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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

CILA, por João Maria Ludugero


CILA,

por João Maria Ludugero.

Ficava que ficava lotada de cansaços.
Ansiava viver do seu modo,
Mas, quando menos percebia,
Estava lá a fazer tantos serviços.
Esforçava-se a agradar os outros.
E os varzeanos?
Nunca se contentavam, é claro.
Um dia, Cila virou nuvem, além do Vapor,
Foi embora nossa Amiga Otacília Marreiro,
Grandiosa Mãe de Carlos Alberto, que ficou órfão,
E de coração partido, a chorar profundamente tamanha perda.

E Otacília, disfarçada de vento, foi morar no andar de cima,
Fugiu para atrás de outros céus,
Bem além dos Ariscos dos Marreiros.

E os outros conterrâneos, que se contentassem, ou não,
Ficaram, então, sem Cila, sozinhos.
Cila, que nunca estava farta!

Cila,que jamais arredou o pé da lida,
Cila, querida Mãe, grande e bondosa Amiga de todas as horas,
Sempre a ajudar o próximo, mesmo estando de longe,
Como que ajudasse a si própria!
Quantas e tantas saudades passadas a limpo,
Ó inesquecível e querida Amiga Otacília Marreiros!
De certo, estais em paz com Deus!!!

sábado, 16 de maio de 2015

O CHÃO-DE-DENTRO DA INFINITA VARZEANIDADE, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 O CHÃO-DE-DENTRO DA INFINITA VARZEANIDADE,
por João Maria Ludugero

Nossa Várzea fica lá no agreste potiguar,
Onde bons ares ventilam o Vapor de Zuquinha...
No alpendre, quem descansa na rede de algodão
Vê o mulungu alaranjar o chão
Pra acalmar o coração do cabra-da-peste
Lá se serve o babau de batata-doce,
mungunzá, cuscuz de milho zarolho e cocadas,
A Várzea nos eleva a espichar o cangote
Terra dos Caicos, lares de doces mães
Feito o de dona Soledade de Seu Nezinho,
Seara dos papa-jerimuns, das goiabadas,
Dos bolos-pretos, das raivas e carrapichos
da inesquecível dona Zidora Paulino,
Das soldas e dos sequilhos de dona Carmozina,
Dos sonhos, xibius, peitos-de-moça, línguas-de-sogras,
E dos famosos pitéus das faceiras meninas varzeanas
Feito Elba de Mateus Joca Chico, pai do Nego Lia,
Do equilibrado peitoral de Marinete de Joaquim Horácio
E da minha bela prima Vera de Tio João Maul,
Terra do feijão-verde, maxixe, quiabo e da fava,
Torrão das macaxeiras e dos cajás-mangas,
Sem esquecer das jacas, cajus, tamarindos,
Milho assado na brasa, castanhas, puxa-puxas,
E quebra-queixos de cocos-queimados feitos
Por dona Maria Marreiros lá no Arisco do outro lado do rio Joca,
Próximo ao aroma das manipueiras da casa-de-farinha...
O paraíso tem habite-se ali
Bem perto das prensas-de-mandioca,
No deguste de milho assado, beijus e tapiocas,
Tantas e quantas frutas em qualquer quintal
Compotas de caju, coco-verde, jaboticabas e limão,
Pitangas, peitos fartos, filhos fortes e levados da breca,
Sonhos acordados junto à seara de Ângelo Bezerra,
Tanta gente cabia na casa-de-farinha
Do Itapacurá de Tio João Pequeno
Do carrego de mangas, canapus, ingás, pitombas
Lá do sítio de dona Julieta Alves,
Maracujás, jatobás, umbus, gravatás,
Seixos, Formas de Gado-Bravo, Vertente Riacho do Mel,
Ariscos de Virgílio Pedro, Antônio Belo, dos Quilaras,
Nova Esperança de dona Tonha de Pepedo,
Retiro de Olival Oliveira de Carvalho,
Sítio de dona Onélia de Seu Raimundo Rosa,
Juncos, beldroegas e melões-de-São-Caetano,
Dispostos pela beira do açude do Calango,
Aonde um magote de meninos ia andar a correr dentro
E acabava por voar na tarde amena que ainda me nina
Lá onde o tempo renova as esperanças
Lá onde a primavera se enche de flores às onze-horas
E o jasmim-manga enfeita o muro da Escola Dom Joaquim de Almeida,
Perto da praça do Encontro Kleberval Florêncio,
Onde fica a verdejante algarobeira de frente ao Recanto do Luar
De Raimundo Bento...
Varandas em casas de portas e janelas
Que ficam sempre abertas a observar a astuta quebra
Do pote-da-fantasia pra sorte entrar, sem medo da cuca esbaforida.
Em todas as moradas da seara de madrinha Joaninha Mulato,
Terra das Senhoras de Luzes Mãe Claudina e dona Carminha,
Casas animadas em singelas festanças,
De assanhar até mesmo os pelos da venta...
A comemorar a vida simples pelo encanto do interior dos bem-te-vizinhos,
De mesas cheias de brotes, paçocas, torresmos, beijus e tapiocas,
Bem como flores enfeitando os becos, as ruas e os caminhos
Do coração, as camisas-de-volta-ao-mundo, os vestidos de chita,
Os destinos da seara de Seu Geraldo Anacleto 'Bita Mulato'...

O VAPOR VARZEANO, por João Maria Ludugero


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
O VAPOR VARZEANO,
por João Maria Ludugero

Mas que cheiro de cajá é esse, menino?
ah. que cheiro de caju é esse Pasqualino?
É tempo de pitombas, é tempo de jabuticabas....
ah, que cheiro de mato verde é esse Zuquinha?
E esse cheiro, com certeza, deve ser o aroma
que desce da casa grande do Vapor, lá do alto,
com seus gansos e pavões, 
suas penas coloridas, seus jardins e arvoredos, 
seus açudes e riachos.
Quiçá do Itapacurá, do Arisco, 
dos melões e das melancias, será?
não seria lá das bandas dos Seixos de Seu Onélio
ou das castanhas de caju assadas
lá dos Seixos de Dona Santina,
ou quiçá das bandas de João Pequeno?
Cheiro de terra molhada das bandas 
do matadouro, cheiro de curral.
Alegria de varzeano é plantar batata-doce 
às margens do rio Joca,
É fazer roça e roçado, 
quando começa o tempo da invernada
É fazer coivaras e encoivaradas, é semear a vida
É fazer plantio de feijão, milho, algodão, jerimum e macaxeira
Alegria de varzeano é ter maxixe plantado, batata-doce e fava
lá no roçado ao largo da Fazenda do Vapor da família de Zuquinha.
Alegria de varzeano é descascar mandiocas,
É fazer farinha, farinhada, prensar mandioca-mole,
É fazer beiju, grude de goma, mas que cheiro é esse de tapioca?
Alegria de varzeano é plantar batata-doce e macaxeira
É ver a enchente do rio no tempo da invernada...mas que espectáculo!
O trovão troveja tudo, balança todo o coqueiral lá do rio da Cruz.
Relampeja até no topo da igreja de São Pedro... Valei-me, Deus!
E a gente tomava banho de chuva no meio da rua, na dança da chuva.
Choveu de madrugada, encheu o açude do Calango.
Serenou a alegria da morena varzeana. E lá tem gente bonita!
O tempo passou. o tempo bom trouxe os cheiros e os temperos
o tempo trouxe lindas morenas Marinas, marinheiras Izabelas,
traz a beleza estampada no sorriso de Iane Santina,
E a juventude de Terezas Gabrielas, dentre tantas outras belezas,
Que trazem no sangue o cheiro da terra varzeana,
O cheirinho de erva-doce, de cravo e de canela.
Eta, cheirinho gostoso, de pamonha e de canjica!
Ah, veio a lembrança do Seu Bita, 
a puxar sua quadrilha de São João,
Anarriê, Viva São Pedro! Que beleza!
Dona Zilda pega um terço rotineiro.
Dona Wilma reza uma prece primeiro.
Dona Risolita doa um garrote ao padroeiro.
Dona Alba Albanita tece com zelo 
o manto para a procissão de São Pedro.
Dona Palmira Teixeira e seu Adalberto 
alegram-se com a festança.
Enquanto Dona Penha abraça Seu Olival, 
todos com nova esperança,
É tempo de invernada, é tempo de alegria!
Sem esquecer de Dona Onélia que encantava com sua cantiga
pra ninar o sonho de Janilza, além de rezar sua reza forte
para achar e desencantar objetos perdidos.
Dona Julieta, Vó de Edileusa, 
estrelava na banha do tacho tantos ovos caipiras,
Enquanto Dona Lídia de Seu Louro 
preparava Simone para coroar a Santa
Dona Maria de Cícero cego sanfoneiro tirava a poeira da sanfona
Dona Maria de Seu Odilon preparava a novena para receber a Santa desatadora de nós. Ave-Maria, Cheia de Graça! Rogai por nós!
E a vida passa. E as pessoas passam na vida da gente.
A enchente do rio passa. E a gente atravessa, 
porque a vida é uma travessia.
E temos muito pouco tempo pra sonhar.
Mas Cícero cego sanfoneiro, nem clareou o dia, 
tocou um forró maneiro
e anunciou que a vida é passageira, mas vale a pena ser vivida.
Senão a gente dança...
Mais uma jornada, Mais uma fornalha, mais uma farinhada
Mais um dia de lembranças, 
mais um dia pra viver a vida que a gente quer
mais um dia pra cuidar...da vida.
Saudade,
Eu tenho um açude no meu peito
Que é quem rega esse eito de carinho
Pra de noitinha você nele se banhar...
açude do Calango.
Tenho um rio no meu peito,
Que é quem rega esse eito de carinho
Pra de noitinha você nele se banhar...
rio Joca.
Tenho um coração partido, sem partido,
Que é quem rega esse meu peito de saudade
Que não me separa nunca das pessoas 
que lá deixei naquele lindo torrão,
minha Várzea, meu amor.

TALHADAS DE VARZEANIDADE, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TALHADAS DE VARZEANIDADE,
por João Maria Ludugero

Foi para ti
Que desvendei a mulher que chorava
Com uma trouxa de roupa na cabeça
Para ti soltei o encosto da Várzea
Toquei na Vargem do rio Joca
E para ti foi tudo mergulhar no Riacho do Mel,
A adocicar meus sonhos acordados...
Para ti juntei tantas e quantas palavras
E todas me consentiram a correr dentro da lida,
A soltar meus bichos pelo vão do Vapor de Zuquinha
Num átimo de segundo em que dei Formas ao Gado-Bravo,
Os Ariscos se carregaram de cajus e mangas,
Num vasto balaio com sabores do Itapacurá.
Para ti fiz cantiga de bem-te-vizinho ou sanhaço só,
Às minhas mãos abriram o formoso mamão maduro
Reabri os gomos de varzeanidade astuta, sem enfado,
Ganhei o mundo a partir das quatro-bocas
Da seara abençoada por São Pedro Apóstolo
E pensei que tudo estava em nós desatados...
Nesse doce enlevo de cabra-da-peste,
De tudo sermos possuidores
Sem nada termos a contento
Simplesmente porque era madrugada
E estávamos diante da mulher que chorava,
Enquanto eu deitava em teu abraço
Para me procurar no coração partido...
E antes que a escuridão nos enlaçasse ao Vapor,
Nos cingindo a cintura pelo chão-de-dentro da lida,
Ficávamos com os olhos marejados de saudades
Vivendo feito um sanhaço só a se deliciar
Numa formosa talhada de mamão maduro.



CECÍLIA, MENINA-FLOR DESDE O INTERIOR, Autor: Poeta João Maria Ludugero.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
CECÍLIA, MENINA-FLOR DESDE O INTERIOR,

Autor: Poeta João Maria Ludugero

Menina do interior,
O cheiro da brisa,
Lume do alvorescer,
Sobre o jasmim-manga,
Pétalas de rosa branca ou rosadas em afoita cantiga
A se espairecer dentre as onze-horas multicoloridas...

Flor alaranjada do mulungu da tarde amena varzeana,
Menina-flor iridescente que me nina o astuto colibri,
Num átimo lusco-fuscante ao arrebol do agreste,
Prendada menina da Várzea ensolarada,
Traz beleza à vida em fartos bons ares
A andar, a correr dentro e a voar alto,
Sem qualquer medo da cuca esbaforida,
Menina de agora a adornar o chão-de-dentro
Das raízes da seara de dona Carminha,
Nobre senhora de tantas luzes benquistas
Advindas à Várzea de Ângelo Bezerra...

Bela menina do interior, dia-após-dia,
A vida te faz assim, princesa da ternura,
Registro de bem-estar, ávida varzeana,
Nas tábuas do presente, bonita Cecília,
A beleza natural existe e a descreve plena
Com afinco, amor e todo o carinho, que seja
Dando mimos ao seu gato de estimação ou
Compartilhando acordes de sonhos reais,
Com habite-se ao aconchego da poesia.

O ELO DA VARZEANIDADE PLENA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
  
O ELO DA VARZEANIDADE PLENA,
por João Maria Ludugero

VARZEAMAR: O AMOR QUE ACENDE A VÁRZEA
DE DONA ROSA DE SEU ANTÔNIO VENTINHA,
A ANDAR, A CORRER DENTRO E VOAR ALTO,
SEM MEDO DA CUCA ESBAFORIDA...
MAS SE PRECISO FOR, SEM DÚVIDA NENHUMA,
SOU MESMO DE ASSANHAR
ATÉ OS PELOS DA VENTA,
NÃO SÓ DE MANJAR NA LIDA DE PAPA-JERIMUM,
NÃO DESANDO PELO RIACHO DO MEL,
NÃO ESMOREÇO NA BEIRA DO AÇUDE DO CALANGO,
NÃO ESCORREGO NO LAJEDO VERDE-MUSGO DO TEMPO
PELA SEARA DOS SEIXOS DE DONA SANTINA
NEM ME ENTRISTEÇO AOS BANHAR TODA ALMA
SEM ARREDAR A SAUDADE QUE ARDE NO PEITO,
ASSIM A TRANSBORDAR MEUS OLHOS D'ÁGUA
AO COLHER UM CAÇUÁ DE CAJÁS, JACAS, CAJUS,
CASTANHAS E MANGAS ROSAS, BACURIS E ESPADAS
EM PLENO CARREGO PELOS ARISCOS DE VIRGÍLIO PEDRO,
PELO SÍTIO DO MARACUJÁ DAS PITANGAS E DOS CAJÁS-MANGAS,
PELO ITAPACURÁ DAS MACAXEIRAS E DAS PITOMBAS,
PELO UMBU DAS CANAS-CAIANAS E CURIMBATÓRIAS,
PELAS FORMAS DAS ANTIGAS E RENOVADAS ESPERANÇAS,
DESDE A CASA-DE-FARINHA DE DONA TONHA DE PEPEDO
SEM ESQUECER DAS TAPIOCAS, BEIJUS, GRUDES DE GOMA,
COCADAS, RAIVAS, SEQUILHOS, CARRAPICHOS E BOLOS-PRETOS
TÃO BEM FEITOS NA COZINHA DE DONA ZIDORA PAULINO,
E, ATÉ NOS DIAS DE HOJE, PERMANECEM NO BOM-GOSTO
BEM APANHADO NOS ALGUIDARES, PILÕES E MOINHOS
DA ASTUCIOSA MARINAM DE LICA DE CHIQUINHA DE LEOPOLDO,
OU DAS COALHADAS, NATAS E QUEIJOS LÁ DO SÍTIO DE SEU TIDA.
NEM CAREÇO DE SER CABOTINO, AO ESCREVER MEUS VERSOS,
PROSSIGO NA PELEJA DE QUEBRAR O POTE,
REALIZANDO SEM ALARIDO, DIA-APÓS-DIA,
SEM TEMER AO ESTIO DO AGRESTE DE ÂNGELO BEZERRA,
SOU ASTUTO CABRA-DA-PESTE, POETA LEVADO DA BRECA
E SIGO CONTENTE MENINO JOÃO MADURO LUDUGERO,
TÃO ESFUZIANTE NA EUFORIA DE AUTENTICAR DE VEZ
UM VASTO BORNAL DE TANTAS ILUSÕES IRIDESCENTES,
TRAZENDO À TONA, DE FATO, O ELO REAL DA FANTASIA
QUE ME NINA AO ARREBOL DA TARDE AMENA VARZEANA.