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domingo, 20 de novembro de 2011

CONTENTE EU SIGO NA LIDA. LÁGRIMAS? SÓ AS DE CORTAR CEBOLAS!

E ele me chega assim, atrevido,
deitando-me lágrimas nos olhos 
de cortar cebola, e me apraz 
mesmo vendo que o mundo gira
embaçado, em torno de sóis
ao redor do meu poema 
que parece pequeno,
mas o dia é que é pouco
pra cabê-lo inteiro 
tendo em vista 
que ele se achega, adentra 
causa refluxo na aorta
e me deixa assim, ex-cara velho,
com ânimo renovado não só no rosto, 
disposto a cometer loucuras!
E acabo por recomeçar
Saio da moldura, largo a maca
me pego a andar, a voar, a beber 
toda água que me acetina 
o semblante depois de muitas luas
e pingentes estrelas numa constelação
que se expande na minha sala-de-estar
só por causa desse Amor que impera
que não perde a beleza
nem quando encontra a presença
em miúdos das coisas de rotina.
Ele é quem me faz menino 
 encharcado de amor 
desses que me leva 
a dar bom dia a cachorro, 
abraçar plantas e crianças, 
apesar dos cheiros e ruídos
oriundos do curtume dos descontentes 
que querem porque querem, 
no fim de uma leitura, o mapa-rascunho de vida,
e ora lhes apresento minha risada escrachada,
com cara de moleque feliz, chorando seus prazeres
mas marejado é de felicidade, que ora me nina, 
sem pensar em cortar os impulsos tão cedo,
apenas satisfeito ao cortar suas cebolas roxas,
Porque ele está ali de novo, o Amor
me convidando a tirar a roupa
e mergulhar por mares 
nunca dantes navegados...
Desnudo, abraço o amor
e vou abrindo espaço vão afora
aliado ao meu braço de mar,
ainda sou rio na embocadura da lida!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SIM, DEUS DANÇA!

Sim, acredito
num Deus que dança,
um ser que não se cansa
susceptível pelo radar dos sentidos,
que pode ser invocado
através do silêncio das coisas
até no pensamento
que constitui palco e ponte
de cordas lançadas
de dentro para o alto, 
sobre a amplidão dos acordes,
pois, deles se escuta o assobio de Deus.
E assim movidos pela cantiga, de súbito, 
numa música solene, de certo,  
delineam-se, dia-após-dia, 
os passos do transeunte
que chega ou que parte
na animada estação cenário
que nos enleva alma e corpo,
sob as mãos de Deus,
que nos concede essa dança,
que sabe os passos e a contra-dança,
no ritmo das horas,
sob a batuta da vida bailarina
que nos convida, de pronto, 
a experimentar bailar com/para Ele,
sem carecer de ensaio, nem precisa, 
a rodopiar nos embalos da lida,
até só restar a última cadeira
quando saímos da penumbra 
ao acender da iluminação da cena
ou pelo soar de trombetas,
só pra ver o semblante de Deus,
quando a dança suprema
nos chama à saideira,
porque o bailinho só acaba
quando se fecham as cortinas,
e o mundo da gente
cabe nessa dança,
êh, bagaceira!
até nos fazer perder o juízo!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

VOLÚPIA EM VERSOS

Com avidez,
sei que posso tecer 
um poema
assim num cantinho 
com acordes 
de astros
enamorado das letras 
como quem abre a claridade 
para ouvir as palavras por mim sentidas,
advindas dos clarões de baunilha 
que recendem da tua boca
na tua voz rouca a descrever as coisas,
assim como quem entrega a alma 
a se atirar corpo-a-corpo
num latejar de ânsia febril 
onde o desejo se inflama, consentido,
onde o beijo bebe com volúpia,
soletrando sílabas sensuais
em rimas de balbuciadas metáforas
no encontro de lábios ardentes
percorrendo poros palpitantes,
A rasgar com encanto a verve 
do que não estava escrito
E num afoito jogo de línguas 
passo a afagar a pele suada com fulgor,
na incessante busca 
de quem se perde nos labirintos
de frente e verso, de ponta à cabeça, 
numa paixão infinita, quase profana, 
no intuito de atingir, por um átimo de tempo, 
a vertente veia do clímax, sem esquivos,
mesmo que seja no ditoso orgasmo 
de um ávido e penetrante verbo.
Porque eu posso tecer um poema
com amor, dado que não me falta tempo,
posto que para a vida 
tenho o amor que me basta.
Daqui posso tecer seu porvir em versos,
a partir do poema que traço.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

RECOMEÇO


Outros ventos virão, 
outras trilhas, outros verões...
E quantos olhares primaveris
 já perfumei espaços afora,
em quantas folhas perdi a dor
e noutras me fotossintetizei reverdecido.
Muitos sóis já fiz morrer nesta vida,
depois de muitas luas.
E renasço sempre noutro amor, 
nas cores de outra aurora.
Diversos corpos 
já enterrei, dentro de mim.
Habitei outras peles 
em carne e osso, escorei-me.
Encostado nasci de novo, com gozo
oriundo do próprio sangue, do sal do solo
das cinzas e dos véus 
das mortalhas da noite,
num outro eu, a cada morte 
revigorado, sobrevivi.
Contudo, esse outro eu, 
talvez seja o mesmo, 
recém-saído da penumbra, 
encarnado sem retoques,
afoito feito vela de acender, 
esperança porvir,
veleiro em flor 
a atravessar braço de mar,
achada garrafa-de-náufrago com mapa, 
croqui de um bem-querer de novo amar. 
Ainda sou embocadura, 
sou rio a lapidar 
pedras, perdas necessárias 
na bateia da lida...
Assim posso ser eu, 
brilho de diamante, de certo
amante do dia, 
vela aberta na mente, 
mar adentro...
Até dobrar o cabo 
das tormentas, e consigo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

POEMA BREJEIRO

Quero porque quero 
Emaranhar-me nesse amor brejeiro, 
Essência, flor/esta da paixão
'Quiliaros' caminhos
Que levam aos ariscos
Riacho do Mel a escorrer, 
Doce Maracujá 
Quero colher e ser colhido,
Manga madura no pé,
Apanhar caju e castanha
De manhãzinha... nascer com o sol
Basta me dar leite azedo com melado,
Rapadura, feijão, farinha torrada 
E uma hora de rede na tarde amena
Deitado à sombra 
Do meu pé de graviola.
Na verdade, peço muito pouco.
Preciso de nada mais não!
Dê-me um prato de coalhada todo dia,
Umas tapiocas recheadas de coco, 
Um punhado de peitos-de-moça, 
grudes de goma na palha de bananeira 
e uma fornalha de carrapichos
Que eu cerco o mundo
Num instante, ligeiro, 
Só p'ra os bichos não se perderem
Da minha Várzea das Acácias!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MEU POEMA JOGA COM A SAUDADE

Ó, Minha Várzea das Acácias,
Deixei contigo o meu amor...
E em meu peito, não vazio, 
pulsa um coração atento
Sob cantiga de açúcar 
no meio da tarde amena,
Onde vejo botões em flor 
a se abrirem nos teus vales,
A vestir teus campos de cores ao Vapor,
E o sol todo laranja querendo se deitar 
ardendo de paixão no açude do Calango,
E a flor silvestre do Maracujá a se emaranhar
No fascinante colo do agreste verde.
Insisto em trazer comigo esse amor
Que me dá brilho ao olhar,
Ao brincar perdido nas lembranças
De outrora que não se dissipam,
Apesar da lonjura e do tempo
Em que só tu me consegues guiar,
Minha Várzea amada!
Só me basta recordar do teu sorriso franco
Para me sentir assim maravilhado, ao arrebol,
Como se meu coração fizesse festa de contente,
Como se estivesse a jogar bola ali 
no estádio João Aureliano de Lima, "O Limão",
Ou mesmo lá na tua Vargem, 
Sem me preocupar com mais nada 
nem com a hora de voltar pra casa,
Sem esquentar a cabeça com a vida,
Uma vez  que não precisava sair gol.

domingo, 6 de novembro de 2011

SEM ARREDAR O PÉ DA MÃO-DE-PILÃO...

Oi tum tum tum, 
patati-patatá!
a menina varzeana
toda faceira joga as ancas 
pra frente e pra trás,
de lado e de banda, 
mas não arreda o pé
nem a mão-de-pilão,
oi tum tum tum, 
patati-patatá! 
não debanda da lida,
num jogo de cintura
finca a mão no pilão, 
bate mais, com firmeza
bate firme os grãos
pra fazer o fubá,
pra fazer munguzá
pra fazer xerém e cuscuz.
É pois consabido 
que janeiro é mês de chuva, 
fevereiro é bom pra plantar, 
leirão preparado, solo já molhado;
em março o milho cresce, 
em abril vai pendoar, 
em maio está bonecando, 
no São João está bom 
de assar na quadrilha, ou cozido, 
saboreado em pamonhas, 
canjiquinhas, bolos e curau, 
ao redor da fogueira nós vamos 
é dançar, trazer folguedo e festa,
adornar o andor na procissão, 
agradecer ao apóstolo São Pedro,
soltando fogos de artifício e rojão,
mas em julho o milho está seco 
e é tempo, morena, da gente pilar...
E assim a gente se entrega à fartura,
sem esquecer de sementes guardar,
e assim 'vamo que vamo simbora' ciente,
 contente da presença, morena,
desses grãos dourados 
na mesa do bom varzeano
que não desiste nunca, 
que ainda acredita 
com toda mulinga, morena,
na força que brota do chão!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

JEITO DE MATO

Gostoso é cheiro de mato
capim verde capinado,
o gado a mugir
lá no Capim Grosso
Chão seco, curral, quintais e taipas
retratos bonitos do Itapacurá
telhados molhados de orvalho, perfume
cheiro de terra, cantiga de passarinho
Vapor junto ao corpo suado
pés de moleque a correr
pelas trilhas varzeanas,
entre o riacho da Cruz 
e o rio de Nozinho
mistura aromatizante
entre canas-caianas, 
caldos e licores
de jenipapo e maracujá
pura fascinação vertente
riacho que adoça o mel
esperança renovada com gosto
com jeito arisco
de agreste verde
banhado pelo rio Joca,
 solo fértil, terra abençoada
gente-gente pacata, hospitaleira, 
contente de bem viver a vida 
na minha Várzea das Acácias!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

MADÁ

De salto alto, 
ela requebra, balança,
cai, mas não se prostra na lida   
ao atravessar viadutos, altos e baixos.
De quebra, se debruça, se enxerga 
pelo retrovisor dos automóveis
de luxo, desnuda ela entrega a carne
faz a barganha por outras bermas, 
com uma lágrima presa 
na garganta, profunda, 
apressa o passo, abre as pernas
estende a alma que ficou longe dali,
como quem sonha, pensa em ter vida própria, 
vez que a sua há tempos ficou guardada 
noutra realidade menos cuspida
que neste poema não se concluirá,
não será soneto, mal soará,
sem chave de ouro:
posto que é sorvedouro,
uma esponja rústica, espessa,
apenas um mata-borrão de angústia
que não apaga o suor ardente 
no semblante de Madalena,
lágrima vertente a escorrer 
quase oculta num canto da boca
dessa mulher de vida dura,  
consciente que mão nos lábios e tal
não é apenas batom, mas atura os ais,
reborda as vestes, cinge as urdiduras
das impostas camisas de força, 
antes de recompor a moldura de Vênus
que a expõe na tela da vida real,
antes da batida final 
do martelo do arremate. 
Dou-lhe uma, dou-lhe duas... 
Quem dá mais? 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

MÃO-DE-PILÃO

Bate, rebate, mão-de-pilão!
ânimo do braço e da lida,
utensílio rústico e potente, 
com humilde e valorosa força
quebras milho e mandioca
amassas grãos em farinha,
como chamar-te preguiça,
se, para nós,  fazes pão,
se entre uma leva e outra
vais esmurrando a canjica?
Mão-de-pilão a apisoar,
separas a palha do grão,
soca que socas
a triturar nó encruado, 
despolpar e repisar, amiúde, 
sem piedade nem dó,
a moer pedras de sal,
refinar cristais de açúcar mascavo,
fazer mistura, bolos e paçoca, 
polvilho de tapioca, beiju e grudes;    
laboras e gemes sua bronca 
não descansas sua sina,
com ânimo vais pilando sonhos 
aos acordes calejados, 
vais afastando os males
e curando as espinhelas caídas;
descascando incansável 
o que em nós curte o tempo
o que se esvai ou estanca,  
o que prossegue estocado 
transformado em pó, 
longe que vais, longe da cantiga
além do sol da manhã 
que se levanta a bater adiante
e chega manso, de repente,
entardecido na soleira da porta  
nessa toada mão-de-pilão 
que ecoa seca na alma e na carne, 
e fica a fazer tantã, titi-ti, tata-tá!
a tocar bem lá no cerne 
na massa da cabeça da gente.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O LIVRO

Eu me atiro nas palavras,
vice-versando tenho à mesa
carne, peixe, pão e queijo prontos.
Prefiro a faca, o anzol e a fome.
Eu vicejo, reverdecido,
abro um livro 
como quem abre
um telhado no deserto. 
E, de dentro, me alinho
de sorte pro alto, de súbito,
dou partida ao meio
de chegar ao cimo, e chego,
ganho firmamento,
o norte ponteio, de certo,
sem vexame nem dilema, acolhido.
Alivio um pouco minha sede.
E assim aliado às letras 
com toda força arremesso
meu bumerangue encantado.
'Oasis/meio-me' na lida
e do topo da minha casa
posso girar o mundo
que trago em minhas mãos,
beber da sua água,
posso andar com asas
e ver suas páginas 
de frente e verso,
de todos os lados,
amparado assim
no que está escrito
em meu livro aberto.  

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

PELAS TRILHAS VARZEANAS - CABRA DA VÁRZEA, DONO DO MUNDO



Meninos varzeanos brincando de cavalo-de-pau na Vargem - Várzea RN
Se a minha vida ali foi boa?
Desde menino travesso 
dela não sei reclamar
não reclamo da minha sina,
nem do improvisar com ossos 
o meu gado no curral
nem dos cavalos de pau,
nenhum bocadinho que seja,
 nem pudera,  porque fui feliz,
muito além do faz-de-conta.
Ainda moleque era solto na capoeira,
passava sebo nas canelas e,
pernas pra que as quero!
 Junto com a passarinhada,
seguia as veredas desde cedo, 
pelas margens do rio Joca
encantado, achava-me coqueiral afora.
Percorrendo a nua Vargem,
conheci ao largo o Vapor, suas lendas,
Seixos adentro, poeira, pó  
e os semi-áridos caminhos 
do agreste verde
que sempre levam 
à Nova Esperança.
Senti o cheiro do mato 
do Capim Grosso, contente
mergulhei no Retiro de seu Olival.
No riacho do mel  
fui apanhador 
de algodão 
de fibras finas
e adociquei coalhadas
com mel-de-europa.
A partir do meu chão,
ganhei o mundo.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

JUAZEIRO

Sou esse tronco espinhoso, 
de ramos tortuosos,
de galhos retorcidos,
de copa verdejante, 
apesar da aridez do chão.
Sou sombra e aconchego,
sou flor, espinhos e frutos
sou ninho de gravetos, 
abrigo de anuns,
sirvo de suporte 
para ervas e passarinhos.
Sou casca grossa, madura,
boa para escovar os dentes,
sou mancha verde 
que cresce mesmo longe 
das chuvas de inverno. 
Sou vida que floresce no verão,
apesar do tempo quente e seco.
Sou Arbusto silvestre,
juazeiro do agreste,
planta nativa,
sou árvore com as raízes 
muito bem fincadas 
no solo fértil da boa Várzea,
mata cativa,
sombra para o corpo, 
sou descanso propício
do viajante alado, 
depois de muitos sóis,
quando o tempo de estio 
é mais interno.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

FOGÃO À LENHA

Na cozinha de dona Dalila
a gente era a gente mesmo:
Éramos fogo, fome e alegria.
Tenho saudade do que já foi, 
das velhas cozinhas de Várzea, 
com seus fogões à lenha, 
cascas de laranja secas, 
atiradas aos caibros, 
penduradas na cumeeira, 
usadas para acender o fogo. 
Bule de café borbulhando, 
biscoitos, tapiocas 
e bolachas regalias,
lenha crepitando no fogo, 
um bom bocado de cheiros 
da fumaça e dos bolos
E um magote de inquietos 
meninos e meninas 
de  bochechas rosadas, 
satisfeitos com os grudes, 
sequilhos e brotes à mesa. 
Minha alma tem saudades 
desse tempo bom
rebuscado em cheiros, 
ruídos e temperos.