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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

FOGO NAS VEIAS


O poeta arde em achas, 
O poeta mira-se de pé,
Levanta-se, num sopro, das cinzas,
Circula de todos os lados e de banda
Ao emendar os cacos 
Do coração partido. 
É um guerreiro 
Das palavras benditas,
É mesmo um cavaleiro 
De fogo nas veias, 
Desses de acender o sol 
Em chama e brasa. 
Sua rota, ele traça 
Ao passar sebo nas canelas
E ganhar o mundo, eira e beira,
A desvendar almas encostadas. 
Ele é o retrato vivo 
No instante preciso
Em que se escuta 
Dentro do canto 
A imensidão 
Dos sentidos.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

DE QUINA PRA RUA


Do ponto de partida, 
Sofia aprende a ser prostituta,
Só pra ganhar a vida. 
Ela não sonha alto ao subir no salto.
Ela dobra a esquina sem escolha.
Ela roda a bolsa, se apruma como pode
Ao meio-fio da venda,   
Fazer a corte lhe custa 
Os olhos da cara.
Desde menina nunca havia sonhado 
Com nada parecido: a vida nua e crua.
Debaixo da ponte ou do viaduto
Presa fácil, cai na lida,
Desvenda a coragem na rua,
Suficiente para entregar a carne
Antes que venha a vida afiada 
E, num toque de caixa, confisque a sua! 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

QUANDO É TEMPO DE MANGAS


E aí eu fico só de cubar
De vontade de trepar num pé de manga
Carregado de frutos,
Quando chega o fim do ano na Várzea.
Manga verde nessa época madurando
Chega a dar água na boca 
Pelos quatro cantos,
Pelas quatro bocas adentro,
Logo espalhando folhas nos quintais, 
Expondo frutas amarelas no alto das copas
A roubar a cena, 
Caindo sob o olhar adocicado 
De quem a corteja ao léu
Ou lambuzando o chão 
De quem a apedreja ao céu.
Pássaros a bicar as polpas
E até o cão chupando manga
Matam de inveja os pobres mortais.
Apetitosas mangas-ouro ou rosa
São assim feitos peitos em riste ao mel
Atiçando os mais aguçados paladares...
E aí eu fico só de cubar, 
De soslaio, a espioná-la, 
Enquanto ficas admirando um balaio 
De mangas espadas,
Toda debruçada, 
Com garras, unhas e dentes, 
Voraz a chupá-las!

sábado, 17 de novembro de 2012

O PERFUME QUE FICA, por João Maria Ludugero




Ora as palavras me inspiram 
Vou direto ao teu jeito de flor
À flor da pele num afago 
Viajo em teu perfume 
Aromatizado, embeveço minha alma 
E sigo incansável num evolar afoito 
A captar no ar a tua essência 
Etéreo me inteiro, recomponho os vãos, 
Antes mesmo que o frasco aberto se evapore 
Antes que o vidro, 
Mesmo vazio, perdure ou se quebre,
Passando a insistir com teus cheiros, 
Não hesito, divago 
Em tua fragrância, consentido, 
Corro dentro do cérebro extasiado, 
Quase como um sopro sobrenatural 
Feito algo assim sagrado 
Dentro do ser belo 
Como um meio sublime 
De comunicação com o divino. 
E de tal sorte, mergulho profundo 
Num voo rasante, sem fadiga
Nem receio de que tua essência exale e acabe, 
Ainda que só me reste um cheiro de jasmim, 
Procuro manter a calma, 
pois bem sei que embalagens servem 
para guardar recheios, 
Frascos guardam perfumes 
E corpos são recheados de alma!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

VOLÚPIA


Sim, há braços, 
Há pernas para que as quero
Abraços apertados por dentro
Há mãos a acariciar cabelos, pelos, 
Há tranças em cabeças feitas
Ventas de cheirar aromas
Bocas ávidas a desvendar,
A beber com volúpia
Palavras que gritam silenciosas
Quando cais de boca no céu da minha fala
E traduzo a tua língua em chamas
A ascender as velas do meu barco
A acender as velas na penumbra
Quanto me instigas a matar a fome
Num jantar à luz de velas
Desses de tirar o fôlego ao desvelo
Num velejar com noites de sol
Depois de nos expiar a lua nua
Num sensacional banho de prata.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PRIMA VERA

Brincando, ela me tirava do sério
Chamando-me pra brincar de fugir do tédio 
De correr pela capoeira até chegar ao Vapor,
E escorrer, afoitos a escorregar 
Num banho de bica lá no rio Joca.
Ela moça, linda, morena, brejeira
Cheirando a doce de leite, airosa,
Tão bem vestida de chita, cabrita,
Tão bonita minha prima Vera,
Tão gata, gaiata, manhosa, 
Turbinada, com um decotão 
Desses que valha-me Deus!
Dava  para ver o umbigo de fora
E me deixava de joelhos a rezar, 
Sem pecado nem juízo, contrito, 
Mas, justo eu que nunca fui santo,
Não me cansava de dançar ao vento, assanhado,
Com a brisa na cara, com gosto de ser contente,
A uivar meus sonhos acordados de moleque, 
Louco por roubar um beijo desses de acender
Bundas de vaga-lumes e estrelas,  
Vendo a prima vera solta a cirandar só pra mim,
A pagar peitinho esquerdo, à torta e à direita...
O danado a escapulir e ficar com o bico 
Todo de fora do benevolente decote.
E o sol aureolado, ao lusco-fusco a se deitar na tarde amena,
Enquanto eu, bobo que só vendo, queira acreditar! 
Deleitando-me, doido pra ver aquilo tudo fora do lugar.
E, por derradeiro, meus olhos agradecidos 
Haja vista aquilo tudo ter valido a pena... 
E como valeu a graça de ter perdido a compostura.
Não tem preço nem vergonha essa dádiva.
Só o arrependimento tarde é que perde a validade!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

MEMÓRIAS DA VÁRZEA: CASINHA DO MATO VERDE



De lá do  sítio do Vapor
Dá pra sentir o cheiro agreste que apraz
Do mato verde que o vento traz 
Da paz na escuta dos sons das folhagens 
E do encanto do bem-te-vi
Do canto do galo-de-campina
Do canto do canário-de-chão 
Que fazem a festa do verde perto 
Anunciando que a vida é simples.
A vida ali caminha devagar
O riacho escorre sem pressa
A abelha faz o mel no riacho do mel
Os anuns catam o gado a pastar
Como quem recebe um cafuné na nuca
Lá não carece de cancelas ou cercas
Nem de tramelas nas janelas
Nem do medo da cuca pegar,
Todos os bichos convivem ao léu
Os cães brincam com os gatos aos sopapos,
As galinhas-de-angola cantam forte 'tô-fraco',
Enquanto abandonam seus ninhos pelo mato
Para outra galinha-mãe de aluguel cuidar da ninhada
Como se fossem seus os pintinhos e os patos...
Tem coisas que só se pode ver de perto
Na casinha verde lá da minha Várzea 
Da inesquecível Joaninha Mulato.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ENTRE NÓS DESATADOS



Com os pés no chão, viajo
Deixo o coração ir longe
Giro perto do sol, 
En/girassol/arado
Ilumino pingentes de lua.
Via-lacteado me estrelo no azul
Só pra me achar nas nuvens
Após ganhar o mundo 
Por um beijo teu...
Cometo loucuras no céu
Da tua boca, falo tua língua 
Fluentemente consentido a ler tua alma
Destravo as trevas, acendo chamas,
Muitos afetos trocamos na vida, 
Alegrias e dores bem guardadas
Juras de amor sem segredos, 
Dribles na solidão 
De sermos apenas dois,
Descomposturas e quereres afoitos,
Sem a polícia andar atrás da gente.
Em doces murmúrios de partida
Conforto e alegrias nas chegadas,
Doce deleite em camas separadas.
E assim se vislumbra a felicidade
Ora desatada sobre nós!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CABIDES E RABIÇACAS

E dependurado em ideias me inspiro
se miro até onde a vista
do meu eu-menino alcança. 
De danadices de menino, 
o moleque aqui entende de cor; 
posso até dizer prolifera-me 
em mais ser do que ter 
sob os ângulos tangentes do ente adulto 
rente às retas onde o corpo demora, 
até atravessar o arco da velha, de súbito, 
sem cancela ou calos, com sebo nas canelas, 
a distância que em outros me desdobra. 
Ó serelepe da mulinga esse menino afoito, 
que dá rabiçacas nas horas pesadas do tempo 
e logo passa a limpo os ponteiros do relógio, 
sem descuidar de arregaçar as mangas, 
nem cós nem colarinho ali se avia. 
Cá com seus botões, cinge casas, descabido, 
arrematando estripulias, quebrando vidraças, 
arremedando pássaros e abrindo gaiolas, 
girando sóis e a roda do mundo 
e até atirando pedras na lua. 
Sem temer as convenções de compostura 
seu corpo recusa, feito menino agreste, 
a correr solto pelas capoeiras da Várzea, 
e esquece as medidas impostas 
ao homem e a sua hora. 
─ Pouca ou nenhuma serventia 
terá por preocupação, 
pois terá abolido o método e a forma 
que queira pendurá-lo num cabide, 
pois dará rasteira no quebranto, benza-Deus! 
e, teimoso, se levantará novinho em folha!

domingo, 4 de novembro de 2012

O POTE


Eu tenho um coração,
Um pote rachado, que ainda serve
Para guardar água boa de beber,
Potável água fresca: o Amor,
Vertente de uma cacimba na seca
Olho d'água que afasta a sede, 
Nutre e oasismeia-me 
Pelos caminhos desertos
Por onde tenho andado.
É essa água que ainda me sobra
Que umedece o peito recauchutado,
Que mesmo minguada, supre e tem me dado
Alguma vazão que a esperança assopra.
Meu coração, esse pote fantástico,
Assim retocado, de quebra no estio,
Guarda em seu bojo, precioso líquido
Que me dá ânimo quando a mim perpassa.
Néctar divino, líquido sagrado a escorrer na veia,
Que eu não o tenha à míngua por descuido.
Nunca me falte, mesmo sendo salobro e escasso,
Que me poupe a vida de morrer vazio.

sábado, 3 de novembro de 2012

COM AS PENAS DAS TUAS ASAS, por João Maria Ludugero


Confesso:
Escrevo poemas 
até em papel de pão, 
escrevo com giz no chão, 
poemas de dentro,
crio, invento, recrio,
dou corda à alma, recreio.
Com as penas das tuas asas
persigo meu intento, realizo
assim afoito, livre, leve e solto
adivinho a sorte, de sentinela 
ao abrir papel ao vento no realejo...
Escrevo sem laços ou algemas,
sem cabrestos nem celas,
nem gaiolas, fojos ou alçapão.
E por falar em penas, 
ensaio voo rasante 
só pra chegar ao céu 
da tua boca ardente. 
Sei que há pássaros raros 
libertos em meu peito
São assim feito poemas 
abertos num livro divino 
escrito para seres humanos...
Na dança de Deus, canto em êxtase
e tiro Deus pra dançar junto.
Sou a palavra cantada, toada ao luar,
divina cena, espetáculo ao vivo
no palco de mover o mundo
de todos os lados e telas.
Eu faço poemas nas nuvens,
danço com nimbos, 
faço chover e estio.
Danço com a lua e suas pratas, 
louco e lúcido, 
depois de tantos sóis, 
giro o mundo
e ganho o aplauso das estrelas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

UM VESTIDO PARA KIRO

Menina de Nova Canaã,

anjo de carne e osso,
da tua poesia brota o norte
que adocica o mel da terra,
quando trazes na boca 
o néctar da flor.
Da tua pele rescende pólen e cor,
criatura abençoada 
pela maciez dos dedos de DEUS.
És toda candura, suor e sal, 
és favo de sublime toque 
da alma em flor.
Bem te vejo a reinar
livre, leve e solta,
pés descalços 
tocando as nuvens de algodão,
sem arredar os pés do chão.
Diva menina, mulher, 
moça vestida de sonhos,
és canto, canário da terra,
és cena, palco e cenário...
És paisagem 
que descansa o olhar,
cabeça feita de AMAR, apenas 
sem promessas nem juras, 
um se deixar por si só
e SER 
bonita 
de verdade!

domingo, 28 de outubro de 2012

DANADICES E BRABULETAS



Que tal passarmos sebo nas canelas
Sairmos pela Várzea a dentro 
Seguirmos juntos quais crianças peraltas
Fazendo pelo mundo danadice,
E tudo que se diz que é medonho...
Eu bem apanhado de calças curtas, 
Já de pelo nas ventas, 
Tu de cabeça feita a pensar 
fazendo bichos nas nuvens esfiapadas 
Com brabuleta azul de plástico
No cabelo açoitado pelo vento afoito. 
Que tal acendermos juntos vaga-lumes,
E voar com as brabuletas lindas, cintilantes,
Com suas asas leves, coloridas,
Correndo soltos pela tarde agreste...
Poder correr, amar, chorar, 
E até berrar com as cabras e cabritos,
Sem se importar se é certo ou loucura...
Furtar lá do vizinho belas e rosadas romãs!
Fazer cantigas de improviso, enamorados
Perder-se entre as frutas bicadas do pomar
Sentir-se um magote de pássaros 
a gorjear na tarde amena,
Achar-se na mágica de brincar, 
Sem quebrar a fantasia e o encanto
Tais quais moleques cheios de algaravias,
Levando a sério esse brincar incansável 
que nunca envelhece  a alma da gente, como agora!

sábado, 27 de outubro de 2012

O POETA NU



E por falar em nudez, 
sabe-se que em gemidos singulares 
de nudez fomos feitos, 
sem nenhuma vergonha. 
Num marejar de lágrimas de nudez partiremos 
de cabeça feita, afoitos.
Entretanto, o corpo hiberna sentenciado
na condenação ao pudor desejado. 
Fecha-se como um juízo de páginas censuradas. 
Como um jardim de ninfas amaldiçoadas, castra-se. 
Como o medo que se acabrunha insone
num cálice de fogo glacial.
Escrevo-me despido de composturas,
tal como este poema livre de vestes ou rimas, 
sou princípio de lágrima presa na garganta. 
O poema, esse, desconhece a nudez das fênix.
Adentro-me, leio-me 
como palavra nunca pudica, indiscreto,
Disposto a me despir 
da efêmera beleza 
de ser apenas do/ente.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

POEMA DO FIM DO MUNDO


Antes do fim do mundo,
eu só queria dizer
que 'o amor é importante, porra!'
Que 'tamos de ovários cheios de violência,
que meu jardim ficou mudo,
murcharam os girassóis amar-elos,
as folhas cessaram de balançar
e o derradeiro Sol abre buracos imensos
na crista da terra nua, S.O.S.
Ainda não vou me afobar
com o tempo que resta pra estourar
os miolos da cuca desvairada...
Sento à mesa a devorar meus medos
com as tripas a sair pela boca,
tomo um café amargo e aguardo,
quem quiser que se deprima...
Quando a tempestade chegar,
pego uma onda até a esquina
e de carona no caos vou a nadar,
atravessando a (des)humanidade
que há tempos só afunda o mundo,
ainda de olho a esperar pelo segundo sol.
Até quando ficar de braços cruzados
esperando que o mundo desabe
sobre as nossas velhas cabeças?

sábado, 20 de outubro de 2012

TÁBUA DE SALVAÇÃO


Rimas? Para que tantos reversos,
Tantas palavras a vicejar em alegria e raiva.
As palavras por vezes salientes, consentidas,
Outras vezes esvaindo-se 
Em sangue e seiva, em carne viva
Erram-me a veia, a sangrar entretidos desafios
Ao me morderem a vida com os dentes.
Poesia minha de todo santo dia, 
Pé na tábua, a que me salva, lúcida 
És minha irmã na lida a ganhar o mundo
Com exuberantes seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes prolifera súbita,
Grita, uiva, engravida mulheres e homens,
És capaz de fecundar sementes escondidas.
Poesia minha amiga minha irmã diuturna em dádivas,
Diva pagã da vida 
Que inventei só pra não ser doente 
Quando destemida me ensina 
A passar o tempo fazendo filhos na coragem.
Poesia minha potência, 
Meu juízo sem cabrestos,
Meu incesto tão puro 
Que nem sei dizer ao certo
Se é na loucura ou lucidez 
Que faço amor contigo!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

GERMINAÇÃO


Nenhum verso vira pó
Todo verso vira pólen
Toda poesia desabrocha 
Extravasa à flor da pele 
Molha o bico da gente 
Adocica o mel do riacho 
De lumes e perfumes ao vapor 
Toda poesia é semente 
Que germina ou vira pão 
Toda poesia é tempero 
Desde a flor da pimenta 
Ao refresco da brisa à mesa 
Que cheira a maracujá 
Nesse chão que nos dá chão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O ALVO




Depois de beber 
no céu da tua boca, 
estou a salvo inteiro, 
meando-me ao fio do labirinto, 
saciando meus olhos ao ensejo 
de me achar preso ao universo 
do peito movido por um amor 
que me livra solto, 
embalado assim na torre 
seguro em tuas tranças, 
andarilho anoiteço teimoso 
a divagar pensamentos arteiros 
no impulso de descansar no teu colo, 
deitar no teu seio, 
deleitarmo-nos 
enamorados da lua... 
E eu a recomeçar nos teus olhos 
meus maiores almejos

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PRIMAVERA


Entre o pólen e o néctar,
Eu bem-te-vejo cedo se avizinhar
Dividindo espaço com as borboletas
Verdes, amarelas e azuis...
Descubro ovos, larvas, ninhos. 
As borboletas parecem eternas
Até quando etéreas se lançam
Pelo vão das horas primaveris,
Além do pó, poeira, pólen, 
Poemas em flor-essência.
Entre meus pés de moleque 
A se afoitar pelo horizonte,
Há a estrada dos acordes  
Que me leva da noite à esperança,
Onde meu eu beija-flor 
Passa a adejar, 
Acontece,
Floresce,
Amanhece 
Nas adjacências
Num teimoso recomeçar...

domingo, 14 de outubro de 2012

CONFISSÃO


Deixa-me solto
Desmuniciado 
Pássaro a cantar 
No teu ouvido, 
A beijar a flor que adorna o dia 
Bem-te-vejo a acordar o céu 
Com o sol disposto 
A girar o mundo desvendado 
Em reflexos de aventura 
Que jaz no teu rosto 
Num rutilar de acaso que me faz 
Inspirar renovadas ideias 
A defender meu chão 
Feito um tetéu no cio 
Horas são 
Horas vão 
Na oração de um poeta 
Que brinca de pega-pega 
Ao te confessar segredos
Ao pé do ouvido.