai, cai tanajura,
que é tempo de gordura!"

ensandecida saúva
seu nome é trabalho 
e fecundação
era uma vez uma formiga-macho
que viveu para aquele instante
criou asas e depois morreu 
em pleno voo nupcial, no ato
na cópula 


que, sendo formiga 
tão organizada, de fato,  
mas não tinha vida própria,
vida descabida, tão meticulosa  
uma-formiga vai com as outras
lá pra casa de mãe-joana
foi-se!
MEU PORTO SEGURO 


eu quero o que tens 
de mais precioso
não quero diamantes 
nem tesouros piratas,
Eu não quero ouro, 
nem botijas assombradas,
quero sim tua vaidade, teu nexo
quero ser tua inteira metade, 
minha cara,
quero sonhar na tua paisagem, 
sentir tua beleza sem igual

quero o todo, não quero aparte,
não quero passar por ti, a vegetar 
não quero ser feito árvore plantada ali
sem sair do lugar, 
transplante não serve 
não quero passar por ti em branco
a ver navios, veleiros em flor por vir
mas que nunca chegam ao cais

quero estar no teu barco 
a remar seguro,
quero ser teu porto, 
teu ponto de chegada
quero compartilhar 
de tormentas a boas esperanças
quero repartir meu coração contigo

quero viver, mas se for 
pra ser longe de ti, eu me nego
eu desisto, não consigo, eu me entrego,
pois se não estais em mim, acredite,
vivo a perambular pela vida,
morto-vivo sem sossego
feito alma penada.

autor: João Ludugero.

DE MATURIS A CAJUS


meu ofício
é fugir do ócio
é fazer mais ponte 
que não cerca
cavar buraco, 
aprumar estacas,
esticar arame 

com pé de cabra, 
abrir portas,
acerca de novas esperanças,
porteiras e cancelas

abrir janelas 

para a luz
esticar a alma no varal 

no curtume
encharcar a carne

sob o sol amarelo
trazer o sal iodado
para encarnar amores
e lenços para secar o suor
e as lágrimas do teu rosto  
ao tirar meu coração da cruz

pregar grampo no mourão
mergulhar fundo lá no retiro
tanger meu gado a beber água
lá no açude do Calango
matar a sede da saudade.
 
em troca peço muito pouco:
quero apenas a sombra do cajueiro
quero cercar-me de flor e colibris
quero um cajueiro em flor,
flor-essência,
quero maturi
ou seja
o caju novo,
ou,
propriamente,
a castanha verde, grande e mole
do caju
antes do desenvolvimento
do pedúnculo,
antes da maturidade.

quero colher e ser colhido
manga madura no pé
apanhar caju e castanha
de manhãzinha,
basta me dar leite azedo,
rapadura, feijão e farinha
e uma hora de rede na tarde amena
deitado à  sombra
do meu pé de graviola.
 
na verdade, peço muito pouco
Preciso de nada mais não!
dê-me coalhada todo dia,
que eu cerco o mundo 
num instante, ligeiro,
pros bichos não se perderem
lá da minha terra prometida
da minha Várzea das acácias.

autor: João Ludugero. 
ORÁCULO DA PAZ

com certeza, 
para mim
a paz é 
como aquele suspiro
leve e inocente 
que o meu filho Igor
dá durante o sono,
mais parecendo um anjo, 
digo 
o arcanjo Gabriel!


a paz tem a leveza 
de uma folha de outono 
e o colorido
de uma bolha de sabão 
contemplada
aos olhos
da minha princesa Jordana Majella,
ente em que o Pai Eterno derramou 
parcela inteira 
de singular beleza!


paz é a grata sensação 
do dever cumprido,
de quem termina a lição de casa
ou encontra um bichinho perdido no jardim
e o devolve à natureza, são e salvo
ou visita um amigo querido,
sem marcar hora nem data
simplesmente 
para lhe dar um abraço apertado


paz é andar descalço 
pelo interior
pelas ruas da minha saudade
pela infância que vivi 
a brincar no meu pequeno lugarejo
lá na minha Várzea das acácias,
onde tudo é verdadeiro, sem dúvida
onde a simplicidade fez sua morada,
sem carecer de alvará 
ou habite-se


paz é olhar o doce sorriso 
de dona Maria Dalva
e nele contemplar o retrato 
da própria beleza  
em forma de estrela
candeia perene
da vida inteira


paz é a paz interior 
a que trago no peito
quando estou nos braços 
do meu pequeno Varzeão,
deitado numa branca rede de algodão
como se fosse o berço esplêndido
no alpendre da casa
de seu Odilon, meu pai

essas coisas relaxam o corpo, 
enriquecem o espírito, a mente
e, ao final da jornada,
só resta  agradecer de ofício
ao Supremo Arquiteto do universo
por ter vivido
e não simplesmente
passado pela vida em vão
a divagar no vazio

paz é bem-estar no colo 
da minha mãe Maria
com sua mão de carinho
a afagar minha cabeça
a me fazer cafuné.

outro dia, 
eu quietinho num canto,
contente da vida a cismar,
a pensar na minha gente,
olha só o que matutei:
a paz da minha Várzea é tão boa,
mas tão boa, tão verdadeira,
que devia ser lei!

autor: João ludugero

segunda-feira, 29 de março de 2010

CABRA DAS VÁRZEAS

a minha infância foi boa
dela não sei reclamar
não reclamo
por que fui feliz 
com os passarinhos
percorri a nua Vargem
conheci de perto o Vapor, 
o sítio e seus semi-áridos
caminhos

senti o cheiro do mato
pisei em terra molhada
comi gravatá, cajá-manga 
manga, mangaba
jatobá e jenipapo, 
além de outros frutos 
espalhados
pelas trilhas agrestes
aonde corríamos sem medo,
serelepes, 
eu e outros
cabras da peste

fugia pra tomar banho
Com os amigos, ou sozinho
bem ali na cachoeira dos Damas
bem na cheia do rio Joca,
ou no riacho da Cruz

chupei muito caju
tirado no pé a gosto
ao alcance da mão
arregacei as mangas 
trepei no pé de coco
comi coco catolé
ralado na própria quenga
bebi muita água de coco verde
ali no Maracujá,
terra de muita pitanga,
graviola e tamarindo

andei pelos ariscos
de Virgílio, dos Marreiros
visitei o Itapacurá das pitombas
junto com Picica de Xinene
e Quincas de Pedro Zabé




armei fojo pra preá 
armei arapuca 
armei alçapão 
armei laços
lá com meus anzóis,
pesquei com landuá,
tintim por tintim,
dei de cara com os carás 
enchi meu samburá
lá no rio de Nozinho

autor: João Ludugero

domingo, 28 de março de 2010

MELANCIA

Eu desde menino
aprecio melancia
Minha avó Dalila
gostava tanto
que comia até o branco da casca
Minha princesa Jordana 
teve a quem puxar
e meu filho Igor, idem 
não saiu diferente
também gosta dessa delícia
de se lambuzar 
inteiro
de amor
aos pedaços 

de melancia

essa fruta que me atiça o paladar
tão vermelha e verde me olha
com suas marcas brancas na casca
seriam brancos ou verdes os seus rajados?
ela é mesmo uma dádiva,

de dar água na boca,
ela me deixou livre de pedras
nos rins, tantos cálculos eliminei
que até já perdi a conta...

quem a vê por fora
assim redonda,verde e dura
a vê estranha pois não é a dona

de muitos atrativos,
casca dura, pura influência 

do meio por dentro, vermelha 
como o coração
vermelho melancia, licopeno
núcleo de sementes
espalhadas em mim



quando te vejo, bendito fruto,
logo penso e degusto uma fatia
mentalmente, comparo-a com a vida
cheia de sabores, gostos e cor

é como se a casca fosse
o caminho que vamos

deveras escolhendo, 
batendo na polpa,
a saber se boa
a cada mordida

um novo sentimento,
compartilhado
em cada fatia encarnada
a nos ensinar 

sutilmente
que apesar do amargo

a vida pode se tornar doce
ou ser talhada no paladar
que a gente quiser
do sabor ao cheiro
do vermelho melancia

mas se, de repente, a vida
de relance ou saia justa, 

apronta-nos alguma surpresa, 
ti-ti-ti, ta-ta-tá!
depressa afiamos a faca, 
com afago desafiamos seus gumes 
e oferecemos, em coro, 
pra calar a boca da massa,
adivinha o quê, 

em alto e bom tom?
MELANCIA!


autor: João Ludugero.

sábado, 27 de março de 2010

CARTA DE ALFORRIA

eu cá com meus anzóis
canto este mês de março
que venha abril
arisco
um pouco árido
um tanto seco
entre uma chuva e outra
de verão, 
de súbito

mesmo assim,
observo o céu de anil 
eu atiro tintas na tela
eu invento bichos nas nuvens
eu viajo com elas 
eu acirro os ânimos
eu sopro os cinzas 
e as sombras que insistem
transbordar veias, capilares
e vasos 
que encarnam no coração

num pacto de sangue
efetivado pelo ego 
imposto pelo amor 
que se derrama
que não me expira
que se alastra
que faz a guerra
só pra poder caminhar em paz

Que tu,...oh, minha voz,
tens a força de encantares
de espantar todos males
de abrir cadeados e correntes, 
desencantar alvoroços
de não se deixar ir o sonho 
direto pro brejo
junto com a enxurrada, 
sequelas das últimas nimbos

e sem arredar o pé 
da melodia
teço com palavras 
que versam nervos
que assinam alforria
que conversam,  
sem arrudas ou arrodeios,
com meu coração-cofre de seda,


até mesmo em época de estio
de secas tetas 
e de outras mamatas
até mesmo em  dias 
de vacas magras, 
sem convencê-lo, eu consigo
ouvir escutar teu som possante


e nessas horas de infortúnio
quando se chora o derramado leite,
é aí  que a ti que recorro, convém
meu apelo, minha súplica a ti,
meu destemido saco de pancadas,
meu coração valente, 
meu vigoroso tambor do peito,
tu que és duro na queda,
mas não és de pedra
é da tua natureza saber sentir,
esperar sem apego
o alento
que chega
risonho
quando sopram 
os bons ventos
da liberdade

autor: João Ludugero.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O SÍTIO DO VAPOR


A RODA DO TEMPO

um flamboyant
de flores laranjas-jerimum
no quintal
laranjeiras e limão-galego
flores pelo chão
do pomar-jardim
Capim-santo,
pimentas de cheiro,
erva-cidreira e alecrim.
Um carro encantado
morreu
lá pras redondezas
do Vapor de Zuquinha
ali ó,
havia uma casa
de farinha de mandioca

agora
As ruínas dão as caras
ali onde também havia um curral
ê, boi!
tempo bom de bem-te-vis
e canários de chão
que rumaram
lá pras bandas do rio Joca
tempo bom que se foi
e o galo de campina
de colarinho encarnado
ainda dá as caras
e completa a beleza
que ainda insiste em ficar ali
naquele refúgio encantado
e o carro misterioso
tranvanvan van van...
pegou
no longe o vi ainda
preto cor de breu
e soltando fumaça
pra dentro do túnel de lembranças
pra fora da boca sem dentes
da moenda 
do rodado tempo, 
motor que enferrujou
que emperrou 
a catraca do Vapor. 

Autor: João Ludugero.

terça-feira, 23 de março de 2010

MEU CALANGO, MEU AÇUDE VERDE-MUSGO

MANDINGAS

Quatro bocas de ruas
uma encruzilhada
um alguidar com farofa
outro com sal grosso e ervas
vinte e sete rosas amarelas
um buquê de flores já secas e murchas
vela encarnada sete dias
velas pretas-breu e outras verdes-bala-soft
retrato em branco e preto, 3x4
telegrama com os dizeres:


"Pelo muito que ficou
preciso te ver de novo!"


Bilhete amarelado pelo tempo
lençol branco amassado, encardido,
garrafas de vermute,cachaça
taça do destino quebrado, aguardente
coração de vidro, safra ruim
vestido azul-bala-de-anis
que nunca foi usado,
cheiro de alfazema e alecrim,
copo de leite derramado.


E eu, ainda sapo,
homem acorrentado pelas amarrações
do amor que poderia ter sido semente
pendente roda de fogo
enferrujada pelo tempo,
que usa seus dentes cegos
para cortar os nós
que poderiam ser desatados.
coisa dita, coisa feita, patuá
e ponto.


Autor: João Ludugero, 11/02/2009.