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domingo, 18 de julho de 2010

VÁRZEA, A CULTURA TEM BERÇO

o jasmineiro não se demora
a enfeitar sua primavera
de sentinela, o apóstolo padroeiro
no topo da igreja, a olhar por nós,
diante das duas palmeiras,
alvorada e aurora,
nos fita com céu
que seu povo venera

Várzea, terra prometida,
berço de Ângelo Bezerra,
um sutil ritual a faz genuína
generosa mãe não se põe a chorar
nunca desampara os filhos seus
ela sacia sede e fome
até em nome da lenda
não dá lugar à mulher que chora
arreda a tristeza num instante,
pois esta vira miragem e vai embora,
desaparece por esse mundo de Deus
e quando chora essa menina,
chora de um jeito
que guarda seu pranto
no açude do Calango

Várzea, cidade da cultura,
vertente de valores,
resgate de nossas raízes,
campo nunca ingrato,
que possui as bênçãos
da catedral azul de São Pedro
e a crença nascida
da mescla da raça varzeana
que compõe a alma
desse povo forte e hospitaleiro
solo sagrado do agreste, vale fértil

terra abençoada de Capitão Gonçalo
e da inesquecível Joaninha Mulato

sábado, 17 de julho de 2010

CON-VERSOS EM FLOR


A vida me fez assim: 
um eterno aprendiz de poeta, 
munido de palavras
num mundo de palavras
vou con-versando com elas,
lembrando de podá-las
como às minhas roseiras,
sempre que necessário 
para a troca de aromas
dos ares da cidade
que me enquadra
no casulo-moldura,
só conseguindo sair
desse uni-verso 
que me redoma, 
através da poesia
que me redime 
que me restaura 
que me retoca 
que me renova

que me inspira
que me traz à tona 
que me revigora
e não me exaure,
porque a mais antiga flor
do meu esperançoso jardim
sobrevive a tudo,
ensina-me 
a recomeçar
por entre os espinhos

TEMPORADA







autor: João Ludugero

o tempo bateu na porta
eu abri sem receio, de vez
escancarei também as janelas
deixei que seguisse caminho
soltei os cachorros
virei as latas
e  deixei o sol entrar
de passagem, ele se foi
de mãos dadas com a solidão

não pedi para ele parar
cansei de esperar o tempo
na beira da estrada
larguei mão da dúvida
e peguei carona
na rosa dos ventos
na boleia da dor
antes havia esquecido a direção

agora achei meu rumo
e aquela luz no ponto de partida
deu-me o devido prumo e a sensatez,
lembrei-me daquela canção do rouxinol
que me embalou, fez-me acordar
e desistir de ser atropelado
pelo caminhão do tempo
estou salvo, graças a Deus,
cansei de ter um coração suicida
e agora não conto as horas
para ser feliz. ponto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

VÁRZEA MENINA


autor: João Ludugero


como negar
que és minha estrela
minha pequena
menina bonita,
minha artista e arteira,
arte fato, arte sã,
estrela da manhã
estrela vespertina
minha estrela-guia?

se até a lua
desce para em ti 

a prata derramar, 
até quando meia
se banha inteira
se esparrama faceira,

nas águas espraiadas
seja no leito do rio Joca

seja no espelho verde-musgo 
das águas do Calango

menina diva, 
divina dádiva 
que se lambuza
em riachos 

do mais puro mel,
feliz cidade

que se enfeita
com laços e fitas,
que canta e dança
que deveras encanta
que abraça sorrindo
a todos que vão chegando

 
hospitaleira terra-mãe,

dona da coragem e fé santa,
abençoado vale fértil 
que transforma em realidade
outros sonhos acordados

e outras tantas esperanças

quinta-feira, 15 de julho de 2010

ALÉM DA LENDA, A PAIXÃO

foi neste vasto vale
nessa Vargem agreste

nesse pasto 
que desce do Calango
que cerquei minha alma
de verde 

que me dei a mim
a tua saudade...


e o silêncio do pasto
fiz por merecer,

porque não barrei
meu coração-borrego
que se foi embora,
desgarrado
junto com a mulher que chora
lenda a fora
dentro de um carro encantado
que seguiu descaminhos

com sede e fome de querer
tuas curvas serenas, teus riachos
e a nostalgia que atravessa
os dias que alcançam a calma
que me faz estremecer
só de pensar que não posso mais 

te perder em mim, de certo


banho de cavalos soltos, 
cheiro de curral, lenha,
fazenda de Ré da Viúva 

Seixos e lajedos ao sol 
água empoçada, lagoa comprida
ordenha, leite, vasilhas no jirau
e a paz que tenho contigo



mas no peito se agita o coração,
uma égua desvairada

que se contenta com a ilusão;

que prefere essa impostora
a ter que enfrentar seca e arado
no cultivo da terra 

que nos dá verso, poesia e chão

minha Várzea quem diria,
agora me causa banzo
de um imenso quase beijo
de um dilacerado desejo
de um coração espantado,

que nunca te disse adeus!

quero amanhecer 

nas tuas ruas, nos teus becos,
ter um dedo de prosa ali na venda

de Dona Penha de Seu Olival
preciso sentar no banco da praça
plantar meu olhar 
na verdejante algarobeira
sentir o sereno, bons ares 
advindos do rio Joca

ir-me ao encontro 
do teu Vapor vital
e com as duas palmeiras 

da catedral de São Pedro
a servir de testemunhas,
quero apontar para tuas manhãs,
quero selar meu destino ao teu
com toda força e fé revelada, 
convicto de que minhas esperanças
se renovam nessa aliança de amor
que há entre eu e ti, 
minha Várzea amada!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

'VAMBORA' PRA TERRA DOS CAÍCOS


  Eu nasci perto do rio Joca
  na terra de Cícero Caíco

  com o rio aprendi a correr
  contornar a seca, o estio
  cavei cacimbas,
  peguei na rodilha
  carreguei o pote
  apanhei água no riacho,
  me benzi diante da cruz 
  de madeira amarrada 
  com arame farpado
  
  eu vi ali na minha Várzea
  secas e cheias, 
  enchentes de alagar
  a rua do arame 
  até o oitão de São Pedro

  eu vi roças e roçados 
  o milharal deitado 
  pela força das águas
  e jerimuns serem carregados
  pela correnteza
  eu vi o solo ser fertilizado,
  Vapor, vale abençoado
  
  terra da lenda da mulher 
  que chora, chora e some,
  mas ali não se morre de fome
  apesar de atraírem 
  para outras terras
  propostas sedutoras,
  pode-se até correr o mundo,
  ir-se parar nos cafundós de Judas,
  mas sempre se há de voltar um dia
  para a terra de dona Zidora
 
  onde a gente enterrou o umbigo,
  onde se pode contemplar
  o mais belo cenário, de fato,  
  onde o vento faz a curva no riacho
  a nos trazer a brisa do açude...
  seria inútil o apelo do mar,
  se o Calango nos chama,
  'vambora' pra Várzea dos Caícos!

MEU PASTORIL VARZEANO


de novo caminharei pela  rua
da saudade, sem pressa,
pelos becos da poesia,
reviverei sem segredos
brincadeiras e folguedos
que dão de cara com as pastorinhas
de seu Joaquim Rosendo
vou tanger boas lembranças
e dançar junto, fazer farra
encarnando a alegria
vou azulejar meu espírito,
banhar-me na brisa mansa
da cantiga que esbarra devagar
lá, onde o céu teve de alongar-se
para tocar as barbas de São Pedro

meu pulso está firme,
o coração ritmado
a bailar com a lua branca
que derrama sua prata na ilusão
pelas tranças de fitas multicoloridas
das meninas varzeanas,
que borboleteiam na luz
a purpurinar a alma da gente
afastando dores, entretendo
suplicando por festa, trabalho e pão

no doce encanto desse solo sagrado
de areia brilhante
de alegria, minério raro,
vou batendo os punhos no peito,
agradecendo e louvando a vida,
pedindo licença  pra mais uma dança

carregado de leveza, vou vivendo
aprendendo com a minha gente
que de alma pacata
caminha de volta pra casa
de corpo feliz da vida,
simplesmente prosseguindo
por ter/ser o que desejara,
dançar junto, de perto,
festejar o bom da lida
aliado ao pastoril
de Bita Inácio e
de seu Joaquim Rosendo

oh, senhores donos da casa,
dai-nos licença, para a festa começar
com as bênçãos azuis do apóstolo
vamos puxar os cordões,
só pra ver a alegria encarnar
fazendo a felicidade desabar
de vez sobre os homens!

O ESPANTALHO






quero que alguém me diga,
que é do meu canário,
será que amarelou
ou arribou asas do meu chão,
que é do meu rouxinol
diga lá, meu coração,
pinga-fogo apagou?

atravessei o Joca
fui ao Vapor, no roçado
colher milho para o fubá
na urupema sobrou xerém,
quirela restou na cuia
que é do tico-tico
cadê  meu  bocado
de sentimento, meus ais

espero dissipar
quero-quero já, meu amor!

será que de tanto
ouvir meu penar
arribação se foi
sabiá voou, desatou voo,
deixando-me apenas eu,
colibri de flor e flor


agora sou teu solitário tetéu
afoito com pobres rimas,
cadê bem-te-vi,
cadê meu bem
que faz tempo não vejo

desde a última chuva,
será que de tanto
ouvir meu lamento
joão-barreou minha  sina?

de espantalho-estou-de-plantão
assombrar o passaredo, minha missão,
parecendo um judas
prestes a ser malhado
em pleno sábado de aleluia!
já pensou que alegria
se existisse espantalho
para espantar a saudade?
a gente colocava assim
pertinho do coração...

ESPARRAMADO PELA VIDA



sou filho de varzeano
o sangue corre na veia
nasci ali, vi a cruz
na beira do rio Joca
pelas mãos de Mãe Claudina
vim à luz, deitei no berço
na  rede de algodão
sob o vento do agreste
logo desde muito cedo
fui solto na capoeira
comi muito canapu
cresci junto com as ramas
do meu pé de jerimum

trago meu verso 
na ponta da língua,
verso catado no chão
no pingo do meio dia
debulhado assim 
debaixo do sol rachando
queimando minha poesia
que não morre à mingua, 
fundida com o sol a pino
nas cordas do meu feijão
apanhado na roça, 
no meu roçado arado
lá no Vapor de Zuquinha

quero com as minhas letras
abrir a porta e o ferrolho
a 'quilariar' minha lida
quebrar coco catolé
pra raspar na tapioca
adoçar com rapadura
meu cuscuz de milho zarolho

sendo filho dessa terra
sou mais um cabra da peste
que não teme aos agourentos
nem os quebrantos da vida
faço dos versos aragem
a aboiar meu lamento
como quem aparta o gado
sou bezerro desgarrado
que está longe da Vargem

o que trago é muito pouco
nesse meu canto tão arisco
que queima a alma brejeira
se não faço rimas, toadas
que me vêm na cumeeira
do meu fogo pensamento
viro logo uma fogueira
e assim vivo inquieto 
a fazer minha poesia

sou menino varzeano
esparramado pela vida
a compor o meu destino
canto e choro a minha sina,
desbravo a mata virgem
renovando de esperanças
meu bornal de fantasias!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ANDAR E VOAR...

 autor: João Ludugero

meu galo-de-campina
meu canário-de-chão
meu pintassilgo 
meu bem-te-vi
meu sabiá
meu pássaro do agreste
venha andar e voar,
andar comigo 
nesse solo sagrado
voar até o alaranjado por-de-sol,
o mais bonito, sem dúvida,
a dourar a folha do crepúsculo
numa página bem vivida 

janelas do coração alado,
abrindo suas asas 
e bordando o poente
acalentando a minha Várzea
com suave cantiga 
que rasga a brisa e o sereno
e ainda mais enfeita o mulungu
com suas flores quase encarnadas,
que finca bandeira nesse chão
só pra desabrochar a linda flor
que bem-me-quer mais feliz
na terra prometida

menino varzeano,

eu sonho acordado,
no afã de quem viu 
um novo amanhã, o porvir
com a natureza 
em sua essência revelada
nas cores da terra



menino varzeano, 
venha olhar e ver 
num traço de poema
como há cultura nesse caldeirão
orgulho, orgulho sim dessa terra-chã,
sou braço do rio Joca, 

sou verso a unir Calango e beija-flor!

VÁRZEA É ASSIM

num pouso suave, a bela Várzea
aterrissou no agreste
aqui, na esquina de Seu Olival

cabe uma parada obrigatória
uma pitada de prosa já, 

coisas da cidade
 

minha Várzea, meu pássaro
de asas abertas, a todos acolhe
em tua hospitalidade
pacata gente que desfila

simplicidade pelas quatro bocas
bacurau ou corujão 

utopias, não importa
aqui, a todos é permitido sonhar


hoje jovem senhora,

cinquentinha,
mais bela que outrora,
duas palmeiras majestosas
compartilham teu céu azul,
em tuas praças há vidas
entre calçadas há flores
e varzeanos que por ti 

morrem de amores
que mais posso dizer,
se sou um deles?

BAGACEIRA


passo o tempo,
atiro Seixos
cruzo riachos
atravesso a Vargem
sempre reto,
cabeça erguida 
desfaço meu trajeto
sem peias,
pulo o mata-burro
e não fico cego
apesar dos pesares,
sigo a seta
do meu coração
Vapor vital,
esfumaço
 

a paixão me chama
vou direto
para o Maracujá,
relaxado e calmo
estou na minha Várzea,
vou me lambuzar,
banhar-me no riacho
do mel, de melaço
chupar cana-caiana
e arremessar o bagaço
bem na cara da tristeza

a solidão, essa impostora,  
que não entra em cartaz
na minha vida, se afasta,
não tem vez essa praga
de erva-daninha, parasita,
não a deixo se esparramar 
na minha sala-de-estar

VIAGEM INTERIOR


EU TRAGO NO OLHAR
AS CORES DA TERRA
O CHEIRO DE MATO
CAVALGADA
ESSA ESTRADA ME CHAMA
VIAJO
PRO INTERIOR
SOB O VAPOR 
DO RIACHO
DO MEL
O PÓLEN
O NÉCTAR
DE UMBU-CAJÁ-MANGA

MARACUJÁ-TAMARINDO
PITANGA
EU TRAGO
MINHA VÁRZEA
COM JEITO DE MATO,
ENGENHO E MELAÇO
PITOMBA NO SÍTIO
DE SEU TOTITA
COALHADA 
QUEIJO E TAPIOCA
NO REFÚGIO DO SEU TIDA
BATATA-DOCE NO RETIRO
DE SEU OLIVAL
LEMBRANÇAS
ZÉ CATOLÉ
ZÉ CANINDÉ
ZÉ LÚCIO
ZÉ MIRANDA

ITAPACURÁ ME CHAMA
EU VOU COM O PEITO EM FLOR
CAJU E CASTANHA
JENIPAPO,
TRAPIÁ, CARRO DE BOI
MACAMBIRAS E JUÁS
ANUS E PREÁS
MULUNGUS
GRAVATÁS

CALDO DE CANA-CAIANA
MINA D'ÁGUA
LAGOA COMPRIDA
VERTENTE ARISCO
CORAÇÃO SANGRANDO
FEITO UM CALANGO
AÇUDE CHEIO
CORES DA MINHA TERRA
LEITO DO JOCA
CAMINHO 
PRO INTERIOR

MEU BARCO ME CHAMA
DE PASSAGEM
MINHA MORADA
MINHA VÁRZEA
DAS ACÁCIAS
DA CULTURA
DA FELICIDADE

domingo, 11 de julho de 2010

VÁRZEA MÃE

autor: João Ludugero

deságuo de novo
no rio Joca
de águas salobras
de sol a pino
na tarde âmbar
a caminho do Vapor

não tenho pressa
contido em pensamentos
não penso menos
miro horizontes
divago ao vento,
o sangue pulsa na veia
escorre pelo desvão
do rio de Nozinho
que desce
banguela ribanceira
sob o olhar despalpebrado
da solidão
das lavadeiras
do riacho da cruz

ah, Nova Esperança e Gravatá
distantes da gente,
tão pertinho dos preás
dos Seixos
e seus espelhos d´água
que refletem o anil do céu
da Várzea mãe

ali nasceu Mateu Joca Chico
que era amigo de Capitão Gonçalo
que cantou o hino
que fincou o mastro
que hasteou a bandeira
sobre nossas cabeças,
aquela bandeira
cortada por um rio
algodão ornando
duas palmeiras
e o coqueiral
sob o céu varzeano,
de história,
de estrelas inegáveis

a cultura mora ali
muita gente mudou-se,
foi-se embora
morar com Deus,
muita gente chegou
a cidade evoluiu, é outra
e, mesmo quem não veio para construir
acabou varzeamado

RAÍZES


rua grande
rua nova
rua da matança
rua do arame 
rua Antonio Rosa
rua do Cruzeiro
rua São Pedro
Travessa Brasiliano Coelho
rua mateus Joca Chico 
rua tal
e o sol
pendurado num varal
amanhece

nunca mais solidão
o açude Calangou-se
em meu coração
dourada a luz 
do crepúsculo
bonito por de sol 
alaranjado 
 

verão das seis
ensolarado 
calda esparramada
no Vapor da hora do 'angelus'
Ave-Maria, cheia de graças
de Bentos
de Nenas
de Ninas
de Nucas
de Querubinas
de Nanucas
de Carmosinas
de Albanitas
de Santinas
de Claudinas
de Dalilas 
de Joaninhas
de Marreiros 
de Mulatos
dos Caicos 
de Belos
de Pegados
de Anacletos

vai pela mão do tempo
meu coração a gosto 
buscar no vão da memória
ensoldecida razão
para fazer esses versos
simplesmente 
para o registro desse amor
pelas coisas da terra
pelas suas raízes,
pelo resgate preciso
da história que fica
da minha gente varzeana
minha pacata gente 
da cidade da felicidade,
banhada de sol aos quatro cantos, 
minha Várzea da Cultura 

COM O CORAÇÃO NA MASSA



venha ligeiro, Nezinho,
se avexe, ora menino,
que logo o sol vai se por
e alaranjar o Calango,
vai mudar de cor o céu
se derramar em beleza
quase ficar encarnado
assim feito um fogaréu!

venha depressa, Nezinho,
traga logo esse fubá
a água já está fervendo
o milho cheira no ar,
não se atrase no caminho
passe sebo nas canelas,
prepare a massa com carinho,
pois dona Suli lhe espera
com um alguidar de farofa,
uma grelha de carne-de-sol
e um bolo de macaxeira!

e Seu Nezinho quando chega
traz seu bornal de pujança,
repleto de frutas lá do arisco,
erva-doce e alecrim, mangaba,
um balaio de manga,
uma fileira de caju e
um punhado de esperança

Quincas, não se canse,
corra lá na Padaria São Pedro,
traga um quilo de farinha
aproveite o ensejo
e deixe uma rosca na vizinha,
não se esqueça do fermento,
encomende uns  sequilhos
e mande ver no polvilho,
a goma espalhe na urupema,
vamos fazer tapioca,
venha o coco ralar,
aqui temos regalias
pitéus, broa, brote, grudes
bolachas e munguzá

e se faltar algum tempero
fale lá com a Terezinha Tomaz
que ela vai preparar
com afinco, com esmero
essa filha de padeiro
sabe cedo madrugar
para o sonho acender
ela sabe fazer pão
com tamanha maestria
não nega suas raízes

eu, poeta varzeano,
sigo com minhas lembranças,
antes de raiar o dia,
pelas barbas do apóstolo,
eu con-verso com alegria,
vou pegando essa vertente
e do pão faço poesia!

sábado, 10 de julho de 2010

BEM MAIS LEVE

autor: João Ludugero

nesse instante de mudança
tenho mais é que fretar
um caminhão
para poder caber
toda minha parafernália
são tantas coisas,
tantas miudezas
tantas picuinhas
tantos embrulhos
são tantas tralhas,
badulaques

são tantas bugigangas
que careço de um veículo
de uma grande carroceria,
para comportar
meu mobiliário,
meus bagulhos
meus trecos
meus troços
quero jogar fora
meus cacos
meus cacarecos
minha bagunça
meus grilos
meus parafusos
meus imbróglios

estou limpando
minha casa, minha sala

quero descartar
minhas velhas vestes,
meus trapos, de resto
meus ressentimentos
minhas quinquilharias
quero me desfazer
dos meus trastes,
das minhas algaravias,
alguns móveis usados

careço arrumar
minha confusão,
minha estante,
meus alfarrábios
meus arquivos,
minha cama, meu quarto 
postais, cartas e retratos

quero uma bagagem
de carga menos pesada,
preciso garantir um estilo
de vida mais leve
só pra meu coração,
mesmo assim 'recauchutado',
bater devidamente mais livre,
sem traumas ou enfado

sexta-feira, 9 de julho de 2010

INSPIRAÇÃO



AO UNIR VERSOS, 
ENFRENTO O DESERTO 
DEPARO-ME 
COM O OÁSIS-MEIO 
DA MINHA SEDE 
DE ESCREVER O QUE SINTO

REPLETO, 
SIGO A SINA

RISCO E RABISCO
COM OU SEM RIMA 
RASCUNHO
ARRISCO 
ARISCO À FORA
NÃO ME EXPIRO

RESPIRO POESIA 
PELOS POROS
PELOS VEIOS
PELAS VEIAS
PELOS CABELOS
PELOS CAPILARES
PELAS HORAS

EU ENGENHO MEU POEMA
MATÉRIA-PRIMA
FORMA, FORÇA E CORES 
BONS ARES INSPIRO
CHAMA A CORRER DENTRO
DO MEU CORAÇÃO VARZEANO,
VERTENTE LAGOA GRANDE

VASTIDÃO DE AMORES

quinta-feira, 8 de julho de 2010

DIA DE MUDANÇA

 autor: João Ludugero

dia de mudança
quero dar o fora nos copos trincados
nas louças e nas xícaras sem uso
preciso garantir espaço para o novo
atear fogo no supéfluo
e atirar suas cinzas no Calango
quero mudar a qualquer hora
da noite ou do dia, sem precisar
esconder nada, nem ter um pingo de vergonha
dos meus pratos de arestas aparadas
nem das traças dos meus velhos livros

não vou cortar caminho
nada a esconder, quero atravessar a rua grande
seguir pela Brasiliano Coelho de Oliveira
a guiar meu caminhão repleto de mudança
levando meus trambolhos
levando a herança de herdeiros de poucos herdados,
os engradados de uma cama finalmente em pé
seus colchões, seus travesseiros e lençóis
encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
e os incontáveis cacarecos soltos remexidos
e eu no meio de tudo, um ex-cara velho
que mira um retrato amarelado pelo tempo,
olha pra paisagem e quebra a moldura,
guardando imagens e lembranças
dos seus tempos idos

Porque agora é um novo dia
um dia de mudança

de inovar a cabeça e juntar os trapos
colando os cacos do meu coração
que surrado me faz bater e apanhar
num ritmo renovado, sem distúrbio,
depois do inesperado refluxo aórtico

MINHA VARGEM


autor: João Ludugero

eu já perdi meu andado
mas aprendi a voar com fé
a pairar no ar, plainar
pairar feito beija-flor ao vento
pedalando por estrelas
Vapor de tantas lembranças
ladeiras de sentimentos

rios, riachos de sonhos
acordados bem-te-vis
bem-te-vejo no meu brejo
pulos de caçotes e jias,
quero-quero meu tetéu
passarinho que traz a chuva
cantiga de sabiás
arribação na invernada,
menino de pé no chão
senti o solo da Vargem
voei num verso canoro
levando a vida que eu quis

fui direto ao coração
aboiei essa alegria

e nunca mais fiquei calado
e nunca mais fiquei sozinho
e nunca mais me deu banzo
na inquietude da lida

na tristeza dei rasteira, ré
em razão de ter bebido
do açude do Calango
e voar com a passarada
lá nas terras da Viúva!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O EMBARQUE NA ESTAÇÃO DA LUZ

(Homenagem de adeus ao Seu Nezinho Anacleto - 07/07/10)

Autor: João Ludugero

O sol da minha Várzea
hoje nasceu morno, manso e triste
a anunciar a partida
de Seu Nezinho Anacleto,
o pai do Joca, do Quincas
da Joana D'arc e da professora Vilma
e avô do João Victor e do Tomazinho

Sol mole, preguiçoso,
abre um olho na estação da vida
nuvens esfiapadas no céu
prenúncio da saudade,
que já toma seu lugar

nuvem de lágrima caindo
a se debulhar na casa de dona Suli

O adeus se derrama pelo chão
sedento daqueles passos de 88anos,
que cobriam o vazio que ora fica nesse chão.

Os dias vão passar.
Sua história de vida ficará nessa terra
de madrinha Joaninha Mulato,
a conceber memórias de eternas raízes

Os dias vão passar.
E neles permanecerá sua lembrança viva,
no peito dos que te amarão pra sempre.

O tempo passou.
Veio o vento e apagou a vela. 
O barco à vela rumou para outro rio,
esse rio desembocou num mar esplêndido;
O barco levando seu comandante Nezinho,
que iluminadamente 
acha-se repleto de paz
num reino de muita luz 

E o comadante está lá 
feliz ao lado do Pai, e diz:
Sigam, meus filhos, vivam suas vidas,
Vamos em frente,
que um dia nos encontraremos!

O barco vai, segue seu destino,
um reino de intensa luminosidade
e o comandante Nezinho, 
lá se foi encontrar com Deus,
e o barco desaparece além do céu varzeano, 
desaparece a vela.
o comandante, não, este nunca será esquecido;
será lembrado no rio do que ficou
a seguir para o mar do Amor
que não se esvazia nunca
no coração da gente!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

SOBRE-VIDA

autor: João Ludugero

curioso, um certo dia
meu filho me perguntou
de onde vem a vida
que a gente tem?
respondi, depressa,
Igor, ela não vem
está presente

a vida está no seu olhar
até no seu jeito de amar
na sua sede de saber
a vida está no seu caminho
na lição de casa, no respirar
na oração, na reza, no credo
na mesa, no carne, no pão
a vida está na linha da mão
no arroz, no feijão, no sonho
está até, meu filho, de certo,
no seu ponto de interrogação!

a vida está no seu mundo
nos seus brinquedos
nos seus desenhos e rabiscos
está no bocejar profundo
que copiamos um do outro
quando o sono chega
a vida está na renovada esperança
no velho que um dia também foi criança
no menino que um dia, de repente, será adulto
nas feridas, nas marcas, nas cicatrizes
nas lágrimas derramadas, no riso aberto

nas suas dúvidas sobre si mesmo
a vida está em todo o lugar
no tempo de cada estação
assim como a vida existe
a morte também está presente
ela vem até nas folhas de outono, caídas,
lavadas pela chuva, resignadamente.

É bela a forma desprendida
com que se oferecem à outra vida.
Mesmo quando tudo à volta parece
engolir-nos, há sempre uma promessa
a bordar esperança nas horas e nos dias,
algures
em forma de botão
só pra a vida recomeçar

DE TODO CORAÇÃO... UM NOVO JOÃO

autor: João Ludugero

Aos 27 de maio de 2010, meu coração foi aberto para o novo. Os ipês e as paineiras em Brasília  estavam em flor. Suas cores, suas luzes fendiam a pupila, acariciavam o dorso da sombra. E eu disparei flashes para retratá-los em sua beleza. Foi aí que fiz uma pausa. Foi então que – não sabia lá se pela última vez – a inocência voltava a entrar na minha vida. Instrospectivo, parei, na minha mente abriu-se um clarão momentâneo de grande luminosidade, eu fiz uma retrospectiva da minha vida, repassei o filme, cena a cena, eu reprisei slides na tela do cinema real onde eu sou o protagonista da história.

Operação. Anestesia geral. Peito aberto, coração com aneurisma aórtico de grau importante, nas mãos de Deus. Peito bordado, alinhavado, costurado. A sutura da minha operação, feita para unir e fechar as partes do esterno, deixou-me marcas, cicatrizes. Marcas no corpo.Terapia intensiva, corpo remediado, acordei daquilo que mais parecia um pesadelo. Acordei? Coração recém-saído do martelinho de ouro, recauchutado. Peito riscado, tatuado pela linha da vida.

Olhos, mãos, alma, tudo é NOVO – recomecei a prodigalizar alegria, uma alegria que não procura palavras porque o seu reino não é o da expressão.

Digamos que esta nova experiência, a que não quero dar nome, não se preocupa em interrogar, talvez por já não ser tempo de dúvidas, ou então por não lhe dizerem respeito essas verdades últimas, cegas como facas que há tempos se desafiaram, caíram em desuso.

Renasci. Estou pronto pra recomeçar. Acertando os ponteiros da minha cabeça, tirando o pé do acelerador, seguindo os compassos de meu coração-cuco. Nem louco nem lúcido, mas um tanto sóbrio, moderado e com enorme vontade de fazer o roteiro do recomeço, do João que nasceu de novo, de coração!

domingo, 4 de julho de 2010

A SOLIDÃO DO RIACHO DA CRUZ

 autor: João Ludugero

caminho pelas margens do rio Joca
rondo o verde conqueiral
pelo chão um velho espelho já trincado
mostra o azul do céu de Ângelo Bezerra
observo a capelinha do rio da cruz,
de portas abertas, sem tramelas
nenhuma vela acesa, abandono,
apenas a solidão da cruz
e um mundaréu de vagalumes
a piscar na boca da noite
além de um emoldurado de retrato
de um Jesus sereno
dependurado na parede ao vento

e do lado de fora ali na esquina
da casa de dona Irene de Deco,
de sentinela dois pilões de bojo carcomido
e um retorcido pé de bucha de flor amarela.
que se alastra  na cerca de arame farpado
a fazer companhia ao emaranhado
de melões de São Caetano

gente simples conversa no oitão
de suas casas simples, caiadas,
que acenam com seus cortinados,
ali na beira do rio descendo a rua do arame
segue um carro-de-boi rumo ao seu destino
vai levar capim para ração do gado
lá no sítio de Zé Canindé
vai levar cana caiana, mandiocas e manivas
para o replantio lá no Vapor de Zuquinha

e o meu coração peregrino de grande esperança
vai, na boleia da camioneta de seu Tida,
sou passageiro, vou carregando sonhos e poesia
vai, na traseira, carrada de velhas lembranças
e um punhado de versos aqui dispostos,
mesmo que tratem apenas da solidão
daquele pedaço de riacho que carrega uma cruz
quase esquecida num canto da rua do arame,
aqui acendo meu poema-vela no intuito
de que bem se cuide da alma do rio Joca
esse rio que fertiliza nossa Várzea amada

SÃO PEDRO, DE COSTAS PARA A RUA DO ARAME?


autor: João Ludugero

nas rua São Pedro atravesso becos
que vão dar na rua do arame,
ali onde ficava a casinha de taipa
da minha avó Dalila
ali onde morava dona Neda
ali onde ficava a bodega de Zé Anjo
onde a gente comprava puxa-puxa
e quebra-queixo de coco queimado

São Pedro continua lá no topo da igreja,
dizem as más línguas, de costas
para a rua do arame, não importa,
eu continuo enluarado de lembranças,
do tempo em que a gente pensava como criança
ou acreditava que a vida era rica de marré-de-si
e que o anel que ela nos desse era de ouro
que aquela rua simples era toda ladrilhada de brilhantes
que o nosso diamante era pra sempre, nossa eterna alegria
e a gente fazia do dia-a-dia uma ciranda dos contentes
ali mesmo na rua do arame, gente humilde
que tem a bênção do apóstolo padroeiro,
pois ele protege a todo varzeano, de frente e verso
seja bacurau ou corujão, ele une versos e avessos
na cor maciça do encanto
que faz a minha gente tão hospitaleira

E a gente brincava de viver na roda do tempo
mirava o sol pela carne das cantigas,
as meninas pulavam corda, pimentinhas,
e nós jogávamos bola no campo improvisado da rua de Lucila
a gente tinha o condão de acreditar que um dia a sorte chegaria
a gente era simplesmente feliz  ali na rua do arame

o tempo passou, a rua ficou, o sonho não acabou
apesar de que Magnólia de Antonio Horácio foi embora pro Rio
e nunca mais voltou;
dona Alice de Abílio foi morar no reino das maravilhas
e até dona Maria de Seu Odilon já foi morar do outro lado...
mas São Pedro ainda está lá
e com certeza, mesmo de costas, ele olha por nós todos,
até pelo avesso ele tem as chaves que abrem as portas
desse chão varzeamado, de fé e poesia!

às vezes entro na casa das lembranças
preso por um fio, presente-passado
durmo então melhor, acordo feliz da vida, resignado,
porque o que amo nem mesmo o silêncio vai me fazer calar,
porque eu tenho as minhas raízes fincadas ali
eu tenho uma história pra contar,
que não tem hora pra acabar,
pois sou poeta e ainda acredito na força do sonho
acordado, ainda sou aquele eterno menino varzeano cheio de memórias

sábado, 3 de julho de 2010

VÁRZEA NOSSA DE CADA DIA


autor: João Ludugero

minha terra tem ariscos de água doce
e os encantos do açude do Calango
de águas verdes-musgo silenciosas
que espelham o mais bonito por de sol
que alaranja o poente numa saudade
que mais parece brasa a queimar
o peito da gente toda tarde
quando as lembranças se agitam
e pegam carona em nossas veias
e invadem nossos corpos, nossas casas

eu descambo para os Seixos
e mando os bons ventos me levar
Itapacurá afora, além dos marmeleiros,
com a alma envolvida de paixão
emaranhado nas flores do Maracujá,
enveredo-me por trilhas a planejar
minhas vontades, percorro meu lugar
de ponta a ponta, retiros a dentro

e se o meu coração perde as rédeas,
é inevitável o descaminho, o deserto,
e a minha cabeça se desgoverna carente
se minha terra eu não alcançar, pereço,
noutros palácios não me sinto rei,
cedo anoiteço, de certo, pode apostar,
por isso, eu quero a catedral de São Pedro apóstolo,
quero minhas esquinas, amanhã não, agora, já!

quero viver esse amor que não se acaba aqui
quero fazer a minha história de poeta-sonhador
quero acordar, quero sorrir, quero sonhar,
quero varzeamar, ao sol de cada novo dia
ressuscitando na minha gente a alegria
dando novo sentido à vida que vou levar,
abrindo o cofre do meu coração-fortaleza
para abrigar as velhas e as renovadas esperanças!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

PARADEIROS II


autor: João Ludugero

se olhares e não me vires,
procures-me em qualquer lugar
onde eu possa estar
a viver-te mansamente
na saudade de ti ver

procures-me por perto
das duas palmeiras
sob o olhar de São Pedro
no topo da igreja, no alto
ou a atravessar a Brasiliano Coelho
indo por uma rua ou cortando um beco
pode ser que por lá, eu esteja a admirar
tua beleza, que corre longe, léguas e léguas
pelos trapiás, pelos gravatás, a banhar-me
nas águas dos lajedos, nos Seixos
pelos vertentes ariscos do agreste,
muito além das quatro bocas

procures-me nos ventos do Vapor
quem sabe eu seja aquela brisa
que te acaricia o corpo na subida
do açude do Calango,
a fazer tua caminhada de costume
no meio da tarde amena
ou em altas horas
numa madrugada quente
embaixo do pé de graviola
ali de frente à casa de Seu Odilon

procures-me no sol da manhã
que seca as gotas de orvalho
no capim da Vargem onde tudo começou
é bem provável, antecipo, seguramente,
que eu possa ser o calor que sentirás
quando a saudade te aparecer sem avisar,
apertando o peito como uma moenda
de cana-caiana a jorrar garapa pelo chão
a lambuzar o bronze da tua pele
ou quem sabe serei o suor que  percorre
teu rosto quando caminhares pelas areias
do rio Joca, ardendo de desejo e sede
de tanta vontade de me matar depressa
de cheiro no cangote, quando passeias
por esse solo fértil de tantas alegrias

mas, se tu olhares e não me vires,
não chores, não te desesperes à toa,
não te desanimes nem percas o prumo,
não canses assim tua beleza, meu amor,
observes ao teu redor, de certo acharás o rumo,
procures-me no cerne do teu coração varzeano,
estarei lá, com absoluta certeza!