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terça-feira, 31 de julho de 2012

ROMEU E O ÚLTIMO GOLE


Sou Romeu de tal, 
mais um cidadão 
que sobrevive de migalhas
alheias, dos sobejos de outrem,
do que sobra na dispensa do sobrado
onde se refastela o manda-chuva
Sou Romeu, aquele que acorda cedo,
madruga só pra ver estrelas no batente,
logo ao toque da estridente sirene
que me chama pra traçar a dura lida:
argamassa, tijolo, cimento e vigas,
só pra conseguir levantar muros e cobri-los,
fazer concreto, equilibrar-se no andaime.
Sou Romeu, aquele que constrói casas,
platibandas, paredes, tetos e janelas,
enquanto se esquece da vida num copo
quando traga voraz a cachaça,
aguardente de gosto amargo
que lhe queima a garganta, mas vai fundo...
Pobre Romeu! Seu corpo é um copo,
um copo que não mais lhe cabe.
Seu sonho é um prato do dia, sem deleite
do que já não mais sacia.
Seu caso é de cirrose crônica,
seu fígado virou um troço.
De tanto levantar copo esqueceu sua Julieta
que, sóbria, debandou, fugiu com outro
só pra não se cobrir de morte feito ele,
que já adivinha o tempo que lhe resta,
prestes a tragar seu último gole.

sábado, 28 de julho de 2012

INVERNO


QUE VENHA O INVERNO...
VISTO UM CASACO RETRÔ
OU UMA CAMISA DE FORÇA QUE SEJA,
POIS NÃO FAZ SENTIDO NÃO SER LOUCO.
ABRO MÃO DO CONTROLE REMOTO,
USO AS PERNAS, LEVANTO E MUDO
NÃO ME CALO, BERRO
LANÇO FARPAS, 
QUEIMO AS ACHAS
E AS ERVAS-DANINHAS.
LEVANTO AS VELAS... ACENDO-ME,
APARO AS ARESTAS, EIRAS E BEIRAS 
A TEMPO DE SÓ QUERER 
QUEM ME INFLAME AO CALOR.
DEPOIS DE TANTO VERÃO
QUE ME VENHA O INVERNO 
EU SOU TODO ABRAÇO,
MEIA QUENTE E FOGUEIRA.
SÓ SEI QUE UM DIA O FRIO CONGELA TUDO
E RESTARÃO APENAS
O PÓ, A POEIRA, 
E O VAPOR DAS HORAS,
NEM ANDOR, NEM ANDANÇAS
NEM ANDORINHAS.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

EX-VOTO


Fiz uma promessa, uma oferenda,
um pacto de fé, pra valer, 
pendurei um quadro na parede,
um retrato em preto e branco,
uma pintura, uma fotografia,
um ex-voto só pra curar 
um coração partido. 
esculpido em madeira, gesso e cera, 
botei meu coração na forma. 
Alcancei a graça advinda do credo,
ganhei coração novo em folha, de pé
depositei no altar de São Pedro,
perto da cruz sob as velas, o molde
do que estava adoecido e... acredite, 
sinto-me curado de vez, consentido
por força do voto ofertado 
ao pescador apóstolo.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

CUECÃO



Uns nascem pra ser o que são
Outros não se conformam não
Há bicudos que se beijam,
Uns descalços, outros tesão
seja por pés, sandálias ou sapatão.
Careca que quer fazer trança, arrepiar,
imberbe que quer barba de molho
Uns gostam de flores, outros botão;
Uns sisudos, trombudas carrancas,
Caras de tachos-cu-doce, bocas-de-pia-batismal.
Alguns preferem ficar sem partido, só na saliva
feitos Marias-vão-com-as-outras 
lá pra casa de mãe Joana.
Não saem de cima do muro, às turras,
não sabem se viram alas de bacurau 
ou se se aceitam como corujão...
Há quem fique só na mira, apolítico,
a balançar os brincos de falsos brilhantes,
com cara de paisagem, a ver navios ou
na esperança de ver o trem passar ao léu. 
Mas se as pessoas são como são
elas fascinam as pessoas que
não são como realmente são,
pois os sujeitos que são como
são já são atinados pelo jeito 
que são e pelo lado em questão,
de todos os lados, a tocar em qualquer banda.
Há quem não deixe passar em vão nem
a alegria de dormir peladão, de conchinha,
ou só de cuecão de algodão, samba-canção,
com uma mão no bolso e outra na meia furada.
Se a mão é tua, se a língua é tua, acerte na veia, mexa-se,
faça bom proveito, enfie o dedão no nariz quanto quiser
ou no fiofó de quem mais se interessar em meter 
o bedelho na vida alheia.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

HUMILDADE


E a pequena Ana Moita
tinha lá seu rico balaio 
de bonecas de milho
de cabelos louros e encarnados.
Ela desde cedo sonhava grande
humildemente a brincar 
com suas bonecas de milho.
Vestidas de verde palha,
não precisavam de pentes,
nem de trocar suas roupas
nem careciam de escovar os dentes.
A menina varzeana era tão feliz assim 
entretida com seu jeito de mato
onde as bonecas eram tão bonitas...
Não tinham defeito, airosas, 
eram plantadas na roça do Vapor
ou até colhidas no quintal da casa 
em um possante milharal.
As meninas de hoje
preferem outros brincos,
outras brincadeiras.

terça-feira, 24 de julho de 2012

UMA CANÇÃO QUE TOCA SAUDADE

A lembrança toca saudade em poema
frente ao mercadinho da minha Várzea. 
Velha canção, sempre a mesma, 
atravessa a Brasiliano Coelho. 
De que adianta colher as horas, em suma, 
num bater de cascos incansável 
se o tempo não faz desapear o andarilho 
nem o desvia do caminho, 
nem o faz arredar o pé 
nem debandar dali em retirada, 
depois de tantas luas, 
depois de tantos sóis vividos. 
Mas aonde vai dar essa estrada 
se o poeta sempre está às voltas 
com seu coração partido?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A CHUVA CAI...



A chuva cai na Várzea... 

O poema molhado 
no chão ainda respira. 
Uma leva grudada ao solo vai ao Vapor 
e outra almeja o riachão que a escorre 
A chuva traz mais vida 
ao riacho do mel 
enquanto semeio 
palavras de amor 
E o amor versado do outro lado 
do rio Joca faz o agreste verde aparecer. 
A chuva cai na Várzea das Acácias 
e o poeta de braços abertos 
a exalta, encantado, 
molha a face, comemora 
a esperança que ora se renova 
além das quatro bocas 
que bebem do seu poema 
sendo levado com elas como aquarela. 
Cheia de céu, a chuva cai 
e o sol pronuncia 
seus raios amarelos, 
seus elos aquecidos, 
sob a terra nua a se vestir 
num porvir de flores. 
Meu poema segue, 
encharcado, mas legível 
e então posso lapidá-lo 
varzeanamente 
como uma preciosa joia. 

sábado, 21 de julho de 2012

MEMÓRIAS DO INTERIOR DA VELHA INFÂNCIA

Que saudade da vida em Várzea
De brincar na velha praça do encontro
Sonhos de menino levado da breca
Tomar banho no açude do Calango
Pescar no rio Joca, sentir o cheiro do mato
Ir na casa de farinha comer beiju, grude e angu, 
Saborear uma boa tapioca no Vapor,
Tomar leite no curral do seu Tida,
Fazer uma fritada de piabas na caçarola,
Assar queijo-de-coalho na brasa do fogão à lenha,
Sem esquecer da carne de porco, 
Do picado e do crocante torresmo fresquinho
À moda de dona Rosa de seu Antonio Ventinha.
Tanta coisa que faz a gente salivar e sonhar...
Ah! Tempos que não voltam mais!
Tempo de doce de leite, puxa-puxas, raivas, 
Carrapichos, cocadas e peitos de moça
E daquela manteiga de garrafa 
Feita de natas apuradas na tigela
E do bolo com caldo-de-cana lá no bar do Biga, 
E a molecada, em torno do antigo mercadinho,
Fazendo escarcéu...
Ah! Que saudade da Várzea 
De minha infância!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

FOGO DO ITAPACURÁ



Rede avarandada no alpendre
da casa de tio João Pequeno.
Fogão de lenha a recender
cheiro das temperanças do Itapacurá.
O silêncio esfumaça no ar.
Sombras e tisna pelas paredes...
O bule de ágata com alguns descasques na tinta azul.
Um cheiro de café coado no saco de pano,
capins santos, ervas doces e cidreiras.
Cuias com broas de fubá, tachos de goiabada-cascão,
compotas de caju, doce deleite.
Um alguidar cheio de batatas-doces cozidas,
milho assado na palha e tapiocas.
Dona Zefinha cheia de muitas estórias
de assombração, de almas penadas.
O nicho do oratório repleto de santos
e flores de crepom azuis e encarnadas,
velas-de-sete-dias a queimar cismas.
Dona Zefinha ronda vigilante e quieta,
abanando o fogo em brasas incandescentes
a alumiar a pequena cozinha. Apenas o fogaréu,
as achas-de-lenha a crepitar,
enquanto um magote de meninos
traquinas espia pelo buraco
da tramela a brejeira Joaninha
que se despe junto à bica do banheiro de pau-a-pique...
A inocência se desnuda, sem vergonha de ser linda
com seus peitos de sapeca menina-moça...
O sabão escorrega, a espuma desce e lava a alma
de quem está na espreita, limpando a vista...
Madeiras estalam na dança das labaredas,
enquanto a menina com seios de dois limões e pêlos ralos,
bem se apanha ao se banhar contente,
sem motivo para esconder as coisas de Deus,
se deixando gostar de ser curiada e benquista.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O PILÃO DE MARINAM DE LICA


E a Marinam de Lica desde menina
bate no pilão a fartura.
Bate milho zarolho, fubá,
mandioca-mole, gergelim
paçoca de carne-seca,
café torrado no tacho
rapadura, amendoim
goma e coco ralado
pra formar peito-de-moça
carrapicho, pé-de-moleque, 
bolo preto, xerém para munguzá.
E a Marinam de Lica,
desde cedo, prendada menina,
capricha nos grudes, sem remancho.
E só de manjar dá água na boca
só de se sentir o aroma, a temperança 
que ganha as quatro bocas da Várzea
num perfume que recende a cravo e canela.
Como dá gosto de ver tantas guloseimas, 
espiar ela meter a mão na lida, sovar a massa. 
Ela não se avexa antes de dar o último ponto 
no fio do puxa-puxa da cocada. 
E olha lá que o sol já se deita no Calango,
e a estrela d'Alva aponta vespertina,
ao bater do pilão, enquanto Marinam de Lica
aparece na porta da cozinha, esbaforida, mas feliz, 
ao passo em que a lua de tapioca se aproxima 
ao quebra-queixo da tarde, Ave-Maria!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

IPÊ AMARELO


E o meu dia raia mais belo
ao deslumbre das flores amarelas
que despencam ao desabrochar
do Ipê amarelo, coisa mais bonita!
E são tantos os sóis floridos
a dissipar as agruras da lida
que passo a contemplar o céu
com um sorriso mais de dentro.
O que me inteira de beleza,
só pra ficar completo nessa dádiva
de ver de perto tantos buquês 
numa só explosão de flores
como a que nos oferece de graça 
o Ipê amarelo!

LEVADO DA BRECA



Estire a língua, faça caretas,

arreganhe os olhos,
desfaça a tromba,
arremede seus medos,
chacoalhe o esqueleto, 
dê o dedo ao tédio, cutuque-se,
plante bananeira, belisque-se,
erga a cabeça, requebre a bunda,
dance a salsa ou o kuduro,
dane-se a tristeza, encante-se,
que seja no claro ou no escuro
permita-se escancarar a gosto, vire-se, 
passe sebo nas canelas, apanhe-se,
mexa-se pra qualquer lado,
só não deixe a vida curta
passar em brancas nuvens!

sábado, 14 de julho de 2012

CHAMEGO

Hoje eu só quero um carinho, 
um flerte compartilhado, um café, 
apenas um bem estar perto 
de alguém, um cafuné 
grudado em alguém 
que me enleve no bico, 
preciso bem te ver 
a sorrir de verdade 
sem colas nem ceras, 
encantado assim, a brincar sério, 
a me tirar penas, sem nenhum dó, 
sincera mente, sem juras nem alianças. 
Careço um pouco dessas manhas 
de alguém que me pegue e me apanhe. 
Necessito de mim, sem neuras, 
alguém que viaje comigo em pensamento, 
que me tire pra dançar de outra maneira, 
que me leve inteiro, eiras e beiras, 
com os pés no chão a andar e voar 
em arteiro atrevimento 
e inusitadas artimanhas.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CARRINHO DE ROLIMÃ


Com chuva ou com sol
a diversão era garantida.
A gente se contentava com pouco,
ninguém pretendia ser campeão.
Eu, junto com um magote de traquinas -
Naldo de Chico Pedra, Xibimba
Picica de Xinene Paulino
e Chiquinho de Seu Antonio Euzébio -
subíamos e descíamos atravessando
a Brasiliano Coelho de Oliveira,
onde a gente comungava a alegria
que nos fazia ganhar o mundo
deslizando as ladeiras feito loucos.
Mas, o que mais valia acima de tudo,
não era vencer! isso é verdade,
valia sim a participação,
na corrida da manhã da amizade,
até ganhar as quatro bocas
pela tarde amena da nossa Várzea das Acácias.
E agora eu aqui, relembrando a velha infância,
brincadeiras de meninos,
travessuras de criança...
E a gente andava, deitava e rolava pelas ruas,
ganhava as alturas, sem tirar os pés do chão,
acelerando a alegria eternizada naquele tempo
nos carrinhos de rolimã!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CANARINHO



Eu encontro um cenário
depois dois canários da terra
e um terceiro no terreiro.
Foi assim com tua alegria solta,
desde que te vi 
no primeiro en/canto
que nunca mais me perdi do chão, 
reino onde mora a beleza nua.
Longe é voar 
palco afora e voltar 
peito aberto, 
amar-elo magia, 
dentro e alto pousar tua sina,
azulejando o céu varzeano.
Voa, canário, 
afoito me assanha
e traga à cena 
um pouco de tudo 
que fascina ao me levares no bico 
a ganhar o mundo porvir, 
seja no verso de cada manhã
seja entoando 
a mais linda melodia
ao trazeres o ouro do sol 
nas penas!

domingo, 8 de julho de 2012

DESABOTOANDO, CÁ COM MEUS BOTÕES!


Aos borbotões, bem transados,
Eles se abrem e se fecham em dádivas,
Adornam as vestes dos noivos, 
Que loucos ainda sonham com a lua arteira 
Que virá banhá-los no quarto crescente
Quando desnudos abrirem suas casas
Num despir de almas prateadas nuas,
Meio rasas num ansioso porvir a fundo
A se lambuzar de amores vida a dentro.
Que botão será esse no umbigo da vida 
Se não um pitoco de rosa orvalhada,
Quadrado ou redondo, cintilante bicho, 
'Brabuleta' de plástico que se desprende 
Do cabelo da menina airosa
Que traz  pêlos nas ventas
E não se contenta lá com seus botões.
A moça os colhe enquanto pode,
Pois o velho tempo continua voando:
E essa mesma flor que hoje lhes sorri,
Amanhã estará expirando seus botões, 
Que são um recado, um sinal, 
Um ponto de partida, um acesso 
Talvez um olho de sorte, um amuleto
Na fresta da fechadura, um artefato,
Um bico de peito, uma auréola afoita.
Que artifícios serão esses, me diga? 
No escuro do tato perfeito, de certo 
Qualquer coisa que apraz no toque de perto,
Quiçá um focinho de gato que jaz na espreita
Das coisas da intimidade de Deus.  
Que botões serão esses?
Por isso, sem recato, use seus botões a tempo,
E enquanto pode, viva a festejá-los,
Pois depois de haver perdido os áureos anos,
Terás o tempo inteiro para repousar.

sábado, 7 de julho de 2012

S.O.S. NATUREZA


Sem meio não há ambiente inteiro.
O homem muda o mundo. 
Evolução?
Não adianta camuflar 
os sentidos aos choques, 
tapar os ouvidos, 
fechar os olhos à situação
onde imperam as afiadas 
e cegas 
serras elétricas do progresso. 
E a boca calada provoca desequilíbrio. 
Silêncio que cala consente 
a derrubada da mata. 
Se a boca é muda, 
desmata-se, a mata é morta.
Morre o rio assoreado, 
estanca o ribeiro.
E adeus ao mel do riacho, 
que perde seu curso, 
eiras e beiras.
É morte certa. O rio seca. 
Catástrofe. Impacto ambiental. 
A natureza poluída chora 
suas perdas. Efeito?
Então, respire fundo...
inspire essa ideia, estufe o peito, 
abra os pulmões, 
abrace essa causa, agora-já!
Mexa-se e grite: alto lá! 
Carecemos salvar 
o que resta 
do resto do mundo!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

OLHA O PASSARINHO!

E lá estava a geringonça 
No meio da praça 
Montada no tripé 
A objetivar o "giz" da graça! 
Como meio de expressar 
O instante preciso e transitório. 
Quanto sujeito fez pose 
Pra mostrar a cara lavada, 
Feito o cão chupando manga 
Ou o diacho a 3x4 em foco! 
Só pra refrescar a memória, 
Aahh! cenas e cenário, identidade, 
Palco do sorriso Kolinos cheio 
De dentes clareando os cinzas, 
Numa fugaz alegria a flertar a lida 
Que mesmo em preto e branco 
Reluzia aos flashes. 
Não era assim um fotógrafo 
"à la minute" desses de agora, 
Mas o lambe-lambe 
Tinha lá seu glamour 
Ensolarado de contente 
A registrar instantes a serem 
guardados pra sempre na moldura, 
Mesmo em face de não se revelar 
O interior da gente. 
E quanta criatura arrumou os bigodes, 
Abrilhantou os fios de cabelos na saliva, 
Fazendo caras e bocas ao ar livre... e clic! 
E "olha o passarinho!" à espera do primeiro 
Que bem se queria espiar 
Retratado na fotografia.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

VOO DE BICICLETA


Gosto demais de pedalar,
ganho a estrada longe
até chegar no horizonte azul
contente da vida que me guia.
Eu voo na minha bicicleta por aí,
com toda garra e força, montado
no ânimo disparo mundo afora.
Quando monto nela, corro alto,
chego mais perto das estrelas, 
esqueço até que ela tem dois pedais
simplesmente me esqueço disso
e só me encontro quando percebo
que criei asas pelo céu aberto.
Daí me sustento pelo vão que me leva
sem lamentar as dores e os ais
que trago assim nos dois calcanhares.
Parece até que chego a ter mais !
Da Várzea onde ando passo a espiar
com mais demora os canteiros riachão a dentro,
sou um sonhador acordado, sem paradeiros, 
viajo o mundo inteiro a pedalar, a me seguir 
levando-me a sério, satisfeito eu brinco
por cima das árvores, eu saio do chão
voo correndo pelo interior, com todo vigor,
na minha bicicleta pedalando em pé, por todos os lados,
abro um clarão na mata, me descubro ainda mais disposto 
ao destrancar as cancelas do peito, na marra, às escâncaras,
e quando dou por conta de mim, estou assim reverdecido
a contemplar as esperanças novas
que me completam a todo Vapor!

terça-feira, 3 de julho de 2012

PÁSSARO VERDE


Na boca da noite,
ao açoite do vento 
ainda cavalgo firme
um tanto e quanto vago,
sem estranhar tantos pirilampos 
vagando em meus olhos
sob a cadência das estrelas
que circundam meu pensamento,
desvelando o destino da gente.
Caminho lado a lado
com o açude do Calango,
olho para trás, sem medo, 
pontos de luz, vejo uma pequena cidade
miro uma saudade latente,
uma fome de escrever Várzea,
uma sede de lá amanhecer,
fonte a jorrar pelos ariscos,
ir um pouco mais adiante 
feito um pássaro verde disposto
indo ao encontro do sereno Vapor,
deitar no ninho próximo ao alpendre,
ali no Riachão, quem sabe menino travesso 
ficar com meus anzóis ao léu, tomar banho de rio,
só pra ficar à-toa, indo pescar no Joca
bem ali na minha Várzea de São Pedro apóstolo.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O VALOR DAS COISAS DO INTERIOR

Eu abria porteiras lá na Várzea,
eu jogava bola, de pé no chão, 
eu andava e voava na capoeira, 
inventando bichos a completar a paisagem 
seguia com as nuvens dos ariscos ao Vapor: 
criando bois, cavalos, carneiros e cabras. 
Eu ganhava o mundo 
pelas quatro bocas, 
eu nadava no rio Joca 
desnudo, mas vestido 
de esperanças novas. 
Eu corria os olhos pela manhã 
carregando o sol nos ombros,
pegando o impulso no arranque
de rolimã numa ladeira, de súbito, 
no intuito de me viciar nessa ilusão 
mirando nas coisas de maior valia, 
aquelas que são bonitas de nascença 
como a gente as vê, de dentro, de certo, 
assim tão simples se mensuradas de perto 
a partir do coração de quem sabe ser rico. 
Foi por ter assim vivido, livre, leve e solto, 
que ora me acho, não dono de botijas de ouro, 
mas feliz por me sentir assim um cara de sorte 
pra lá de afortunado, dono de uns tantos tesouros 
que não se acabam quando se exaure o dinheiro.