Seguidores

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO


E a gente descia com o sol
pelas trilhas do rio Joca.
Picica ia na frente, devagar com os anzóis,
Xibimba ia com o samburá
agarrado na saia da mãe, dona Lucila de Preta,
e da irmã Vira que conduzia o landuá aos ombros.
De repente,  lá estávamos nós
além do riacho da Cruz,
após haver saciado a sede nas minas d'água
das cacimbas de Nozinho.
Era a caminho do rio salobro
que enchíamos a cuia pra se refrescar 
e as cabaças de água para beber,
tomando aquele banho de lavar a alma,
desses de ver Deus a olho nu à sua frente.
Cá para nós, diz-se
que água não tem cheiro,
gosto ou cor... ledo engano!
Pois essas águas tinham sim,
acho até que é por isso mesmo 
que remexem tanto com as minhas lembranças.
No estio, o Joca ficava mansinho… rasinho…
Descalços pelo vão do rio,
dava para atravessar a vau
de uma margem à outra andando
pela areia branca, morna e rasa.
E voltávamos para casa mais leves
com a enfileira de graúdos jacundás,
após haver limpado a vista na beira do rio, 
onde catávamos doces ingás, canapu,   
melancias-da-praia e melões-de-são-caetano.

10 comentários:

  1. Lembranças poéticas de um menino varzeano.
    João, como sempre pura beleza em poesia.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  2. Comentário de Amartvida
    da Casa da Poesia, disse:
    Que belo momento,
    uma leitura de se deliciar
    e não querer mais parar...
    muito bom, viajei nessa infância,
    belo texto...
    abraço bem grande,
    Nina

    ResponderExcluir
  3. Somos a nossa memória...E os cheiros esses...ligam-nos ao passado de uma forma tremenda...

    Gostei poeta...mas isso já sabia:)

    ResponderExcluir
  4. Beatriz Valadão disse...
    Memorável poema... plenamente de cores, cheiros e ruídos de um passado acordado!
    Sua poesia é bela, original, única... Dá vontade de ler e querendo mais, dói parar de ler-te, tua emoção não fica longe das palavras.
    És mesmo um grande poeta. Felizes os que são seres inteiros. Assim como tu és! Te louvo!
    Abraço.
    Beatriz Valadão,
    Professora de Literatura - Viçosa - MG.

    ResponderExcluir
  5. Paulo Branco, Escritor24 de novembro de 2011 18:12

    Paulo Branco disse:

    Caro poeta Ludugero,
    Seu texto é mesmo memorável: muito simples, bonito e sucinto, dizendo o essencial.
    Isto sim é poesia, dá pra sentir tuas palavras e tua emoção fluindo do papel. Já sou teu fã!
    Mega abraço,
    Paulo Branco,
    Escritor.

    ResponderExcluir
  6. Adauto Linhares disse...
    Sem palavras perante a magia das (tuas) palavras!
    Abraço.
    Adauto.

    ResponderExcluir
  7. Belíssimo poema! Grato pela excelência
    da imagem. Soberbo! E calo-me perante a beleza das tuas palavras.
    Sou teu seguidor. Como não ser, eis a questão. É gratificante vir aqui te ler, sempre.
    Raoni Serra.

    ResponderExcluir
  8. Ludugero,
    Lento, forte e doce, o fluir do teu poema!
    Abraço apertado.
    Pietra Justine Olympio

    ResponderExcluir
  9. Querido poeta João Ludugero,
    Menino varzeano, teu poema é sublime, é mais uma leitura das emoções nestes belos versos.
    Beijos com carinho. Parabéns!
    Destaco:
    "Era a caminho do rio salobro
    que enchíamos a cuia pra se refrescar
    e as cabaças de água para beber,
    tomando aquele banho de lavar a alma,
    desses de ver Deus a olho nu à sua frente.
    Cá para nós, diz-se
    que água não tem cheiro,
    gosto ou cor... ledo engano!"

    Lindo demais!!!
    Beijos.

    ResponderExcluir
  10. Sua poesia tem muita luminosidade, cheiros e cores da vida. Adoro vir aqui te ler. Parabéns por mais um belíssimo poema.
    Abraços,
    Lígia Moura Vasquez.

    ResponderExcluir