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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

AGRESTE SEARA DA VARZEANIDADE, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AGRESTE SEARA DA VARZEANIDADE,
por João Maria Ludugero

Saudoso poeta da Várzea das Acácias,
Saudoso trovador que se ilumina ao agreste,
Ao contemplar a estrela Dalva vespertina,
Dentro e alto do verde-musgo dos Seixos
E do carrego de frutos dos Ariscos de Virgílio Pedro,
Ao se completar arteiro João maduro levado da breca
A se reinventar num eufórico olhar de bem-te-vizinho,
Aonde eram longas as festanças de São Pedro Apóstolo,
As peles não tinham cor, mas eram iridescente ao Vapor,
Os afoitos cabelos se encaracolavam ao vento do arrebol,
A me ninar em acordes de sonhos, sem medo da cuca esbaforida,
Dentro da tarde amena ao radiante arrebol lusco-fuscado
Desabrochando as almas reflorescidas pelas quatro-bocas...

E os perfumes sem nome aromatizam as varandas
Onde todas as meninas se espaireciam contentes na lida
Antes deles alvorecidas, mas depois repletas
A se arder nas pupilas sob a visão alaranjada
Do mulungu em flor solta na VARZEANIDADE...

SEU PLÁCIDO NENÊ TOMAZ DE LIMA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
SEU PLÁCIDO NENÊ TOMAZ DE LIMA,
por João Maria Ludugero

Saudades do Seu Plácido 'Nenê Tomaz' de Lima!
Quem não lembra do famoso dizer:
"- Essa faceira menina tão bem apanhada
que mais vale um pitéu"?
Isto nos anos 70/80 na Padaria de Várzea-RN.
Os mais novos talvez não lembrem ou nem saibam
quem foi esta solene figura, mas ele viveu e encantou
o público que maravilhado aplaudia cada cena e o jeito contente
do desperto, alegre e inesquecível Seu Plácido Nenê Tomaz de Lima!

AGRESTE SEARA DA VARZEANIDADE, por João Maria Ludugero

 
 
 

 
 
 
AGRESTE SEARA DA VARZEANIDADE,
por João Maria Ludugero

Saudoso poeta da Várzea das Acácias,
Saudoso trovador que se ilumina ao agreste,
Ao contemplar a estrela Dalva vespertina,
Dentro e alto do verde-musgo dos Seixos
E do carrego de frutos dos Ariscos de Virgílio Pedro,
Ao se completar arteiro João maduro levado da breca
A se reinventar num eufórico olhar de bem-te-vizinho,
Aonde eram longas as festanças de São Pedro Apóstolo,
As peles não tinham cor, mas eram iridescente ao Vapor,
Os afoitos cabelos se encaracolavam ao vento do arrebol,
A me ninar em acordes de sonhos, sem medo da cuca esbaforida,
Dentro da tarde amena ao radiante arrebol lusco-fuscado
Desabrochando as almas reflorescidas pelas quatro-bocas...

E os perfumes sem nome aromatizam as varandas
Onde todas as meninas se espaireciam contentes na lida
Antes deles alvorecidas, mas depois repletas
A se arder nas pupilas sob a visão alaranjada
Do mulungu em flor solta na VARZEANIDADE...

MINHA TERNA, SINGELA E QUERIDA SEARA DO VARZEAMAR, POR JOÃO MARIA LUDUGERO

 
 
 
MINHA TERNA, SINGELA E QUERIDA SEARA DO VARZEAMAR,
POR JOÃO MARIA LUDUGERO

Resta, acima de tudo, essa capacidade de Varzeamar
Essa intimidade perfeita com o silêncio ao longe,
Resta essa canção astuta pedindo carinho de mãe
Pedindo um abraço do pai, satisfeito na alegria de ter nascido,
E viver de amortecer as dores que marejam meus olhos d'água,
Em razão de aguentar um coração partido...de saudades!

Resta esse antigo respeito pela praça do Encontro Cleberval Florêncio,
Uma roda de conversa na praça da algarobeira,
De frente ao Recanto do Luar de Raimundo Bento
Esse falar baixo, sem alarido, essa cantiga de bem-te-vizinho
Essa mão que tateia antes de ter, esse receio
De ferir tocando, essa forte mão de menino levado da breca
Esse amparo repleto de mansidão para com tudo quanto existe,
Desde à beira do rio Joca ao vapor de Zuquinha...

Resta essa avidez, essa alegria de versos e gestos
Essa garra cada vez maior em quebrar o pote da fantasia
Essa acrobacia infantil de quem espera deslanchar o carrinho de rolimã
Essa brincadeira levada a sério e tão bem apanhada na poesia vivida.

Resta essa comunhão com a sintonia da Várzea das Acácias,
Esse sentimento da Fé em repouso, essa ávida simultaneidade
Do tempo, essa astuta composição poética sem embromação,
Em busca de um formoso mamão maduro, na condição de sanhaço só.

Resta esse coração partido a marejar meus olhos d'água
Diante da igreja-matriz de São Pedro Apóstolo, essa alegria
Diante do cotidiano; ou esse súbito lamento
Ao ouvir passos da mulher que chora na noite
Dentro da lenda que se perde na história...

Resta essa vontade de chorar diante da lembrança
Da minha inesquecível professora Zilda Roriz de Oliveira
Essa saudade em face de me encontrar distante
Essa imensa ilusão convertida em verdade
De que a vida é mesmo assim pelas bermas do deslinde,
Ao me achar diante das duas palmeiras imperiais do padroeiro.

Restam tantas e quantas recordações da velha infância
Dos papos subitamente desentranhados no banco de Nina
Lá de frente à casa de Madrinha Joaninha Mulato
De pequenos manjares, essa bonita capacidade
De rir à toa, na mais fantástica alegoria de ser útil
E essa coragem para entreter-se na varzeanidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa estripulia
De quem sabe que tudo já foi como será no vão do vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir a contento, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos varzeanos do agreste verde
Que não tiveram ontem nem hoje, mas persistem na distinção da lida,
A correr, a andar, a voar dentro e alto, pela seara de Ângelo Bezerra,
No mais possante e destemido tô-fraco feito guiné ou galinha d'Angola

Resta essa inenarrável capacidade de Varzeamar em acordes
De enaltecer a realidade, dentro dessa amplitude
De aceitá-la tal como é, e essa visão apaixonante
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E necessária paciência, e essa memória anterior
De um singelo espaço existente , e esse entusiasmo
Espairecido, e essa pequenina luz tão varzeamável
A que o poeta Ludugero dá o nome de esperança renovada.

E assim, ainda resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares curiosos cheios de memória
Resta essa riqueza intrínseca, essa vaidade plena
De não querer ser majestoso príncipe senão do seu chão-de-dentro.

Resta essa roda de conversa cotidiana com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada ela virá me entreabrir a porteira
Como uma velha amante esbaforida ao desvelo da sorte então consentida,
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada Várzea das Acácias.

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do agreste
Esse eterno levantar-se depois de cada queda ao vão do estio
Essa incessante busca de equilíbrio no fio da navalha advinda
Essa terrível coragem diante do grande receio, e esse medo da cuca
Infantil de ter pequenas coragens, chegando a assanhar até mesmo
Os pelos da venta, em face do oásis-meio do labirinto que se recria
E ganha o mundo, a partir das quatro-bocas da Várzea das Acácias!

SÉRIE: ETERNA VARZEANIDADE, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SÉRIE: ETERNA VARZEANIDADE,
Autor: João Maria Ludugero

Eu, João maduro Ludugero,
Sou arteiro sou menino medonho
Sou poeta astuto levado da breca
E vou ficar em acordes de sonhos,
Pra ver o que acontece de repente
Nessa tarde de domingo que me nina

Congela o tempo pr'eu ficar entretido
Com as coisas que eu gosto lá da Várzea
E que eu bem sei que são efêmeros potes
De fantasias que passam iridescentes
Que acabam, se despedem ao Vapor
Mas eu nunca amorteço essa dor
Mas eu nunca esqueço.desse amor,
Apesar de trazer o coração partido,
Eu não tenho medo da cuca esbaforida,
Eu sou mesmo de assanhar até os pelos da venta...

Bem apanhado como se estivesse
Lá na beira do açude do Calango,
Vou ficar mais um pouquinho na infinda peleja
Só pra ver se eu aprendo alguma coisa com afinco
nessa parte do caminho da Várzea de Ângelo Bezerra.

Hibisca dobrado o tempo pr'eu ficar mais sossegado
Com as coisas que eu gosto de manjar na estação
E que, diga-se, de passagem, não são efêmeras
E que são bem alaranjados mulungus em flor,
Inacabáveis apesar da atrocidade ao vão do estio
Mas sempre pedem um tipo de recomeço aos céus...

Vou ficar mais um pouquinho, eu vou
Pelas quatro-bocas da rua Grande,
Vou formar uma roda de conversa
Lá na praça do encontro Cleberval Florêncio,
Lá de fronte para o Recanto do Luar de Raimundo Bento...
Vou ficar mais um bocado contente
Para ver se acontece alguma coisa
Lá na padaria de Seu Plácido Nenê Tomaz de Lima.
Ou vou jogar uma sinuca para alegrar mais uma tarde de domingo,
Que seja lá no Seu Otávio Gomes de Moura
Que seja lá no Salão de Seu Lula, marido de dona Júlia Rosa,
Inesquecíveis pais de Seu Severino 'Silva' Florêncio Sobrinho,
Ou vou beber um delicioso caldo-de-cana caiana ou curimbatória,
Lá no bar do Seu Biga, pai da Edilza Gomes do Rego,
Ou vou comprar um Biotônico Fontoura lá na Farmácia
Do animado Seu Geraldo 'Bita' Anacleto de Souza,
Ou vou dar mais de setecentas pedaladas nas bicicletas
De Zé de Estevão até achar a saída para o Maracujá, o Umbu,
Quem sabe, até o sítio de Zé Canindé colher um paiol de macaxeiras ou Um caçuá de batata-doce, sem esquecer de assar as castanhas de caju
Que a gente ganhou lá no Arisco de Virgílio Pedro, após chupar um balaio
De mangas, de imenso carrego entre mangas-rosas, bacuris e espadas.
Quiçá, vou mesmo é dar um pulo até o Itapacurá de Tio João Pequeno,
Comer tapiocas, beijus, paçocas de carne-seca na cebola-roxa, estrelar
Ovos-caipiras fritos na manteiga-de-garrafa, dentre tantas temperanças
Na cozinha de dona Zefinha, fazedora do mais gostoso cuscuz de milho-zarolho, após degustar tantas e quantas pitombas no sítio de dona Julieta Alves, avó da amiga Edileusa Cunha...

Não só de manjar na lida, sem esmorecimento,
Por isso vou ficar mais um pouquinho avexado
Para ver se eu aprendo alguma coisa varzeana.
Bem fico a martelar pelas bermas do caminho,
Sempre inventando um certo tipo de recomeço
Que me levam num bornal tão cheio de sonhos
A andar, a correr dentro e voar alto pela seara
dos inesquecíveis Madrinha Joaninha Mulato,
dona Rosália Fernandes e Cirineu Gomes do Rego!

VÁRZEA-RN: UM NICHO DE INTENSA SAUDADE A CORRER DENTRO DA LIDA, ENTRE NÉCTARES, LUMES E CHEIROS, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VÁRZEA-RN: UM NICHO DE INTENSA SAUDADE 
A CORRER DENTRO DA LIDA, 
ENTRE NÉCTARES, LUMES E CHEIROS,
por João Maria Ludugero

Cheiros de infância. Sempre fui muito ligado em cheiro. Olfato muito apurado, era o primeiro a sentir cheiro de tudo: algo queimando, gás, até chuva chegando. O que mais me fascina é a capacidade que um perfume tem de transportar a gente pelo tempo. Chuva chegando, por exemplo, me conecta imediatamente à minha infância: ozônio, terra molhada, aroma de capim em terra molhada, reverdecida e dando pinta aos verdes-musgos...

Outros cheiros que me fazem voltar a ser criança:
Sargaço. Cheiro de beira do rio, das cacimbas, de limo, cheiro salobro tornado doce, com afinco. Indizível, único, ímpar. Lembro a casa de taipa caiada do meu tio João Pequeno bem lá na seara do Itapacurá dos cajás, mangas, pitombas, cajus e castanhas. Bolo no forno do fogão de lenha. Brotes de goma, grudes. Era o bolo de milho zarolho, beijos de coco enrolados em papel crepom cheio de franja, tudo feito em casa, e mais compota doce de caju e tantas outras regalias. Tudo feito com uma certa magia de encantamento por dona Zefinha tecedora dos Serviços. Tudo muito simples, mas muito feliz!

Aqui em casa o magote de meninos curtia muito o cheiro de queijo-de-coalho assado na brasa, além de raspar as panelas e tachos de resídios e pregas de queijo deixados nas bordas e fundos das panelas de zinco.

Agradáveis conexões: Várzea, eu e eles, eu e minha velha criança interior.

Vivia ali na Várzea das Acácias uma dona Zidora Paulino de boas ideias a tecer seus bolos-pretos de mandioca-mole, rapadura, cravos, erva-doces e coco-ralado, sem fazer conta de tantos flandres de zinco repletos de bolos de fubá, raivas, sequilhos, grudes e tantos carrapichos.

Vivia ali na Várzea de Joaninha Mulato uma amiga sua chamada Carmozina que fazia soldas de goma, mel de cana-caiana, brotes de milho, quebra-queixos e puxa-puxas para adoçar a vida da gente com tantas regalias, dentre bolachas e biscoitos.

Vivia ali na Várzea do rio Joca uma Ana de Manoel de Anísio que fazia louças, panelas, chaleiras, alguidares, travessas, moringas e potes de argila queimados no forno do quintal próximo aos lajedos da rua do Arame, pelos arredores da bodega de Seu Zé Anjo.

Vive ali na Várzea de Vira de Lucila de Preta uma Ana Moita, benzedeira de mau-olhado, ínguas, ziquiziras, quebrantos, dores-de-dente, espinhelas-caídas, acocorada ao pé do borralho do fogão-de-lenha, olhando para o jirau perto do fogo onde fica o alguidar de farofa de tirar feitiço... Em nome de Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, dentre outros pais-de-santo e passes de rezas e curas.

Viviam ali na Várzea de São Pedro Apóstolo tantas lavadeiras dos Ariscos de dona Beatriz, dos Marreiros, da seara das mangas e dos cajus de Virgílio Pedro. Eram bons ares de cheiros gostosos d'água e barras-de- sabão. Baldes, bacias, latas e latões, rodilha-de-pano. Trouxas de roupa, pedras-de-anil. Ornadas de coroas verdes de canapu, melancias-da- praia, beldroegas, juncos e melões-de-São-Caetano.

Vivia dentro da Várzea a dona Dalila Maria da Conceição, rezadeira tão devota das novenas de São Pedro Apóstolo, tão ilustre dona de casa, tão cozinheira. Cravos, alho, pimenta malagueta e cebola. Pitéus e quitutes bem feitos. Panelas de barro. Cozinha antiga toda entisnada no fogão-de-lenha. Bem recheada de favas, feijões, farofas, cuscuz de milho-zarolho, cocadas, doces, tapiocas, torresmos e paçocas de carne-seca. Pilão de cumbuco de coco. Pisando pimenta-do-reino, alho-sal entre outros açafrões e colorau.

Vivia dentro da Várzea a mulher Rosário Gomes, irmã de Livramento, Antenor e Ailton. Filhos de dona Maria e de Seu Antonio Gomes, o bem-feitor de tarrafas da rua São Pedro, amigo do outro tarrafeiro Antonio Euzébio, pai de Chiquinho, colega de Raimundo de Nide, de dona Alice de Abílio, de Antonio Horácio, de Joaquim Rosendo do Pastoril e de Nanuca de Palito lá da rua do Arame. Gente do bem, destemida, dentro da coragem, de vertentes de sangue bom, de boa risada em rodas-de-conversa pelas calçadas em espreguiçadeiras, gente desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e distinta prole em filharada.

Vive dentro de mim a eterna estrela: dona Maria Dalva, minha terna mãe -Mão da doçura. Enxerto do sertão potiguar, descendente dos Pachecos de Angicos e de Santana do Matos. Trabalhadeira. Madrugadeira. Tão corajosa. Bem parideira. Bem criadeira. Seus quatorze filhos, Seus tantos netos. Vive dentro de mim esta mulher estrela Dalva pra vida inteira, apesar de ora ocupar outra seara no andar celeste... tanta nostalgia, tanta saudade se esbugalha pelo interior da minha Várzea das Acácias...

Sigo minha vida, sem exaurir esses amores, apesar de estar de coração partido, a escrever poesia, a amortecer as dores com afinco, procurando se achar animado, ser alegre, dia-após-dia, e, se precisar, não tenho medo da cuca, chego a assanhar até os pelos da venta...

Todas essas vidas dentro do meu poema: Eu, menino João Ludugero maduro, sem carecer de ser cabotino - levando a vida a correr dentro, a versejar feito homem do interior do tempo, na latente lida das Águas Claras da bela Brasília, Capital do Brasil!

Os anos vão passando e a gente vai lembrando as coisas boas que aconteceram há muitos anos atrás. São memórias que fazem parte de nossas vidas. E se tais recordações trouxerem coisas boas, a isto chamamos de saudades.

Tenho saudades de brincar na enxurrada da rua quando chovia. Tenho saudade de apanhar frutas direto do pé, de brincar nos bancos de areia que havia em frente à minha casa.
Tenho saudades dos meus amigos de infância; tenho saudades do cheiro dos lençóis limpos pendurados no varal e de quando passava correndo por eles. De olhos fechados, o pano deslizando sobre meu rosto enquanto eu corria. Tenho saudades de minhas idas ao Arlindo barbeiro, o qual recebia os clientes com aquela sua capa branca característica. Tenho saudades do cheiro da água velva que ele passava no "pé do cabelo" e que dava um friozinho por toda a cabeça.

Acho que cada pessoa guarda um aroma ou um sabor de alguma comida que lhe traz bonitas recordações de infância. Desconheço a razão para este fenômeno, mas a verdade é que há cheiros e sabores que posso passar muito tempo sem sentir, no entanto assim que os sinto novamente, recordam-me de todos esses bons momentos.

Quem é que não se lembra de quando criança, acordar sentindo o cheiro do café e cuscuz de milho zarolho, brotes, tapiocas, coalhadas com mel, pão quentinho que vinha da cozinha?

O olfato é o primeiro dos sentidos que desenvolvemos, dizem que ainda no útero materno e a memória olfativa é a mais impactante para nós, pois uma vez que sentimos um aroma ele provavelmente ficará gravado em algum lugar de nossa memória.

Sabe quando de repente vem aquele cheiro de uma pessoa que a gente gosta? Ou então quando estamos caminhando pela cidade e ela começa a ter cheiro fome?

Ah, nesse meio de tarde, aqui onde estou, está cheirando a café com pão, cheiro de passado, de sítio da vó, de cozinha de mãe, cheiro das coisas simples da vida que emocionam e deixam histórias gostosas de serem contadas, ou então apenas a gostosa recordação de ser sentida. Como era bom o cheiro dos brotes e biscoitos caseiros que minha vó e minha mãe faziam. O de minha avó era feito no forno à lenha que tinha lá na casa aonde morava. As brasas eram retiradas com uma vassourinha feita de Alecrim do Campo, que soltava um cheiro delicioso e que ficava um impregnado nos pães.

Ah, o cheiro dos beijus, tapiocas e omeletes de minha mãe. Cheiro que deixava os cachorros parados e sentados na porta da cozinha, cheiro de saudade, de amor.

Hoje, é o cheiro do vazio com o qual se aprende a conviver depois da ida deles para outros planos.

Como diz o Drummond em seu poema, acredito que existam almas perfumadas, porque creio que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha mãe era assim. Minha avó também.

Elas perfumaram nossas vidas com luzes e cores. E o perfume delas era tão gostoso, tão suave, tão delicado, que hoje penso que elas só mudaram de frasco e o cheiro continua vivo no coração de tudo e todos que elas amaram.

E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desses perfumes que vêm de Deus, que durante anos de minha vida estiveram/estão presentes para me falar de amor, a correr dentro e alto, a deixar o coração partido e os olhos d'água marejados, de tamanhas saudades, dentre lumes e cheiros...